Qual a Vista da Nossa Janela?

Todos nós nos lembramos do que víamos das janelas das nossas casas. A vida foi passando e, possivelmente, as nossas residências também foram mudando. Há quem tenha nascido numa casa onde acaba por viver toda a vida. Quase não precisa de abrir a janela para ver o que se passa lá fora. Talvez isso seja bom mas implica uma certa monotonia que só se agita se algo muito especial suceder por ali. E essa situação chega-nos agora com grande frequência, nas notícias oriundas de terras pequenas onde algo de agradável ou, na maior parte das vezes desagradável, acontece nas vizinhanças.

As cenas inomináveis de guerra são abundantes nessas visões aterradoras, vistas das janelas de quem as sofre ou, pior ainda, quando nem sequer as janelas resistem. É o fim da esperança e de poder ver, continuamente, as vistas pacíficas e às vezes grandiosas a que os residentes estavam habituados.

Eu próprio, ao longo da minha vida, tive vistas diversas das janelas dos locais pelos quais fui passando e vivendo. Sempre vivendo. Lembro de ver ruas estreitas, muito estreitas, muito afáveis, onde todos os olhares se cruzavam vindos de outras janelas. Recordo também as vistas largas que desfrutava de janelas por onde passei. Alguns montes e vales , não muito extensos, mas que davam uma noção menos citadina da existência. Muitos pinheiros, grandes e pequenos, entrecruzando as suas copas ou delimitando caminhos rudes por onde apetecia caminhar ou, mesmo, aventurarmo-nos. Era fácil apanhar papoilas , outras flores silvestres cujos nomes nem sequer conhecia e lembro bem, isso sim, de enormes arbustos de medronho dos quais arrancava os saborosos frutos , ligeiramente espinhosos por fora mas de gosto muito apelativo. Não convinha comer muitos porque tendiam a ser inebriantes. Daqui vem a famosa aguardente de medronho, de qualidade cada vez mais rara. Mas as janelas não pararam. Passei, de novo, pelos pinhais, por escassas janelas de vizinhança o que me permitiu tentar pensar para além do pinhal, tentar adivinhar o que a minha idade ainda não me tinha permitido perceber, olhar-me para dentro e desejar encontrar campos de aventura.

Vieram de novo as janelas das ruas citadinas, do ruído dos carros, dos engarrafamentos que, de todas as janelas, eram observados para ver como acabava a zaragata. Tenho vivido outras janelas e observado, à distância, as filas enormes de carros que se dirigem para aqui e para ali e me orientam, como um boletim meteorológico, no que posso ou não posso arriscar. As janelas das nossas casas são sempre consideradas como fontes de arejamento e iluminação. Talvez não se dê importância ao “ camarote “ de vida que elas nos proporcionam. Se relembrarmos, com cuidado, fotos e documentos um pouco mais antigos das nossas terras não deixaremos de notar as expressões curiosas, observadoras, às vezes sonolentas, das figuras plantadas às janelas. São os filmes da vida que vão passando em documentários intermináveis.

A vida ensina-nos que é preciso mais do que isso. É preciso vermos para além do que vemos da janela, muito para além disso. Por ali temos que descobrir o mundo, imaginá-lo, inventá-lo, persegui-lo se preciso for e tentar participar naquilo que não vemos da nossa janela mas que descobrimos que existe. A janela é a boca de um canhão que nos projeta para onde a vida nunca nos ensinou a caminhar. Temos que ser nós a descobrir até onde nos poderá levar essa trajetória imaginada. E se o conseguirmos fazer, chegaremos ao fim de um caminho qualquer, em qualquer altura, espantados mas reconciliados com o que conseguimos descobrir a partir da nossa janela.

Escolhi, como exemplo dos que vos disse, um poema do algarvio António Pereira que diz:

Sou algarvio
E a minha rua tem o mar ao fundo
Sempre que passa aqui algum navio
Passam, aqui, navios de todo o mundo
Oiço a voz que me namora
Da outra banda do mar…
Que me namora e me chama
Da outra banda do mundo
E se eu abalasse, mãe?
E se eu abalasse e nunca mais voltasse?
Choravas, sim, eu sei bem
Posso não ser filho às vezes
Mas tu és mãe, sempre, mãe!
E eu vou ficando, não chores.

Um pensamento sobre “Qual a Vista da Nossa Janela?

  1. Um dos textos mais interessantes que alguma vez li. A amplitude da vida, apreciada por uma janela,nem sempre imaginada. A largueza, o espaço que nem sempre conseguimos alcançar, do nível em que tantas vezes mergulhamos sem darmos conta….!

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