ART DECO EM LISBOA

A Art Déco (francesismo há muito adotado e assumido) é um estilo artístico de artes visuais, como arquitetura, decoração de interiores, desenho industrial, moda, pintura, artes gráficas, cinema, que começou na Europa em 1910, conheceu o seu apogeu entre os anos 20 e 30 do século passado e declinou entre 1935 e 39. O seu nome tem como origem a abreviatura de Artes Decorativas desenvolvidas na Exposição Internacional de Artes Decorativas e Industriais Modernas, realizada em Paris em 1925. O pico da sua popularidade na Europa teve lugar nos chamados “Loucos Anos 20” e nos Estados Unidos atravessou toda a década de 30. A Art Deco não teve uma filosofia artística própria, foi antes uma sobreposição de estilos diversos com objetivos mais decorativos, funcionais e elegantes. Marcou a sua exuberância com o que se chamou de Arte Nova, com objetos de decoração geometrizada na arquitetura, escultura, jóias, móveis, candeeiros de iluminação. Foi um estilo que durou cerca de 40 anos e que foi perdendo o seu fulgor com a chegada da guerra e o aparecimento de estilos mais modernos e radicais. Manteve, no entanto, a sua beleza estética para muitos apreciadores e os milhares de peças existentes dessa época são hoje fortemente disputados.

Esta introdução vem a propósito de recente inauguração em Lisboa do Museu de Art Deco, com o nome próprio e institucional de B-MAD. O edifício, localizado na Rua 1º de Maio, nº 24, em Alcântara, e toda a coleção exposta são propriedade da Fundação Comendador Berardo. A exposição está, no entanto, ainda numa fase inaugural sem acesso indiscriminado de público. As visitas têm que ser marcadas antecipadamente e são feitas, na data marcada, em grupos de 8 pessoas acompanhadas por guias muito competentes. As centenas de peças ali expostas ocupam muitos dos espaços do palacete de Alcântara cuja história abordaremos mais adiante. Para além da beleza das peças será de realçar a mestria dos dois curadores escolhidos e designados para montagem da exposição: o francês Emmanuel Breon, diretor do Museu de Saint Quentin e o brasileiro Márcio Reuter, Presidente do Instituto de Art Deco do Rio de Janeiro. É, sem dúvida, uma visita que deve ser feita de forma lenta para que se possa digerir a multidão de peças e autores ali expostos. Mas a possibilidade que, de momento, nos é dada (cerca de uma hora) é altamente compensadora.

Aqui vos deixamos as fotos de duas das muitas peças expostas. O estilo da jarra é inconfundível. O quadro, da autoria do húngaro Bela de Kristo (1920-2006), não deixa de nos recordar Amadeu de Sousa Cardoso. Foram artistas da mesma época cujas inspirações se misturavam com grande facilidade no estilo da época. São apenas dois aperitivos para vos entusiasmar à visita que decerto farão.

Mas para além da exposição propriamente dita é impossível não apreciar o palacete em que ela se encontra. Tem uma história que vale a pena recordar, ainda com o aliciante de termos sido acompanhados na visita pelo último proprietário ( nosso especial amigo João Filipe Bugalho) antes da Fundação do Comendador.

O palacete foi mandado construir pelo Marquês de Abrantes, no século XVIII. Depois de regressar de Roma em 1718 o Marquês de Fontes recebeu, nesse ano, o título nobiliárquico de Marquês de Abrantes por decreto de D. João V. O atual titular (11º marquês de Abrantes) é D. José de Lencastre e Távora. Depois do terramoto de 1755 o Marquês mandou construir enormes palacetes, num dos quais viveu, na Calçada Marquês de Abrantes, em Santos-o-Velho, onde hoje se encontra a Embaixada de França. De entre os diversos palacetes que fez construir em diversas zonas da cidade, surge também este, na Rua 1º de Maio, numa zona desde há muito conhecida por zona do Calvário. Ainda nesta rua foi construido pelos marqueses de Sabugosa, aproximadamente na mesma época, o Palácio Sabugosa (antes S. Lourenço). É curioso saber-se que esta rua 1º de Maio era a antiga Rua S. Joaquim, ao Calvário.

Mas voltemos ao palacete do Marquês de Abrantes. Nos finais do século XIX foi vendido a uma familia russa e, durante anos, foi o consulado da Rússia em Portugal. A bisavó do recente proprietário comprou, a esta família russa inicial, em 1906, o palacete onde passaram a viver. Em 1912, por iniciativa do Professor António Flores, filho da proprietária,começaram as intervenções arquitetónicas no edifício, as primeiras pelo arquiteto Raul Lino, que criou um 2º andar e um sòtão com torreão e mirante onde a família do nosso amigo passou a viver. Muitos dos salões foram alterados e enriquecidos com notáveis painéis de azulejos , muitos deles retirados sob a supervisão do Eng.Santos Simões e aplicados numa casa de família em Castelo de Vide. Mais tarde realizaram-se mais adaptações no palacete, agora sob a autoria do Arquiteto Carlos Ramos, do Porto. Este famoso arquiteto projetou o Hospital Júlio de Matos em estreita colaboração com o Prof. António Pereira Flores, avô do meu amigo proprietário, o qual foi posteriormente Diretor daquele hospital (existe uma rua em Lisboa, na zona da Cidade Universitária, com o nome do Prof. António Pereira Flores). Ainda participou em algumas daquelas remodelações o famoso arquiteto Ernesto Korrodi que, além da sua participação neste palácio, projetou também o edifício em estilo Arte Nova na Rua Braaamcamp, nº 6, em Lisboa, o Grande Hotel Guadiana em Vila Real de Santo António (ainda existente e recentemente modificado), entre muitos outros.

Finalmente chegou o ano de 2015 em que a Fundação Berardo comprou o palacete, com a condição explícita de não o destruir e, pelo contrário, mantê-lo e adaptá-lo ao novo fim em vista, o Museu de ArtDeco. Foi, naturalmente, a solução privilegiada pelos proprietários na altura em que um Grupo de investimentos canadiano já apresentava proposta para compra do imóvel e transformá-lo em hotel.

Outra muito feliz condição da compra-venda foi todo o projeto de remodelação e adaptação ser entregue à Arquiteta Maria Manuela Oliveira, já com larga experiência em remodelações urbanas. Casada com João Bugalho dificilmente mais alguém poderia conhecer como ela as particularidades históricas do edifício. A obra que ali foi feita merece uma observação atenta em relação às particularidades que poderão passar despercebidas. Readaptações de espaços, eliminação de portas e vãos, reposição de tetos com baixos relevos em estuque (atualmente de difícil execução), preparação de espaços e ligações que permitissem uma fluidez natural nas visitas às peças expostas são detalhes de grande preciosismo que os curadores, de certeza, muito agradeceram.

Apenas como apontamentos históricos não me dispenso de chamar a atenção para uma enorme lareira , desenho do Arq. Carlos Ramos,(que portanto já lá se encontrava antes desta última intervenção) que, pelo seu peso, exigiu estar suspensa em vigas de ferro no piso superior e não apoiada no pavimento, como parece.

E muitos anos atrás, no tempo em que apareceu o famoso torreão, havia um canal ligado ao rio que permitia às pessoas, com o aproveitar das marés, ir até à baixa de Lisboa de barco e voltar, claro, pelo mesmo meio qundo a maré o permitisse.

Aqui ficam as minhas impressões da visita ao Museu B-MAD. Uma visita que recomendo vivamente, pelos objetos da exposição e pela palpitante história do edifício. E se não se demorarem muito na vossa visita , arriscam-se a participar numa prova dos melhores vinhos da Bacalhoa que também pertencem à Fundação.

Obrigado pela visita e boa sorte aos próximos visitantes.

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