O que se escreveu sobre Otelo

Foram muitos os que recentemente escreveram sobre Otelo Saraiva de Carvalho. Simplesmente Otelo. Alguns desses cronistas conheceram-no, são do tempo dele, outros nasceram já depois do 25 de Abril e ouviram falar dele ou leram sobre ele. Li muitos dos artigos que se publicaram e fiz a minha própria “digestão” de todas essas opiniões. E embora não tenha intenção de escrever sobre o personagem não resisto a mencionar alguns parágrafos dos que o fizeram e que, por diversas razões, mais me tocaram. Sou da mesma idade de Otelo, sou militar como ele foi (embora noutra Arma) e não passei incólume nos atribulados tempos do 25 de Abril e os que se seguiram. Rejubilei com a chegada da Liberdade. Acompanhei de perto muitos dos que com ele conviveram e, portanto, os artigos agora escritos não me são estranhos nem indiferentes. É difícil escrever sobre qualquer pessoa, em geral, mas é muito mais difícil escrever sobre uma personalidade tão polémica e bizarra como a de Otelo.

Começo por respigar o que o Almirante Martins Guerreiro (que integrou o Conselho de Revolução) escreveu numa carta dirigida ao filho de Otelo: “Lamento sinceramente que o poder político ainda não tenha assumido que esta nossa democracia foi iniciada por jovens militares e que o teu pai foi o arquiteto da acção militar e comandante operacional desse dia inteiro e limpo que foi o 25 de Abril……… Não conheço bem o seu percurso político durante a vida posterior….. mas sei que ele defendia os valores da democracia de base e da dignidade humana e por isso não nos devemos esconder atrás da pretensa figura controversa ou das suas limitações nos campos da manobra política reveladas ao longo da sua vida.”

Carlos Matos Gomes, um dos partipantes ativos do 25 de Abril, escreveu no seu blogue Medium: “Em 1972 , Mário Soares publicou em França um livro sobre Portugal a que deu o título de “Portugal Amordaçado”. Havia, então, um Portugal Amordaçado pela falta de direitos elementares de cidadania, direito à palavra, à representação, direito de reunião, de organização, havia um Portugal amordaçado que não podia falar do colonialismo, nem da guerra colonial…… Havia e há um Portugal herdeiro do ultramontanismo absolutista do século XIX, um Portugal miguelista, satisfeito com as ordenações do trono de Salazar e as bênçãos do altar do Cardeal Cerejeira, confortado com as denúncias dos informadores……. A morte de Otelo Saraiva de Carvalho revelou mais uma vez e de forma exuberante a existência desse Portugal ressabiado com a Liberdade e com a Responsabilidade que o 25 de Abril transferiu para a soberania popular…… O crime de Otelo foi ter descrimalizado o respeitinho, para citar O’Neill!.

Abordo agora um artigo publicado no Diário de Notícias, da autoria de Bruno Carlos Ferreira Pinto Basto Bobone, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa e do Conselho de Administração do Grupo Pinto Basto. Nascido em 1960, tinha 14 anos incompletos à data do 25 de Abril de 1975. Assina o seu artigo no Diário de Notícias, prudentemente, apenas com o seu e-mail. Noutros artigos anteriores é referenciado pelos cargos que desempenha. Percebe-se que se trata de uma opinião pessoal que não deseja transmitir como sendo a da poderosa Câmara a que preside. Escreve ele neste artigo a que deu o título “Morreu um assassino… sem pena”: A maioria dos portugueses não tem qualquer dúvida de que o regime em que vivíamos antes da revolução de 1974 não tinha qualquer hipótese de sobreviver. Teríamos sempre de acabar por mudar, fosse no 25 de Abril fosse numa outra data qualquer. ….. Para Otelo a solução de regime a introduzir em Portugal seria um regime ditatorial, provavelmente mais agressivo e letal do que aquele em que vivíamos e em que a censura não se faria pela eliminação dos conteúdos dos jornais, mas sim pelo assassínio daqueles que tinham opiniões diferentes sobre os temas que ele e os seus amigos – nunca eleitos – tinham sobre os mesmo assuntos. Otelo foi efetivamente um operacional de uma revolução que nos trouxe a democracia, mas tão só porque lhe não foi permitido instituir a forma de governo que ele ambicionava para o nosso país. Foi julgado e condenado e depois amnistiado por quem ele partilhava certos ideais…. Mais uma vez Portugal verga perante os grandes e poderosos, permitindo que assassinos não cumpram a pena que merecem pelas suas acções. Vemos isto constantemente… com empresários que abusam do seu poder… Juizes que nunca são medidos pelas suas decisões, enfim, todos aqueles que têm o poder e que o utilizam em seu próprio proveito. Morreu um potencial ditador que se tornou assassino, a quem os grandes deste país perdoaram a pena….. Morreu um assassino que não cumpriu a sua pena.”

No que respeita a este último texto não consigo evitar uma consideração pessoal: a de que, como diz Matos Gomes no seu artigo Portugal Ressabiado, está aqui um exemplo bem claro do que se pode ignorar das práticas criminosas e formalmente legalizadas pelo estado anterior ao 25 de Abril, ao abrigo do qual foram, durante décadas, desterradas, assassinadas e depuradas da “verdade” da época, milhares de pessoas que diziam, tão simplesmente, que não estavam de acordo com a situação. Não havia a tal Liberdade que, com mais ou menos erros, Otelo e os outros capitães conseguiram implantar em Portugal, em Paz e sem Sangue, o regime de democracia que permite, agora, a qualquer colunista manifestar as suas exuberantes opiniões. E o responsável maior por todos esses desmandos da ditadura morreu sem julgamento nem pena.

Recorro ainda a um parágrafo do artigo escrito por Daniel Oliveira sobre este tema, no seu blogue “Entre as Brumas da Memória”: Não foram pequenos os erros de Otelo e o que fez antes deles nunca os apagará. Mas à coragem daquele dia inicial inteiro e limpo devemos quase tudo. Por isso, e apesar de vir de uma área política diferente de Otelo, aos que querem mais uma trincheira sobre um cadáver não faço companhia. Porque sei que não são os seus erros e crimes que querem atingir, mas o seu acerto: o 25 de Abril. Só não o conseguem fazer de forma direta. Ainda. De Otelo, escolho o momento em que arriscou tudo num país onde tão poucos com muito mais poder do que ele estavam dispostos a fazê-lo. Chega para fazer uma vida.”

Termino com uma alusão à entrevista dada em direto à RTP pelo ex-Presidente da República, General António Ramalho Eanes, durante a qual expressou, com total dignidade e isenção, o seu louvor ao papel militar desempenhado por Otelo, sendo, simultâneamente, seu amigo e seu vencedor na contenda de 25 de Novembro.

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