Fábulas da Corrupção

Está na moda falar de corrupção. Fenómeno velho como o mundo mas, segundo parece, difícil ou impossível de eliminar. Existe em todo o planeta e cada país o vai resolvendo, ou não, à sua maneira. Resolver não será bem o termo: será mais lidar com ele e com os seus protagonistas. É um pântano permanente, estagnado, que sabemos existir mas que, por revoadas, irrompe com particular violência. As razões dessas erupções são muito variadas e sempre deduzidas de circunstâncias temporais e pontuais.

A justiça esmera-se em criar sistemas de ataque a esse flagelo mas quanto mais evoluida é essa justiça mais meios de proteção aparecem para salvaguarda dos protagonistas do delito. Na Grécia Antiga os mais eminentes filósofos estudaram, lutaram e criaram leis para esse e muitos outros males da sociedade. Se não foram bem sucedidos deixaram-nos, pelo menos, uma riquíssima fonte de saber e de inspiração para que as sociedades modernas as possam recuperar e praticar.

Os romanos, mais práticos e vocacionados para os combates e para as conquistas, não curavam, especialmente, do desvio ilegal de muitos dos seus sestércios para as finas bolsas das suas elites. Depois dos combates e das conquistas nunca nenhum desses senhores se queixou de não haver dinheiro para pagar as despesas das orgias e bacanais, coisas que, como se sabe, nunca saem baratas.

Muitos escritores, ao longo dos séculos, dedicaram-se a escrever contos sobre os costumes luxuriosos das suas épocas. Devido a algumas perseguições a que eram sujeitos passaram a escrever fábulas que, no fundo, tratando-se de personagens inventadas ou irreais, não eram motivo de especial perseguição. Claro que as conclusões das entrelinhas eram muito mais profundas do que a espuma que uma breve leitura permitiria concluir. Mas as elites sempre precisaram de viver e por isso os chamados “negócios por baixo da mesa” nunca foram eliminados. Até hoje.

No nosso pequeno país sempre se usou a “notinha” para acelerar uma escritura, uns franguinhos ou peixe fresco para eliminar ou fazer arquivar processos incomodativos. Já lá vai o tempo da “cunha” para não ir à tropa, evitando-se, assim, o sempre desconfortável destacamento para o ultramar. Nada disso existe já e hoje quem não quer ir para a tropa, não vai. Mas a “cunha”, essa não morreu. Pelo contrário, nobilitou-se, engordou, passou a usar fatos feitos à medida e a frequentar as melhores lojas da Avenida da Liberdade que dantes só existiam em Paris, Milão ou Londres.

Mas desde há muito que as pessoas estão cansadas dessas obscenidades. É a vida. As sociedades evoluem, cultivam-se, olham à sua volta e interrogam-se. Quem não conhece um ex-marçano de mercearia de bairro que, passados anos e com desconhecidos passes de mágica, se transformou num poderoso investidor, sempre rodeado de “nobres” e destemidos grupos de cidadãos, que patrocina coisas de inominável desmesura e de reconhecido mau gosto? E os cidadãos olham à volta e cogitam. E se eles pensam, existem, como disse há muitos anos Descartes. E existindo é quase certo que vão surgir ansiedades e problemas. Nos tempos atuais os meios de comunicação social são, normalmente, os primeiros a anunciar os mais delirantes casos de corrupção. Talvez, na maior parte dos casos, essas investigações sejam estimuladas por interesses e interessados em que tudo isso venha ao conhecimento público. Sem acusações, porque não as podem fazer, mas criando climas de suspeição que vão ao encontro do que os cidadãos, já tão fartos dessas públicas malandrices, acabam por acreditar.

A Justiça tenta demonstrar que esses casos já estão em investigação há muito tempo o que, também por vezes, não deixa de ser verdade. A velocidade com que esses casos são tratados pelas Justiças dependem do país em que o fenómeno tem lugar. As bases de jurisdição são diferentes e, portanto, em alguns locais, os prevaricadores são acusados e julgados mais depressa e encaminham-se para as celas das prisões com maior velocidade. Claro que isso deixa o cidadão normal muito mais satisfeito desconhecendo, no entanto, que a maior parte de outros delitos, muitos deles com maiores dimensões, acabam também por desaparecer ou nunca publicitados.

Entre nós, que não fugimos à regra, passa-se exatamente o mesmo. Por muitas descrições (ou fábulas, como se lhes queira chamar) que se façam, os chamados arguidos de delitos (termo jurídico de deliciosa volubilidade) acabam por arranjar uns fantásticos advogados e, quando interrogados, ou não falam ou só dizem o que bacteriologicamente não lhes cause dano imediato. E, com base nas leis vigentes, os tais famosos advogados conseguem arranjar argumentos e “burladeros” de escape que nem os mais briosos acusadores os conseguem atrapalhar. Muitas vezes os juizes atrevem-se a decretar cauções financeiras enormes para que os tais arguidos não tenham que ficar detidos e possam circular à vontade. E os gigantescos montantes dessas tais cauções lá aparecem, sempre nos prazos legais, com origens que o cidadão normal tem dificuldade em entender. E os famosos arguidos continuam a passear-se, a usar os mesmos caríssimos alfaiates, esperando-se que os difíceis processos sejam um dia exibidos para, como toda a gente sabe, se seguirem os famosos recursos para instâncias superiores que podem prosseguir até à eternidade ou a uma simples prescrição.

Realmente as pessoas estão fartas deste carrocel de corrupção. Cá e lá fora. Mas em países civilizados como o nosso os direitos da defesa sobrepõem-se às “malévolas” insinuações ou acusações que desabam sobre os tais arguidos. Em países de menores tradições democráticas (ou civilizacionais, como se queira) esses tais arguidos acabam mal e depressa. Mas quem os pune pratica os mesmos delitos que as suas vítimas praticavam.

O mundo está, aparentemente, bem organizado para quem tem as contas certinhas mas o diabo são as letrinhas pequenas dos contratos que não permitem que a corrupção acabe.

Nem pensar, nem com a ajuda intelectual e os saberes legados dos velhos filósofos da Grécia Antiga. Fazem-se mais umas comissões, espremem-se uns pouco avisados e a coisa continua até o Alzheimer os salvar.

Corrupção “forever”! Claro que a base deste texto é apenas humorística…

2 pensamentos sobre “Fábulas da Corrupção

  1. A PROPÓSITO : O POEMA DE JOÃO DE DEUS EM “CAMPO DE FLORES”

    O Dinheiro

    O dinheiro é tão bonito,
    Tão bonito, o maganão!
    Tem tanta graça, o maldito,
    Tem tanto chiste, o ladrão!
    O falar, fala de um modo…
    Todo ele, aquele todo…
    E elas acham-no tão guapo!
    Velhinha ou moça que veja,
    Por mais esquiva que seja,
    Tlim!
    Papo.

    E a cegueira da justiça
    Como ele a tira num ai!
    Sem lhe tocar com a pinça;
    E só dizer-lhe: «Aí vai…»
    Operação melindrosa,
    Que não é lá qualquer coisa;
    Catarata, tome conta!
    Pois não faz mais do que isto,
    Diz-me um juiz que o tem visto:
    Tlim!
    Pronta.

    Nessas espécies de exames
    Que a gente faz em rapaz,
    São milagres aos enxames
    O que aquele demo faz!
    Sem saber nem patavina
    De gramática latina,
    Quer-se um rapaz dali fora?
    Vai ele com tais falinhas,
    Tais gaifonas, tais coisinhas…
    Tlim!
    Ora…

    Aquela fisionomia
    É lábia que o demo tem!
    Mas numa secretaria
    Aí é que é vê-lo bem!
    Quando ele de grande gala,
    Entra o ministro na sala,
    Aproveita a ocasião:
    «Conhece este amigo antigo?»
    — Oh, meu tão antigo amigo!
    (Tlim!)
    Pois não!

    João de Deus, in ‘Campo de Flores’

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