CAIXA DE PANDORA

Quando, por uma qualquer razão, (férias, por exemplo) saímos do nosso ambiente habitual de vida sentimos que as coisas não estão nos lugares habituais e navegamos à procura daquilo que esperávamos encontrar rapidamente.

É o que se está a passar comigo no momento presente. Estou a passar uns tempos (não de férias porque, com a minha idade as férias são permanentes) no local onde sempre passo este período de verão, Monte Gordo, no Algarve, e onde a minha visão das coisas é diferente da habitual. A maior parte das vezes somos indiferentes, pelo hábito, à panóplia diferente que nos rodeia. Mas há alturas de lazer (quem não as tem?) em que os olhos circulam pelas tais coisas que estão à nossa volta. E olhamos para elas com mais atenção e isso faz como se abríssemos uma Caixa de Pandora.

Olhamos para cada uma delas e relembramos a história que a rodeia, a época em que dela tomámos posse. Um quadro que observo com alguma frequência tem a ver quando, há anos, me desloquei a Cuba para uma reunião geral dos Comités Olímpicos Internacionais. Não foi fácil a compra da tela (teve que vir enrolada dentro da mala) mas hoje a sua visão é uma bela recordação.

Outra saboroso reencontro é o de um pequeno trabalho em barro, de acabamento rudimentar, representando uma ceia de Cristo, realizado por um ceramista do estado de Sergipe, no norte do Brasil, que felizes condições de vida me permitiram visitar.

Ceia Sergipana

Outra ainda é um par de quadros do artista algarvio Manuel Cabanas, com data de 1945, que representa o copejo do atum que, na época, era uma aventura muito peculiar dos mares algarvios.

Copejo do atum

Para fechar esta Caixa de Pandora (que poderia ser muito mais alargada) trago a este texto um quadro de minha autoria (desculpem a imodéstia) que representa a primeira moradia que a família da minha mulher teve, durante muitos anos, como casa de família. Lembro-me bem dela, com muita saudade. Mas o inapelável desenvolvimento urbanístico de Monte Gordo fê-la desaparecer substituindo-a por prédios em altura. Felizmente vivemos num deles e a sua traça preserva-nos da fealdade que poderia ter acontecido.

São recordações que perduram e para as quais olhamos superando a indiferença que temos usado parar com elas . É como se abrisse uma Caixa de Pandora.

Um pensamento sobre “CAIXA DE PANDORA”

  1. Só hoje, tive ocasião para ler esta crónica de bastante intyeresse… ! Também tenho notado, com frequência, as alterações do panorama das vilas e cidades, alterando o seu caracter histórico, manifestado pelo apego ao que é novo! Talvez, o cansaço do sempre o mesmo, transferindo estilos, ilusóriamente permanentes, para novos paradigmas, igualmente provisórios, conforme a evolução da vida e da cultura…! E disso, tenho a minha própria experiência, quando passo por Coimbra, e voluntáriamente, paro em frente da antiga casa paterna, onde nasci, sentindo a dolorosa nostalgia, que tanto me atrai, como me afasta daqueles tempos em que por lá andei e cresci, num turbilhão de recordações com sabor a mel…! Recordações, que se misturam com outras bem mais duros, em que se falava apenas da Guerra e da destruição, como se ela estivesse ali bem perto ! E esteve, transmitindo as suas amarguras, e nos deixou marcas, por contágio…!
    A destruição de uma cultura, abandonada pela necessidade do imediato, e a necessidade de alterar, pelo quotidiano dos novos tempos, como sempre aconteceu…! Um museu imaginário ao ar livre, que nos vai indicando o que fomos e o que somos, sem pensar no que nos resta, que nos virá mostrar um dia, supostamente cheio de Sol..! O alívio espiritual, pura e simples, como solução irreversível, do que se considera velho como os trapos…?

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