OS 200 ANOS DA GRÉCIA

Gosto da Grécia e dos gregos. Acho-os muito parecidos connosco, nas suas virtudes e nos seus defeitos. A Grécia está a comemorar os seus 200 anos de existência como estado reconhecido e, por isso, acho que merece uma palavra de simpatia.

Já lá iremos ao apontamento da História que estudámos no Liceu. Começo pela parte humana que me fez amigo dos gregos, em especial de um grego. Chamava-se Pericles Tzavallas, era comandante de um navio cargueiro de minério, o Olga Minakoulis, e conheci-o em atribuladíssimas condições, em 1961. Vivi, na época, a aventura talvez mais marcante da minha vida (a invasão de Goa onde me encontrava) e o acaso circunstancial fez-me encontrar o Comandante Tzavallas, a bordo do seu navio. (Os pormenores desta aventura estão detalhadamente relatados num livro que publiquei, a “A Última História de Goa”, da editora Colibri, à venda no mercado). Ficámos amigos, elogiou o que viu da minha aventura, de bordo do seu navio, acabámos por manter uma amizade sólida até à sua morte. Veio a Lisboa visitar-me, fez questão de me apoiar e testemunhar no que fosse necessário, mas as épocas não corriam, no país, em moldes que permitissem essas diligências. A minha filha nasceu em 1965 e sei a grande alegria que lhe dei quando o convidei para seu padrinho. Foi a retribuição, para ele maravilhosa, de tudo o que havia feito por mim. Com bondade, com fidalguia, com o desvelo que só uma grande amizade permite.

Nos finais da década reformou-se da marinha e, talvez pouco contente com o ambiente grego, retirou-se com a sua mulher (irlandesa) para a Austrália, Brisbane. Mantivemos os contactos escritos (a partir de certa altura através da afilhada) até que soubemos da sua morte. No ano 2000, em que por força da missão em que me encontrava em Sydney, visitámo-la, a Mariead, em Brisbane. Foi um reencontro feliz, de troca de recordações, sob a égide da grande figura já ausente de Pericles Tzavallas. Não a voltámos a ver. Percebe-se agora, um pouco melhor, porque gosto dos gregos.

Na década de 80 tive oportunidade de visitar Atenas. Fi-lo com gosto e memorial histórico. Confrontei-me com o facto, que devia ter previsto, de não me conseguir orientar só com os elementos em inglês que levava como referências. Ainda não havia alternativas aos nomes escritos em grego e, como se pode calcular, “vi-me grego” com o sarilho em que me havia metido. Ao fim de dias já tinha harmonizado algumas situações e foi com respeito e encantamento que visitei o Partenon e, como muitos turistas dizem, todos os montes de pedras que por lá se encontram. Um grego em Lisboa teria tido as mesmas dificuldades de leitura e orientação. Mas fiquei feliz por estar na terra do meu dileto amigo.

Voltemos à História e aos 200 anos que a Grécia presentemente comemora. A Grécia Antiga era um conjunto de cidades onde se debatiam as ideias dos grandes filósofos e surgiu o conceito de Democracia criado por Péricles. A cultura e o espírito de autonomia que os gregos sempre manifestaram não se compaginavam com aquilo a que os turcos passaram a chamar de Império Romano do Oriente depois de, há cerca de 400 anos, terem conquistado Constantinopla, que não deixava de ser , na realidade, um estado baseado na cultura e na língua grega (a tal que nos atrapalha). Por isso em Março de 1821 iniciaram-se as revoltas do Peloponeso que foram, afinal, o início da guerra da independência grega. A essas lutas de independência juntaram-se figuras fulcrais da cultura europeia, como Lord Byron, e muitos militares que se juntaram às forças gregas em prol da liberdade. Até um oficial português, António de Almeida, andou envolvido nessas batalhas que culminaram na tão desejada independência formalmente reconhecida em 1830. Percebe-se bem a antipatia ainda hoje existente entre gregos e turcos. Portugal, com as lutas de autonomia e independência de 1139, com a criação do Condado Portucalense e a estabilização das suas fronteiras em 1297, conseguiu, apesar dos sobressaltos que foi sentindo ao longo da sua história, manter com os nossos vizinhos uma confirmada amizade que ainda hoje perdura. Portugal é o país mais antigo da Europa mas, com a diferença de séculos entre as duas independências, a nossa e a grega, não deixam de existir semelhanças muito significativas nas formas como elas se consumaram.

Os independentistas gregos, quando da criação do estado, convidaram D. Pedro, Príncipe Regente do Brasil, se estaria interessado em ser rei da Grécia. A escolha veio, no entanto, anos mais tarde, a recair num príncipe alemão que se tornou o primeiro rei da Grécia com o nome de Otão I que escolheu Atenas como a sua capital. E o militar português atrás citado, António de Almeida, veio a ser o 1º cônsul grego em Lisboa, no tempo de D. Maria II.

As atuais comemorações dos 200 anos do Estado Grego devem ser lembradas. A Grécia que, como nós, anda sempre tão atrapalhada nestas coisas da União Europeia, tem gente maravilhosa como nós. E se nos lembrarmos do Zorba julgo que também vamos ajudar as comemorações.

Expliquei porque gosto da Grécia e dos gregos.

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