Música e Festivais

Realizou-se, este fim de semana, o 9º Festival ao Largo, promovido pelo Teatro Nacional de S. Carlos, com apoios financeiros significativos. Não é inédito no país e muito menos no estrangeiro este tipo de espetáculos. Não deixa, no entanto, de ser merecedora de alguma atenção a iniciativa em si e, principalmente, o esforço que é exigido a conjuntos de profissionais (maestros, orquestras, coros, cantores, solistas instrumentais) alguns nacionais, outros contratados por esse mundo fora, envolvidos numa atividade artística que, como tal, sempre se debate com exigências de programação e, muitas vezes, com dificuldade em ultrapassar as balizas financeiras que regem estes eventos.
Curiosamente, no mesmo fim de semana, houve concertos de bandas nacionais e estrangeiras, promovidas por empresas de comunicação, todas geralmente de renome, que tiveram as suas lotações esgotadas com meses de antecedência. São concertos dirigidos à juventude que, saudavelmente, os frequenta em números inimagináveis há alguns anos atrás. A música é isso mesmo, um alimento do espírito, e como tal deve ser acarinhado em todas as suas modalidades. Lembro-me bem das antigas gerações também saberem de cor as letras das canções que, à data, mais se popularizavam. Nada de novo, portanto, com a única diferença, que não é pequena, de que os meios de comunicação atuais são extraordinariamente mais numerosos e mais sofisticados.
Com esta comparação ocorre-me perguntar por que razão os Festivais de Música Clássica (sei que é um problema usar esta designação, mas talvez seja melhor do que chamar-lhe música erudita para não ser acusado de coisas ainda piores) não terão ainda recorrido, por cá, aos mesmos métodos de promoção e captação antecipada de gerações. Os Festivais ao Largo, realizados no Largo do S.Carlos, são de uma enorme beleza estética, com excelente grau de profissionalismo e contribuem, como tantas outras iniciativas, para o “aggiornamento” de Lisboa, considerada uma das capitais mais apetitosas do mundo (cá está o lisboeta a puxar a brasa à sua sardinha). Mas em muitos outros locais do país passa-se o mesmo, e todos esses locais também são procurados pelos devotos desse estilo. Mas não falemos, por exemplo, em Paredes de Coura (e outros) onde os assistentes são, em muitos milhares, superiores aos da tal Música Clássica. É a tal juventude que já foi identificada com esses festivais e que, curiosamente, pagam, com antecedência, as entradas que lhes são propostas.
No Largo de S. Carlos não há entradas pagas e o espaço é limitado. Muitos turistas aproveitam esta época para assistirem a uma coisa que nas suas terras custa fortunas. O que vale ao Festival é a transmissão televisiva que chega longe, mas não cria a habituação e a divulgação dos festivais de juventude.
A propósito desta comparação recordo uma história que, nascida há muitos anos, deu origem a interessantes acontecimentos atuais. Em 1999 a maravilhosa canção “The Prayer”, cantada pelo duo Celine Dion-Andrea Bocelli, composta para o filme de David Foster “Quest for Camelot”, foi nomeada para o oscar desse ano. A lendária Elizabeth Taylor, sensibilizadíssima com a magia da música, fez uma grande campanha por ela. Declarou que a canção era uma fantástica oração que levaria as pessoas a rezarem mais. E, sobretudo, que essa música se transformaria num clássico eterno. E acertou. Liz Taylor, por quem eu e toda a minha geração se apaixonou perdidamente, foi a rampa de lançamento para uma das canções mais maravilhosas que hoje podemos ouvir.
Mas essa canção extraordinária, como muitas outras mais ou menos clássicas, são hoje cantadas pelos mais famosos intérpretes em espaços exteriores gigantescos, ocupados por milhares de pessoas que PAGAM BILHETE, em Nova Iorque, Londres, Berlim, Paris, Moscovo. Vejam no YouTube a multidão destes concertos que por lá pulula.
Lisboa tem espaços maravilhosos onde esses concertos poderiam ter lugar (estou a lembrar-me do Parque Eduardo VII mas haverá outros).
É preciso encontrar e apoiar promotores para esses concertos. Para que a tal música clássica não se atrase ainda mais, em termos de divulgação, dos outros concertos de juventude. Com a grande mais valia de que a Juventude também aprecia e sabe apreciar essa tal música clássica.

2 pensamentos sobre “Música e Festivais

  1. Após o belíssimo artigo de Marques da Silva, satisfez-me o comentário de Rui Frias! Recordaram-me os belíssimos concertos a que assisti nos anos 50, proporcionados pela Associação de estudantes da Faculdade de Ciências, que negociou com o teatro de São Carlos entradas de grupos de estudantes nos consertos, com preços irrisórios. Outros tempos !

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  2. Ora, nem mais ! Que melhor assunto poderíamos ter, para dissipar um pouco os pensamentos enegrecidos de tanto fumo e desgraças, causados pelos incêndios deste país. Um autêntico bálsamo para as ideias, ainda doridas de tanta visão dantesca…! Falar de música, é falar de poesia, contando os sonhos, em acordes melodiosos, que a vida repudia por vezes, tão drasticamente e de forma abrupta, da qual tentamos uma fuga escondida, pelas sombras da realidade. E o Teatro Nacional de S. Carlos, consegue dar-nos essa possibilidade de fuga, com os seus concertos ao ar livre, como Sintra nos presenteia as Noites de Bailado em Seteais, e no Palácio de Queluz, onde em tempos já um pouco longínquos, assisti embevecido, Zizi Jeanmaire e Roland Petit nos seu gracioso Pas de Deux . Ainda ao ar livre, há poucos anos, nos arredores de Castelo Branco, sob um céu estrelado de uma noite cálida de verão, este país do interior, timidamente, recebeu um recital de piano oferecido por Maria João Pires na sua quinta de Belgais. Que pena não se multiplicar por dez ou ainda por cem festivais, por este país faminto de cultura musical séria…! E aquela visão de um festival no Parque Eduardo VII, foi genial…! Direi em acréscimo. porque não palcos fixos em forma semi-esférica, como o de Central Park em Nova York ? Perdoem-me as minhas veleidades…!

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