O CÃO QUE VOTA

Não é só entre nós que esta coisa das eleições às vezes nos surpreende e nos dá motivos de galhofa. Como se sabe, em França decorre um período pré-eleitoral para a presidência da República (infelizmente perturbado pela demência do czar Putin) em que se confrontam, como é habitual, candidatos de diversas áreas políticas. O facto curioso do momento é que, entre os apoiantes inscritos no partido Les Républicans, da candidata de direita Valérie Pécresse, foram encontrados, entre os seus 148.000 militantes credenciados para votar, quatro pessoas já falecidas e um cão. O seu nome era Douglas e deveria tratar-se de um ativista muito discreto de Nice porque nunca ninguém o tinha encontrado ou o conheceria. A sua inscrição foi feita “on-line” em Novembro, com um pagamento de 30€, tendo-lhe sido enviado o cartão de membro do partido com direito a votar nas primárias eleitorais. Na realidade Douglas era um cão. Uma investigação jornalística conduzida pelo Libération descobriu o dono do cão que reconheceu ter sido ele a assinar a inscrição para confirmar se tal “seria possível”. Claro que Pécresse não sabia nada do assunto, o que é natural, mas se a coisa não tem sido descoberta haveria um voto a menos nas estatísticas da candidata porque o cão, claro, não iria votar. As piadas choveram de toda a parte e de todos os candidatos e Valérie desceu uns pontos nas intenções de voto mas talvez nada que não se venha a recompor.

No meio desta paródia o candidato de extrema-direita, Éric Zemmour, declarou que o seu partido, Reconquête, seria o primeiro a aceitar os animais de estimação como apoiantes embora, claro, sem direito de voto. Os jornalistas do Nice-Matin descobriram, entretanto, que o Libération tinha mudado o nome ao cão para preservar a identidade do dono. Segundo o jornal o canino parece ser um Shiba Inu, de seu nome verdadeiro Clovis.

Nada disto é completamente novo. No nosso país, ao longo dos anos, já muita gente reclamou do número de falecidos ou desaparecidos que continuam a constar das listas eleitorais. Recordo-me, aliás, de um partido da nossa praça que há largos anos utilizou diversas fichas de associado com o mesmo e saboroso nome de “Jacinto Leite Capelo Rego”.

Coisas preversas dos labirintos políticos que nesta altura levarão o partido dos Animais e Natureza a interrogar-se porque não teria já tido a mesma ideia. Provavelmente não é constitucional mas não deixaria de ter graça o imenso aumento de apoiantes que surgiriam (com as assinaturas dos donos, claro) nos partidos, levando em conta a multidão de periquitos, cães, gatos, papagaios e outros domésticos que existem na sociedade. Quem sairia prejudicada seria a multidão de “papagaios” que já recheiam as nossas televisões.

Eu, por mim, não tenho cão nem conto vir a ter. Embora goste dos animais…

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