A PROPÓSITO DUMA SÉRIE DE FICÇÃO DA RTP

Terminou a 16 de Fevereiro pp uma série de 6 episódios, exibida às 21h de 4ª feira na RTP 1. De seu nome “Causa Própria”

Não me vou referir aos aspectos  técnicos e artísticos da obra, mas apenas ao seu guião.

A acção passa-se num cidade portuguesa do interior e muito resumidamente consta do seguinte : um jovem aluno da escola secundária local aparece morto num parque e isso origina uma investigação pela secção local da Polícia Judiciária que vamos acompanhando. Um grupo de jovens, colegas do assassinado, torna-se suspeito e é levado a julgamento. No decurso deste, surge um facto até então ignorado pela PJ e que leva à anulação do julgamento : a presença num bar, na mesma altura que os suspeitos, pouco tempo antes do crime, dum outro jovem, nem mais nem menos que o filho duma das juízas do colectivo. As investigações da PJ viram-se agora para os movimentos do jovem, procurando determinar se ele tinha ou não alibi para a hora do crime. A juíza está naturalmente muito preocupada com o caso, pede escusa do julgamento, mas acaba por descobrir, por mero acaso, provas incriminatórias contra filho. Confronta este com o facto, mas cala-se. Entretanto, baseado apenas em provas circunstanciais ( por exemplo não tinha sido encontrada a arma do  crime), o delegado do Ministério Público leva o jovem a julgamento. Ao ver o caso mal parado a mãe-juíza, que tinha escondido as provas incriminatórias do filho, pega nelas e vai coloca-las (“plantá-las”) no cubículo do guarda do parque, um antigo cadastrado que entretanto tinha morrido num acidente de  moto e álcool, e avisou anonimamente a polícia. As provas apareceram no momento oportuno do julgamento e o jovem foi absolvido.

É uma obra de ficção,  sobre um crime de morte, não premeditado mas de oportunidade , para roubar uns ténis de boa barca há muito cobiçados, na qual o jovem autor para escapar ao castigo não se importaria que inocentes fossem parar à cadeia. É uma obra em que o amor de mãe é confrontado com o dever duma magistrada de promover a  justiça – e em que o primeiro vence.

Muito próprio das fraquezas humanas e mesmo muito compreensível. Mas, na minha opinião, a série é profundamente deseducativa. A RTP não tinha necessidade de apresentar uma história destas no canal aberto, num horário nobre. Muitos dos que viram dirão ou pensarão: É a imagem da justiça que temos!

O que sem dúvida é uma generalização injusta.

Do ponto de vista do dramatismo da história, teria muito mais impacto e seria muito mais exemplar em termos de educação cívica a condenação do jovem. No fundo tratou-se dum crime de morte deliberado, o pior de todos os crimes na escala jurídica.

Lisboa, 26 de Fevereiro de 2022

Deixe um comentário

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s