ESCOLA DE GLADIADORES

Lembram-se, claro, de Steve Bannon, da “mente superior” que, descobrindo novos horizontes para o mundo, se tornou o principal estratega político do azougado Presidente Trump, de tão má memória para a maior parte do mundo embora, diga-se de verdade, ainda tenha quem o acompanhe nas suas vulcânicas incapacidades. O herdeiro de hotéis nunca conseguiu perder o seu travo boçal de mediocridade, nem com os conselhos sagazes do seu amigo Steve, sempre muito oportuno em escolher os protagonistas que melhor sirvam os seus propósitos. Bannon espalhou a sua perigosa peçonha, com o destaque que a sua presença sempre merecia, na Sala Oval e seus anexos mas o resultado, como diz a canção, “foi aquilo que se viu”. Retirou-se a tempo, antes de o próprio Trump, seguindo os seus avisados conselhos, se entreter a despedir todos os que à sua volta começaram a não estar de acordo com ele.

Bannon veio para a Europa, mais precisamente para Londres, onde constituiu a sede da sua empresa de consultoria de estratégia política. Daí passou a ramificar as suas atividades, através de conferências apoiadas por grupos financeiros importantes, propondo sempre o populismo e a defesa persistente das raízes judaico-cristãs da civilização ocidental. Dirigentes de muitos e conhecidos partidos da chamada extrema direita europeia passaram a recebê-lo com volúpia e a pagar-lhe principescamente, claro, as virtudes do seu saber. Bannon passou a ser a chancela mediática do populismo europeu e, por outro lado, a criar enormes preocupações no seio das instituições democráticas que as ideias deste novos tempos têm vindo, progressivamente, a ameaçar.

Depois de percorrer diversos países e divulgar as suas doutrinas de direita autoritária, extremista e populista pensou instalar-se em Itália (à sombra dos amigos que por lá tem cativado) propondo-se criar uma “universidade de soberanistas”, perto de Roma. O projeto recebeu o apoio de um Ministério da Cultura falido e sem qualquer ideia de profissionalismo, de associações radicais locais, jornalistas trabalhando por conta desses interesses radicais, velhos meios clericais e de forças fundamentalistas em luta contra o Papa Francisco, tudo financiado por fontes obscuras mais ou menos secretas, dispondo de meios informáticos altamente sofisticados. A futura universidade ficaria situada em Collepardo, a uma hora e meia de Roma, ocupando uma gigantesca abadia construida em 1204, rodeada de milhares de hectares de árvores milenares. A abadia é habitada apenas por um antigo lobista inglês de 46 anos, Benjamin Harnwell, braço armado de Steve Bannon, que comanda a associação Dignitatis Humanae Institute (DHI) que criou em 2008 para defesa das tais “raízes judaico-cristãs da civilização ocidental”. A instalação de Harnwell na abadia decorreu de um concurso viciado, com um único concorrente, cujo contrato de concessão é assinado em 2018. Seis meses depois da assinatura, Steve Bannon declara que a abadia será o centro mundial dos soberanistas, apelidando-a mesmo de “Escola de Gladiadores”. Segundo as suas declarações ao New Yorker a “ideia seria construir uma resposta de direita à Fondation Open Society de George Soros que apoiou as suas ações em ONGs, diversos governos e meios de comunicação”. O seu plano seria a criação de quadros de direita soberanista em todo o mundo. As dúvidas governamentais começaram, no entanto, a serem muitas depois de se descobrir a imensa documentação falsa que tinha levado à concessão. Depois de muitas diligências judiciais a revogação do contrato foi aprovado em 31 de Maio de 2019 e o decreto de anulação publicado a 16 de Outubro.

Foi esta, na realidade, a primeira grande derrota política de Steve Bannon. Os populistas radicais internacionais interiorizaram mal esta diligência mal sucedida. As democracias tradicionais reconhecem os perigos que estes novos movimentos representam em todos os países. No nosso também. Os esquemas são conhecidos, os negacionismos pululam, os soberanistas expandem-se. Sabemos o que se tem passado e passa por este mundo fora. Os Trumps, os Bolsonaros, os Putins, os Erdogans, os Orbans e muitos outros não são obras do acaso. São os resultados destas filosofias políticas que se espalham sob a capa de “escolas de gladiadores”. E Steve Bannon diz que ” se a Itália não nos quer cá, farei a universidade em qualquer país que nos abra os braços”.

Aqui fica uma revisão de acontecimentos recentes que, em boa verdade, nos preocupam.

Um pensamento sobre “ESCOLA DE GLADIADORES

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