O Festival da Canção e a Eurovisiologia

Desde há muitos anos que os Festivais da Canção da Eurovisão deixaram de se preocupar com a genuidade nacional de cada uma das canções apresentadas. As modas e os caminhos internacionais da música assim o impuseram. Num festival daquela natureza, visto por imensa audiência, o que interessa são os grupos ou artistas individuais que lá vão cantar, rodeados de assombrosos efeitos digitais, com canções gritadas nos mais modernos estilos, com farpelas e ruídos que se disputam entre si, com base no absurdo das vestes e no ciclópico número de decibeis que projetam para o universo que os ouve. Para o “ouvinte normal” que ainda tente acompanhar um evento a que historicamente se habituou as músicas são “todas iguais”. O diabo que escolha e o diabo, neste caso, são os júris de cada um dos países. Conhecedores musicais, claro, que conseguem penetrar no cerne da melodia e qualificá-la de acordo com parâmetros e algoritmos que só os sábios da “arte” compreendem.

Não falo como entendedor nem como ouvinte persistente daquele evento. Os anos por que já passei levam-me a não o desdenhar e, pelo contrário, ir espreitando o que vai aparecendo na tela. Sempre com natural curiosidade pela representação portuguesa.

Mas descobri que, não há muito tempo (pelo menos com base nos elementos que colhi), surgiu uma nova disciplina chamada de “Eurovisiologia” que se ensina não sei onde mas que me pareceu ser fruto mais do interesse de personagens que, por essa Europa fora, se dedicam à comunicação musical dos diversos países. Suspeito, sem provas colhidas, que possa haver licenciaturas, mestrados e doutoramentos nesta matéria mas, disso não tenho dúvidas, há “Investigadores de Eurovisiologia”. Um deles é português e, segundo o que li, parece pessoa sabedora. Consultei a plataforma que nos identifica com as centenas de cursos disponíveis pelas universidades deste país e não encontrei a disciplina de Eurovisiologia. Talvez seja uma sub-secção de outra qualquer cadeira de comunicação. Também no meu tempo do Instituto Superior Técnico o Curso de Engenharia Eletrotécnica só tinha duas opções: “Correntes Fracas” ou “Correntes Fortes” e hoje há uma multidão de opções perante as quais a minha ignorância faz vénia respeitosa.

Mas enfim, acho giro esta coisa da Eurovisiologia e a influência social, pedagógica, musical, comunicacional e condição etária que diz poder estudar. Isto foi o que consegui apanhar nas minhas buscas mas reconheço que quando as ciências do cérebro se iniciaram ninguém sabia o que lhes havia de chamar e até onde poderiam ir. Mas também, por outro lado, faz-me recordar a eterna “ciência dos gambozinos” que povoou a nossa juventude sem que nunca alguém tenha encontrado a sua pista. Maledicência, claro…

Retomando o último festival da canção europeia diz o respeitado investigador em Eurovisiologia (Jorge Mangorrinha), num artigo publicado no Diário de Notícias, que “a canção deve ser vista como um todo” e que se deve ter em atenção o que “se passa nos bastidores do festival”. Deduz-se que as votações serão mais ou menos fluidas e dependentes de estratégias previamente estudadas e programadas pelos países concorrentes. Sem qualquer preparação em Eurovisiologia atrevo-me a concordar, aqui e ali, com as deduções do investigador que não deixam, no entanto, de serem fugazes e, por vezes, contraditórias.

Na minha ótica de observador trivial (como na de muitos amigos com quem troquei de ideias) as minhas conclusões são muito mais singelas e menos oblíquas. Os júris dos diversos países elegeram duas canções com melodias percetíveis, agradáveis e bem representativas dos seus ambientes de origem: a francesa e a suiça. A segunda parte da votação pertenceu ao público espalhado pelos diversos países e aí percebeu-se, com nitidez, a tal estratégia congeminada. As chamadas telefónicas, desencadeadas por meios informáticos antecipadamente programados, catapultaram a canção italiana de um modesto lugar na classificação dos jurados, para um primeiro lugar imbatível, atribuindo-lhe centenas de votos que espantaram as audiências. Nada tenho contra o “hard-rock” mas pegando na tal definição do nosso investigador de que ” a canção deve ser um um todo”, este “todo” nada teve a ver com a harmonia que se pretende perceber nas canções e que os jurados dos países parece terem compreendido. Parece que o grupo vencedor é bem conhecido no mundo da música mas para quem o viu naquela sessão tresandou a excesso e falta de simpatia. Mas, enfim, serão estes os caminhos dos festivais internacionais de canções. Serão mesmo? Cabe aos poderosos Eurovisiologistas pronunciarem-se sobre o assunto.

Desculpem a minha franqueza, mas eu não gostei da canção vencedora. Talvez pela idade fui mais seduzido para as canções escolhidas pelos júris nacionais. Nada disto é importante, claro, para além dos milhões que estão em causa. Ponto final!

Um pensamento sobre “O Festival da Canção e a Eurovisiologia

  1. Antigamente, quando as letras diziam alguma coisa aos ouvintes, eu apreciava o festival da canção nacional. Pouco a pouco fui perdendo o interesse e deixei de ver. Este ano por acaso, vi um pouco do nosso festival e achei extremamente bizarro que a canção vencedora fosse cantada em inglês. Mas se calhar estou a precisar dum curso de formação ou reformação por não achar isso natural…
    Pois se actualmente um vale é um voucher e a comida que se compra para levar para casa um takeaway..
    Mas pensando nas considerações do Manuel José é incompreensível como o Salvador Sobral ganhou um festival europeu da canção!

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