Glenn Miller

Corria o ano de 1937. Vivia-se uma época de grande intensidade musical em toda a América. Glenn Miller, acabava de formar uma das big band de Jazz, aliada às características românticas do musical americano. O sucesso não se fazia esperar, ultrapassando fronteiras, numa época em que grossas nuvens negras recomeçavam, cobrindo de novo os céus da Europa. Bem feitas as contas, tinha eu, ainda uns escassos três anos de vida, alheado ao que se passava, mas que com o tempo, começavam a amealhar pequenas memórias que se reflectiriam na vida futura. Há quem diga que isso era impossível em idades ainda tão tenras. Os anos iam passando, e muita coisa começava a ficar registada, ainda que confusa, misturando assuntos que nos chocavam, principalmente quando elas nos prendiam a certos episódios, ainda que passageiros. Os medos que nos faziam aterrorizar ou as alegrias que nos sensibilizavam. Conversas que pareciam passar ao lado e que ficavam a fervilhar na nossa subtil imaginação. A guerra, era indiscutivelmente o mote das conversas do dia, durante as refeições. Conversas que não nos diziam respeito, mas despertava a natural curiosidade, tornando-nos ouvintes atentos.
Com a idade a desenvolver-se, tudo o que acumulávamos, começava a fazer sentido. E a guerra começava a ter outros desfechos que nos interessava, fazendo parte da nossa existência e do nosso raciocínio. A BBC, e a voz de Fernando Pessa, passou também a ser um dos pontos de destaque, e os avanços dos aliados começaram também a criar maior paixão nas conversas. Aos dez anos, éramos quase também uns adultos na linguagem sobre os acontecimentos na Normandia, interessando-nos pelos grandes títulos dos jornais e a abertura dos Açores às forças aliadas, acelerando o fim da guerra.
Ao mesmo tempo, a música americana fazia-se ouvir com grande intensidade, por uma rádio que aos poucos, perdia a rigidez de um regime ditatorial opressivo. E finalmente, Glenn Miller e a sua big band, oferecia-nos belíssimos momentos de uma jovialidade jamais alcançada. Tudo, imaginariamente, nos parecia diferente e mais prometedor, em céu aberto, já sem bombardeiros sobre a Europa. Outras big band começaram a aparecer em simultâneo, como Benny Goodman e Tommy Dorsey, completando um panorama musical bastante atractivo para as juventudes. Era o pós-guerra que nos ia maravilhando e nos trazia a esperança de podermos continuar a crescer sem medos…!
Ontem, sexta feira, dia 9 de Julho, calhou-me a sorte de poder assistir, aqui nesta acolhedora cidade da Guarda, sem filas intermináveis, a uma sessão musical que deliciou muitos adeptos e fez recordar tudo o que por aqui fui dizendo, descrevendo a minha passagem por este pequeno acervo de memórias da minha existência… : Glenn Miller Orchestra (made in USA ) !!!
A verdadeira Big Band com 16 elementos, resistindo aos tempos de mudanças, herdeiros e continuadores de grandes sucessos, ainda a espalhar a beleza da música moderna, que tantos corações fez saltar, com o histórico profissionalismo musical. As vozes dos cantores e o som inesquecível do conjuntos de trompetes, trombones de varas, piano, saxofones e clarinetes, ecoaram pelo Teatro Municipal da Guarda, recordando tanta beleza esquecida. O contra-baixo e o baterista, marcavam os ritmos suave e romântico de Moonlight, no início e no final do espectáculo, imaginariamente, a puxar-nos para uma dança.
Lembrei-me, mais uma vez, dos tempos em que, perguntávamos, com ares de sedutores… : A menina dança … !

2 pensamentos sobre “Glenn Miller

  1. Foi feliz a nossa geração com esses encantamentos musicais e outros. O tempo passa mas as coisas parece, às vezes, não mudarem muito. Daí o regresso destas sonoridades inesquecíveis.

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