LUTAR PELA LITERATURA

Nos dias que correm o que mais se discute na comunicação social são as notícias falsas, a abundância incógnita de notícias, são os títulos gordos que encabeçam artigos praticamente sem conteúdo. São as meias notícias, o anonimato cobarde que se refugia no lamaçal das redes sociais (das que não prestam, claro) e que confunde os bem intencionados ou estimula os que aspiram a que tudo isso seja verdade. É a vida real dos dias hoje, com muitos meios tecnológicos, infelizmente, muitas vezes mal utilizados.

O escrever e ler (aquilo a que se chama, simplesmente, literatura) é um bem escasso e, por tudo isto, cada vez mais exigente. Foi recentemente publicado um livro com o título de “A Literatura é a Minha Vingança” que não é mais do que a publicação de uma entrevista realizada em 2009 (há doze anos), em Lima, no Peru, pelo jornalista Thierry Clermont do “Le Figaro”, aos dois escritores e amigos Claudio Magris e Mario Vargas Llosa. Tem havido, ao longo dos tempos, sobre este mesmo tema, muitos diálogos que, pelo reconhecimento dos seus autores e pela força dos seus argumentos, ficaram célebres e editados para futuras consultas. É o caso mais recente de Philip Roth com Primo Levi, o de 1980 entre Graham Greene e Anthony Burgess ou, esse de 1967, de Pasolini interrogando na televisão italiana, em Veneza, o proscrito Ezra Pound.

Em todas as áreas existem arquivos de diálogos ou entrevistas que se tornaram históricas devido à sua importância nas épocas em que tiveram lugar. O caso político português não escapa a essa regra com o registo em vídeo e edição em livro do famoso debate entre Mário Soares e Álvaro Cunhal, em Julho de 1975, organizado pela francesa Antene 2 em Lisboa. São tópicos de consulta que ficam para a História e que retratam as realidades dos seus tempos. São debates icónicos.

No caso que nos traz hoje aqui (“A Literatura é a Minha Vingança”) as perguntas feitas a Claude Magris e Mario Vargas Llosa revestem-se de curiosa atualidade, 21 anos depois da data em que tiveram lugar. Vou respigar algumas das perguntas feitas e a resposta que cada um deles deu, na oportunidade.

Passados 12 anos sobre a nossa conversa , mantém a mesma opinião sobre o escritor e o seu papel na sociedade e no mundo?

Vargas Llosa respondeu – A “frivolização” da literatura é um problema grave dos tempos atuais. A pandemia terá trazido algumas pessoas de regresso à leitura mas, de uma forma geral, recorrendo a uma literatura superficial. Raros são os escritores que ainda pensam que o romance pode mudar o curso da História. A leitura transformou-se num divertimento ligeiro, como a televisão, desviando a atenção do leitor dos grandes casos do mundo, das insatisfações e das razões de revolta.

Claude Magris respondeu: Pela minha parte acho que se tem tornado cada vez mais difícil a relação entre a literatura e o mundo. Os tempos que vivemos de pandemia, o triunfo total da economia de mercado e a globalização de quase tudo assaltaram o mais íntimo das pessoas. Tiveram, no fundo, o mesmo papel das guerras, talvez pior.

Poderá dizer-se que entrámos numa época de pos-literatura, com escritores que já não se preocupam em trabalhar a sua língua, o seu estilo?…

Vargas LlosaUma coisa é certa: não há hoje nenhum Flaubert que trabalhe religiosamente durante cinco anos num romance ou num ensaio. O escritor tem que responder aos pedidos do mercado, num mercado muito concorrencial. O compromisso do escritor deve ser determinante para a causa da liberdade para fugirmos à confusão e à mentira que nos atropelam.

Claude Magris – A expressão pos-literatura talvez seja um pouco vazia. Mas não há dúvida que o compromisso responsável está em declínio em todos os domínios, incluindo os setores mais importantes da literatura.

O primado dos valores universais, por força da ficção reinante, estará ameaçado?

Vargas Llosa – O problema é que se vive numa sociedade se superestruturas , políticas, económicas ou financeiras. Acredito na União Europeia, espaço onde nasceram a liberdade e a democracia, e acho que que nos poderá dar uma garantia contra as ameaças de nacionalismos e de vir a ter um papel importante no xadrez mundial.

Claude Magris – Sem dúvida que há fronteiras que se têm fechado, e não só as dos emigrantes. Assiste-se a um regresso dos povos às ideias de racismo, de nacionalismos e mesmo de micronacionalismos. Mas nesse domínio que pode fazer a literatura?

Ambos concordam haver uma relação entre a escrita que inventa e o compromisso perante a verdade. Como se deve enfrentar isso?

Vargas Llosa – A literatura não tem limites . Se não for livre, não existe. Ulysses já nos tinha ensinado que a liberdade é o valor fundamental. Acrescento, no entanto, que a literatura não é, muitas vezes, fiel à realidade mas pode representar uma verdade transformada e mais profunda.

Claude Magris – Falando de liberdade houve uma coisa que verdadeiramente me espantou há cerca de um ano na televisão italiana. Em Varsóvia, na “Grande Place”, que tinha sido destruida pelos nazis, milhares de polacos desfilavam com bandeiras hitlerianas e cruzes gamadas. Penso que a liberdade está em jogo.

Qual dos seus livros aconselharia a ler neste ano de 2021?

Vargas Llosa – “Conversas na Catedral” que me ocupou mais de 3 anos de trabalho.

Claude Magris – Eu aconselharia “Tempo curvo em Krems” que será publicado para o ano pela Gallimard. Mas, entretanto, já foi recentemente publicado “Cruz do Sul” que narra o destino incomum no século XIX de 3 personagens que viveram na Patagónia e na Terra do Fogo.

Para além deste pequeno retrato que nos fica destas conversas, voltamos ao tema que, por várias vezes, nos tem preocupado neste local: o do que vale a pena ler, do que não adianta ler e do que não deve ser lido. Os meios digitais encharcam-nos de meis verdades ou mentiras totais. Temos que saber fazer uma filtragem cuidadosa de toda essa “escrita”. Nos escaparates da nossas livrarias encontramos centenas de títulos, alguns de autores pouco ou nada conhecidos, cujos conteúdos são ingenuidades criativas para ocupar tempo de leitura. Felizmente aparecem obras valiosas mas essas são reconhecíveis e apontadas, mesmo que não estejam nos “Top 10” das vendas, classificação esta muitas vezes forjada e publicitariamente promovida.

Por todas estas razões aparecem muitos leitores, felizmente, a revisitar obras mais ou menos clássicas, mais antigas, de autores de cuja liberdade de escrita nunca se duvidou. E, mais uma vez, as nossas livrarias, têm exibido edições recuperadas desses autores, dando expressão ao sentimento de responsabilidade que as editoras sentem por lhes faltar, tantas vezes, obras dignas de quem ainda gosta de ler. A literatura portuguesa reune um manancial imenso de bons escritores e de boas obras.

Visitem as livrarias, levem o vosso “filtro” de leitura e ajudarão, dessa forma, os editores que tão mal têm passado, em todo o mundo, nesta terrível fase de confinamento.

Ler é um ato de Liberdade. A boa literatura é um produto da Liberdade.

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