TRAQUINICES DE CRIANÇAS

Todos sabemos, por experiência própria ou alheia, que as crianças são o futuro do mundo mas que nos pregam as maiores partidas quando menos as esperamos. Quando começam a gatinhar é quando começam as maiores ameaças para o bem estar da casa. Puxam cortinados, entornam os pratos da papa, beliscam os rabos dos gatos e dos cães sem que estes se revoltem, até mexem nas sanitas quando o gatinhar progride para o “quase andar”. São umas “delícias”. Os pais acham imensa graça, principalmente quando os deitam e os vêem a dormir descansados.

Na adolescência é uma chatice. Sabem muito mais que os pais, não percebem mesmo como é que os pais conseguiram avançar na vida. Depois aparecem “as miudas ou os miudos”, conforme os casos, que trazem para casa, com toda a benevolência dos pais, claro, para porem as músicas de que gostam com altas sonoridades que só deixam de incomodar os ambientes domésticos quando se resignam a pôr os auscultadores. Aí o silêncio é bem recebido mas os pais sabem que, daí a uns anos, a conta do médico dos ouvidos vai ser significativa porque os tímpanos das crianças estão quase a romper. Depois, quando avançam nos estudos, a coisa melhora. Vão fazer barulho para outros sítios, bebem uns “shots”, “às vezes experimentam uns cigarrinhos p’ra rir”, chegam a desoras a aprendem a cantar o “Desfado” com a Ana Moura. E, mesmo que cheguem tarde, é bom. A partir daí ficamos descansados. Sejamos claros, isto é assim mesmo e nós todos achamos imensa graça. E não se poderia passar sem isso. Depois alguns casam (ou juntam-se) e a coisa fica mais tranquila. Porque, se não tiverem cuidado, acontece-lhes o mesmo que aconteceu aos pais.

Tudo isto vem a propósito das normais traquinices de crianças, com as quais todos os pais lidam em todo o mundo. Mais complicado é, no entanto, quando esses filhos já são crescidos, são figuras importantes das sociedades e perturbam os pais com comportamentos “desviantes”. Falo, neste caso, de uma mãe e avó, pela qual nutro simpatia (como já disse em textos anteriores), que se vê confrontada, nos seus 95 anos de vida e 70 de reinado, com as tremendas travessuras dos seus filhos. É a Rainha Isabel II de quem falo, claro. O André, Duque de York, agora com 62 anos, acaba de entregar à Mãe todas as condecorações, títulos e “obséquios” a que tinha direito porque se vê acusado, por uma senhora, Virginia Giuffre, que vive atualmente na Austrália, de ter abusado dela quando a senhora ainda era menor. Há retratos e relatos comprometedores, mas o André diz que é tudo falso e que não a conhecia de parte nenhuma. Pelo sim, pelo não, evitou ir a tribunal e preferiu fazer um acordo com a entrega de verbas avultadas , cujos montantes não foram revelados mas que, segundo os advogados, devem andar entre os 5 e os 14 milhões de Libras. Mas, segundo se julga, o Píncipe precisará de ajudas para regularizar essas verbas. Parece que está tentando vender a sua mansão de Verbier, na Suiça que, segundo consta, parecer ter uma forte penhora em cima. É antiga a sua tradição de “playboy” real, não se dispensando de estar sempre rodeado de lindas acompanhantes nas suas deslocações em jatos privados e helicópteros até campos de golf do maior requinte (a sua grande paixão). São famosas as suas relações com Timur Kulibayev, genro do antigo presidente do Casaquistão, que lhe terá comprado em 2007, por 12 M de Libras, a sua Casa em Sunninghill Park. Muitas outras relações e controversos negócios têm emoldurado a rica vida de André. Nesta fase de acordos o Duque também se propõe contribuir com fortes donativos para associações de suporte a vítimas de assédios mas falta saber se essas associações estarão dispostas a receber esses dinheiros. Sem o julgamento em tribunal o seu nome não será reabilitado e “haverá sempre pessoas que duvidarão da sua culpa ou inocência. Uma marca que o acompanhará até ao fim da vida”. Não é improvável que a Rainha não lhe venha a valer, como aconteceu com o divórcio do Príncipe de Gales que beneficiou do apoio real de 17 M de Libras. André terá que refazer a sua vida e habituar-se a viver discretamente como um “vulgar” cidadão.

Mas os problemas da Mãe Rainha não se ficam, para já, por aqui. Depois de um período de recolhimento ao apanhar a Covid, só há dois dias voltou a receber audiências pessoalmente. Na altura, exatamente, em que rebenta o escândalo do outro filho, o Herdeiro natural, o Príncipe Carlos. O Príncipe de Gales está na iminência de ter que testemunhar perante a Scotland Yard sobre um alegado escândalo de “honras em troca de dinheiros”. Carlos tem uma fundação (Prince’s Foundation) que, embora se dedique a ações de natureza social, parece ter sido o meio utilizado para receber enormes doações de um príncipe saudita para receber as honras de “cavaleiro do reino”. De acordo com uma investigação iniciada no ano passado o administrador da Fundação, Michael Fawcet, terá coordenado todas essas operações . Claro que Fawcet, velho e permanente aliado do Príncipe, já apresentou a sua demissão ao ser acusado de garantir as honras de “cavaleiro do reino” e a cidadania britânica ao bilionário saudita Mahfouz Mubarak bin Mahfouz. As declarações oficiais são perentórias ao dizer que o Príncipe desconhecia por completo estas intervenções da sua Fundação. Parece, no entanto, que a Scotland Yard já constituiu uma equipa de inquérito a este caso, no sentido de apurar todas as responsabilidades.

Não nos adiantemos mais nem recapitulemos anteriores episódios no percurso reinante de Isabel II. Haveremos, no entanto, de concordar que “quem tem filhos tem cadilhos” e as “traquinices” destes Senhores são muito mais dolorosas do que puxar cortinados ou entornar o prato da papa. No ano do seu Jubileu (70 anos de reinado), com todas as cerimónias já programadas, não vai ser fácil para a Rainha aparecer na varanda do palácio com todas estas figuras de “teatro burlesco”. Far-se-á acompanhar, decerto, por familiares que, apesar de tudo têm sido decentes e a poderão apoiar nesta fase complicada. Que ela vai superar, como superou muitas outras, mas com 95 anos de idade merecia menos traquinices dos filhos.

Um pensamento sobre “TRAQUINICES DE CRIANÇAS

  1. Os pais são responsáveis pela existência dos filhos e pela educação que lhes dão ou deram. Mas na realidade não são responsáveis pelo que eles fazem na vida. Embora venham a ter ater alegrias ou tristezas com o seu comportamento

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