SALOMÉ E “WALKING DEADS”

Factos tão diferentes na história dramática do nosso mundo sugerem-nos, de quando em vez, incidentes presentes e reconhecíveis que, com uma ponta de humor, nos apetece abordar. É bom, no entanto, recapitular.
Salomé, que viveu entre 14 e cerca de 70 DC, era neta de Herodes, o Grande, e filha de Herodes Filipe e Herodias. É apontada, no Novo Testamento, como responsável pela execução de João Batista.
Parece que numa festa no palácio de Herodes Antipas, Salomé dança concupiscentemente para ele. Excitado com o espetáculo, Antipas, provavelmente embriagado, compromete-se a dar-lhe a recompensa que ela quiser. Herodias, mãe de Salomé, que odiava João Batista, já preso nas masmorras do palácio, por ter denunciado o seu adultério com o cunhado Antipas, convence a filha a pedir a cabeça do profeta e ela assim faz. Apesar do receio por tal ato, levando em conta o prestígio crescente de João Batista junto do povo, Antipas acaba por lhe oferecer a cabeça decapitada do profeta numa salva de prata. Este episódio ficou para a História como exemplo de ato vil e desnecessário, caprichoso e cobarde.
Salomé ficou para sempre lembrada apenas por este episódio macabro, independentemente do facto de dançar bem e dispor, eventualmente, de atributos físicos bem qualificados.
Famosos escritores vieram, mais tarde a escrever peças baseadas nesta personagem. Um deles, o irlandês Oscar Wilde, fez uma peça dramática com textos que ainda hoje perduram. Cito um extrato:
“… Porque não me olhas, Iocanaan? Teus olhos, que eram temíveis, tão cheios de ódio e escárnio, estão agora fechados. Porque estão fechados? Abre-os!……….
Consideraste-me ninguém, Iocanaan. Desprezaste-me. Pronunciaste ignóbeis palavras contra mim. Trataste-me como uma maretriz, uma dissoluta, a mim, Salomé, princesa da Judeia! Bem, Iocanaan, eu estou viva, mas tu estás morto e a tua cabeça me pertence….”
Depois da ópera de Richard Strauss sobre o mesmo caso (obra realizada entre o final da Era Romântica e a primeira metade do século XX) chegou, anos mais tarde (em 1953), o filme “Salomé” , protagonizado por Rita Hayworth, e aí , sim, muito mais gente, em todo o mundo, ficou a conhecer a história da princesa.

E permitam-me agora que salte para os tempos atuais em que, na televisão, se consome uma série chamada de “The Walking Dead”. Para além do disparate da história em si mesma (serei aqui atacado pelos devotos da série) a história é simples: um Xerife americano (claro) acorda de um coma prolongado e verifica que o mundo está em ruinas. Só vê, como solução, comandar um grupo de sobreviventes de forma a, ele próprio, poder também sobreviver.

Não há dúvida que a História nos ensina muita coisa e nos relembra as ações e os procedimentos de gente que, nos tempos de hoje, muito se assemelham, em termos mais civilizados e adaptados aos nossos costumes, às vilanias, às vaidades que os antigos já praticavam ou que os modernos inventam para relembrar os absurdos que sabem que, na vida real, não acontecerão.

Isto da Salomé com cabeças em salvas de prata e o morto que pretende sobreviver não vos faz lembrar nada dos tempos de hoje? Desculpem, talvez seja o meu humor que está a perder qualidades.

3 pensamentos sobre “SALOMÉ E “WALKING DEADS”

  1. Este, é talvez o texto mais interessante que li nos últimos tempos. O humor sublime com que foi escrito, deixou-me de rastos. Simplesmente sublime…! Nunca gostei da imagem horribilis, de Salomé, segurando a bandeja de prata, com a cabeça de S. João Baptista, apesar da beleza das pinturas de Caravaggio. Ela, fez-me sempre pensar, como o ódio e a incompreensão das pessoas, se tornam o veículo de tanta decisão injusta. E esta similitude de atitudes, felizmente simbólicas, continuam a aparecer no panorama político mundial. Entre nós, não há nenhuma Salomé, mas poderá ser uma outra assumida Salomé qualquer, ou um Herodes e um Pilatos, para completar o elenco. E é pena, que não tenhamos um outro Oscar Wilde, alojado numa estalagem em Sintra, à sombra de uns quantos plátanos, a escrever os seus contos, baseados na actual política portuguesa…! Eu, seria um leitor atento, no mínimo, já que não teria a capacidade e a arte de transpor os seus escritos para uma ópera, pelo dramatismo em que Portugal caiu … ! Talvez antes, uma ou outra ópera bufa, pelo ridículo de algumas situações, fosse mais fácil…!

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    • Caríssimo Amigo, como sempre, gostei muito do seu comentário. No entanto , na minha tentativa de humor indireto, quis referir-me a Salomés e Mortos Andantes que andam, neste momento, por aí. E que já nem hesitam no despudor.

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