Desporto, Educação e Paz

Não é a primeira vez que, neste blogue, se escreve sobre Desporto. Julgo que não será a última. Falar de Desporto é uma missão muito difícil. São muitas as vertentes pelas quais o fenómeno pode e deve ser analisado. Há, desde há muitos anos, no nosso país e por todo o mundo, imensas escolas superiores que ensinam Desporto e que lançam carreiras de profissionais, em todas as modalidades, que preenchem milhares de locais onde se ensina e pratica Desporto. Começa-se pelos jovens e continua-se nas maioridades, profissionalmente ou como amadores. O Desporto entrelaça-se com a Educação porque esta é sempre estimulada como ferramenta obrigatória para um bom ou normal praticante de Desporto. Nada de novo até aqui.

Instituições com enormes responsabilidades organizam, gerem, fiscalizam, promovem, disciplinam as práticas desportivas praticamente em todas as modalidades. Os governos conhecem e reconhecem a importância do Desporto no desenvolvimento dos seus concidadãos e apoiam-no, na medida do possível, com verbas mais ou menos significativas que são, no fundo, recebidas de todos esses cidadãos. O que implica, obviamente, enorme responsabilidade por parte de quem recebe essas verbas e as põe ao dispor da prática desportiva.

O Desporto tem sido, ao longo dos séculos, uma área de paz e entendimento entre praticantes e diferentes países. Tem sido o veículo utilizado para pôr em contacto inimizades políticas que, de outras formas, nunca teriam oportunidade de se encontrar. São bons exemplos disso os jogos de futebol que, desde há muitos anos, se realizaram entre a Palestina e Israel com escassa repercussão internacional. Henry Kissinger, enquanto Secetário de Estado do Presidente Nixon, nos idos dos anos 70 do século passado, não hesitou, com o objetivo de estabelecer as relações preliminares entre os Estados Unidos e a China, em convidar uma equipa chinesa de ténis de mesa a jogar nos Estados Unidos e que acabou, como se imagina, com uma vitória retumbante da China. A seguir propôs, e foi aceite, a visita à China de uma equipa de basquetebol que, como se pode imaginar, somou retumbantes vitórias. Ambos os países conseguiram entender o fenómeno inalienável da ética desportiva e a confiança que essa atividade lhes deu para, passado não muito tempo, os dois países estabelecerem relações diplomáticas oficiais com a famosa e histórica viagem à China de Nixon, em 1972, com o famoso aperto de mão do Presidente americano ao Primeiro Ministro Chinês Zhou Enlai. Estes casos não são únicos, felizmente, mas exprimem bem o papel que o Desporto pode desempenhar nas situações mais controversas.

Também sabemos que, com o passar dos tempos, o mundo exterior penetrou na área desportiva, injetando-lhe dinheiro e obtendo as retribuições que as paixões desportivas passaram a desempenhar em todo o mundo. De todas as modalidades que se praticam por esse mundo (e são mais de duzentas as que se encontram legalizadas) algumas delas tornaram-se alvos especiais desses dinheiros (investimentos) pela visibilidade que ganharam e pelos lucros que delas se obtinham. Esta foi a viragem fatal do Desporto. De disciplina onde se prezava a ética desportiva com a famosa máxima “O Desporto pelo Desporto”, passámos a conviver com uma nova e milionária indústria de cativação humana. Os milhões escorrem entre clubes, países, associações, dirigentes, agentes e, claro, praticantes. Hoje há ícones mundiais do Desporto que ganham mais numa hora do que um cientista famoso ganha num ano (às vezes em toda a sua vida). Mas todo este vulcão de atividade desportiva exige gente que a pratique, com mais ou menos educação, com mais ou menos respeito pelas regras da ética e pelo reconhecimento dos seus adversários (não inimigos). E infelizmente assiste-se hoje a cenas lamentáveis na prática desportiva protagonizadas por gente cuja educação não é suficiente para dirigir ou praticar. Claro que tudo isto se nota muito mais no futebol, modalidade que, em todo o mundo, adquiriu um estatuto de impunidade e auto-governação contra as quais os governos se revelam incapazes de intervir por meios persuasivos e democráticos.

Este caos passa-se em todo o mundo, claro, mas quando isso tem lugar entre nós, nos nossos ambientes desportivos, ficamos, evidentemente, ainda mais chocados e indignados. As Instituições oficiais têm Departamentos de Ética Desportiva, de Juízo Desportivo, de Conselhos Superiores de Desporto mas as suas práticas, que sei serem bem intencionadas, debatem-se com interesses e comportamentos que têm sobrevivido mas aos quais é preciso pôr cobro.

Para bem do DESPORTO, DA EDUCAÇÃO E DA PAZ!

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