7 DE OUTUBRO DE 1947

Não rebusquem na memória nem vão consultar a internet.  Esta data nada vos diz nem aparece em nenhum repositório “googliano”.  Para nós (já vos digo quem) é uma data marcante, diria mesmo essencial nas nossas vidas.  É como a linha de partida de uma prova de maratona em que todos pensam e querem chegar ao fim. Infelizmente, como na corrida, não é assim. Alguns desistem, outros vão ficando pelo caminho,  mas a perenidade da data vai sendo preservada por aqueles que, melhor ou pior, vão aguentando o percurso. Há muitas datas como esta, mas esta é a nossa. E chegar ao fim é coisa que nunca acontece. Cada um chega ao seu fim, deixando o lastro de vida que constituiu, decerto com muito esforço, muita convicção e enorme sabedoria.

Perdoem-me os meus amigos e seguidores deste blog,  mas a coisa hoje é pessoal.

A 7 de Outubro de 1947 muitos miudos  iniciaram os seus cursos liceais. Eu e mais uma quantidade deles encontrámo-nos no Lyceu Passos Manuel , hoje Escola Secundária Sede do Agrupamento Vertical de Escolas da Baixa-Chiado, (que raio de nome!)  e iniciámos uma corrida que se prolongou pelas nossas vidas.  Isto passa-se, portanto, HÁ SETENTA ANOS. Normalmente estas datas comemoram-se quando se acabam os respetivos cursos, mas para tal seria preciso aguardar mais 7 anos e… “o futuro a Deus pertence”, conforme dizem crentes e agnósticos… O melhor é aproveitar já esta oportunidade.

A época não é de todo má para isso. As aulas deste ano também estão a começar e as polémicas sobre métodos de ensino, liberdades de ensino e dos alunos, são cada vez mais frequentes, o que nos leva sempre a pensar como éramos atrasados e desprotegidos no nosso tempo.  Cada turma tinha cerca de 40 “malandros”, todos rapazes, porque não havia nada destas “igualdades de convívio”, e quem quisesse ver miúdas tinha que ir para as portas do Filipa, do Maria Amália, do D. Leonor ou da Escola D. Maria que era a que ficava mais próxima do liceu. Os programas e as formas de dar aulas não tinham nada a ver com as técnicas avançadas que hoje se utilizam. Qual aulas em grupo, qual nada! Tudo sentadinho na carteira, com o parceiro ao lado e os palavrões (já se diziam palavrões) murmurados muito baixinho.  Era uma infelicidade, realmente… Tínhamos que ir de casaco e gravata, penteadinhos e com as pastas bem arrumadas.  Havia uma sala, a nossa, por onde passavam os professores das diversas disciplinas. Se eles não apareciam até 10 minutos depois do segundo toque, a rapaziada desaparecia e não havia quem os apanhasse.  O melhor contínuo que tivemos, o velho Quintão,  sabia para onde íamos mas disfarçava.  Ele e os outros contínuos dependiam de uma figura distintíssima, quase ducal, o Senhor Branquinho, Chefe do Pessoal Menor, com gabinete perto do do reitor. Quem fosse chamado ao Branquinho estava feito…

Havia dois campos de desporto, o de baixo e o de cima (este só permitia futebol clandestino) e obrigava-nos a passar pela casa do reitor. As trapeiras para jogar à bola nos intervalos compravam-se numa “janela” em frente ao liceu (não sabíamos quem lá vivia) pedindo em voz alta  “uma grande ou uma pequena”. A pequena custava 50 centavos, a grande um escudo. E tinha que ser rápido porque se o polícia visse e nos apanhasse,  íamos passar um bocado de tempo à esquadra que era ali perto.  Aconteceu-me isso uma vez. Esta janela das bolas ficava por cima de uma loja famosa, a “Tabacaria Varatojo”, onde a malta alugava as revistas do Gibi e Superman (em edições brasileiras) para levar para casa e trazer no dia seguinte. Este Dr. Varatojo apareceu, durante muitos anos, em programas de televisão, com cachimbo e a decifrar enredos policiais.

Quando não havia futebol lá tínhamos que jogar ao bilas, com os três buraquinhos do costume no chão, aos gritos de “marralhões” para o que tivesse o abafador maior.  Na sala de jogos havia mesa de ping-pong (hoje ténis de mesa) com a malta toda à espera uns dos outros para dar umas  raquetadas.  Ah, é verdade, havia o “firix” que era um jogo que se jogava com moedas antigas, nos bancos do pátio da Física (nítido percursor do subutteo) em que havia campeonatos e campeões. Claro, uns do Sporting, outros do Benfica, poucos de outros clubes. A coisa às vezes azedava…

Nos intervalos jogava-se também, no pátio da cantina, uma coisa que era a “bolinha”. Duas paredes frontais à distância de alguns metros, que serviam de balizas para umas trapeiras pequenas (as tais bolinhas) que só se podiam atirar com palmadas. Também havia campeões.  Que estupidez… mas não tínhamos ainda os jogos eletrónicos… Neste pátio havia a cantina, chefiada pele senhor Pina, que nos vendia os cadernos escolares, as sebentas, os lápis e, claro, as bolas de berlim com creme. Uma delícia!  Julgo que eram fornecidas pela pastelaria Cinita que se situava na esquina da Travessa de Jesus (a do Liceu) com a Calçada do Combro.  Não longe de uma tasca onde se jogava matraquilhos e se comprava bonecos da bola. A bola que nunca nos saía porque faltava sempre um boneco para completar a caderneta.

Eram tempos esquisitos: não havia máquinas de calcular, nem tablets, nem computadores, nem um mísero ipod!  Era tudo à base do papel e do lápis.  E do pau de giz, quando éramos chamados ao quadro.  Mas havia dois ginásios: o pequeno e o grande. E havia aulas de ginástica e jogos de volei, basquete ou futebol, com professor e tudo.

Havia uma organização omnipresente pelo liceu: a Mocidade Portuguesa. Bem conhecida por um designativo mais brejeiro que, por delicadeza, me escuso a revelar.  A MP obrigava a miudagem a comprar uma farda (verde e castanha com um cinto com a letra S de que nunca se soube o verdadeiro significado) e, na primeira reunião, dividiam-nos em dois grupos: os que queriam “ordem unida”, a quem seria reservado futuro mais auspicioso, e os que quisessem escolher uma modalidade desportiva. Por mim escolhi o volei e não me arrependi. Havia destas atividades às quartas à tarde e aos sábados.

Mas nesse reino de insuficiência, como hoje se poderá imaginar, havia, como sempre tem havido e continua a haver, um grupo extraordinário de professores que nos encheram as cabeças e de quem bebíamos tudo o que nos transmitiam.  Na geografia, por exemplo, tivemos que estudar os rios e os afluentes, os caminhos de ferro portugueses, a orografia do continente e tivemos que saber o que havia em Angola, Moçambique, Macau, Cabo Verde, São Tomé, Timor,  Açores, Madeira. Tudo isso era Portugal e dava um trabalho do “caraças”! Mas os professores conseguiram falar-nos dos continentes, do mundo, dos climas e suas razões, das latitudes e longitudes, dos povos e dos seus hábitos.  Nas Ciências tive que fazer um trabalho sobre as dunas e outro sobre salinas, as razões, os locais e os “para quês”. Sem internet, que chatice!
As línguas que estudámos, francês e inglês, deram-nos,  a todos, para fazermos muita coisa na vida.  Com a História navegámos pelo mundo inteiro, pelas civilizações antigas e as suas  relações. Não ficámos a gostar muito dos castelhanos nem dos franceses (aquilo das invasões foi muito chato…).  Na Física fazíamos experiências cujos resultados já conhecíamos e na Química, com os tubos de ensaio, as coisas não apareciam das cores que os professores diziam porque a malta trocava os líquidos de propósito.

Havia uma famosa disciplina que se chamava OPAN (Organização Política e Administrativa da Nação), a que se passava sempre no exame,  mas que nos dizia como as estruturas políticas do país funcionavam nessa época. Era o que havia naquele tempo. Como se ensina isso hoje nas escolas?  Conheço muito jovens, mais preocupados, que ao fazerem os 18 anos e querendo votar,  me têm perguntado o que é isso de vereador, Assembleia Municipal ou deputado.  Quando se fala da União Europeia aconselho-os a lerem uns livros que falam disso. Devia ser assim?

Há sempre professores que nos marcam para a vida.  Tivemos um, de matemática, que era um exemplo de generosidade, de conhecimento, de interesse pelos alunos e pelo que ensinava. A Geometria Descritiva no espaço materializava-a com varetas de guarda-chuvas espetadas em rolhas de cortiça. Percebemos tudo. Sem os 3D do tablet!… Eu, que não tinha vocação especial para nada, estava na dúvida, após os exames do 5º ano do liceu (nono ano atual), se devia ir para ciências ou letras. Esse professor perguntou-me o que eu ia decidir. Disse-lhe que não sabia. E ele respondeu-me, com o seu sotaque madeirense; “Mê filho, letras são tretas!”. Fui para Ciências.  Esse Professor tem uma Praça com o seu nome, na Ribeira Brava, de onde era original e onde sempre viveu.
E tivemos Filosofia, uma coisa que também tinha silogismos de que toda a malta gostava. O resto, os pensamentos mais filosóficos, dava para alguns escreverem seis páginas nas provas e outros apenas duas. A classificação dependia do gosto dos professores.

Dos muitos que se conheceram em 1947 foram criando mais intimidade uns ou outros. É sempre assim, ainda hoje. Houve um grupo de 7 que estiveram sempre juntos, desde o 1º ano, turma A, até ao 7º ano, turma A. Outros dois desse grupo optaram em ir para Letras e tiveram que se mudar para o D. João de Castro. No Passos Manuel só havia Ciências e não havia miúdas… Só no ano seguinte ao da conclusão do nosso curso (1954) foram admitidas meninas nos 6º e 7º anos. Foi de azar!…
Os dois que foram para Letras chegaram a Professores Doutores, dos que ficaram em Ciências, 5 foram para engenharia, um para medicina e outro para a Marinha e depois engenharia. Não havia números “clausus” e portanto a rapaziada podia escolher o curso que pretendia. Se fosse hoje, se calhar tinham ido todos “para as obras”!
Além destes tivemos um poeta, falecido em França no ano 2000, que pertenceu, de acordo com a crítica da época, à segunda geração do surrealismo português e foi investigador, cronista e tradutor. Com a vida, o grupo foi-se alargando a outros que tendo estado na turma A, passaram à B e regressaram à A, sem nunca perderem os laços de amizade que existiam. E conservamos ainda um famoso publicitário além de outros em diversas áreas profissionais.
Este grupo tem vindo a fazer, desde há muitos anos, reuniões anuais de curso com jantares sempre no dia 7 de outubro. Desde há uns anos, por uma questão de decência geriátrica, passaram a ser almoços.
Nem todos continuam entre nós. É a tal maratona da vida… Mas os que cá estão sempre têm recordado aquela época maravilhosa, em que todos os dias se viam, estudavam, gozavam e, no fundo, se queriam bem. Como hoje acontece com os que se conhecem, agora todos os anos em setembro, se não me engano.
Os programas de estudo são melhores, as liberdades de escolha são muito mais variadas, as tecnologias de apoio ao estudo atual eram as antecipações científicas ou visionárias daqueles outros tempos.
Uma coisa se mantém: a qualidade e o esforço dos professores e pais em transformarem o “pessoal” em gente capaz para os seus futuros. Foi isso que nos valeu e é isso que continua a valer.

Agradecemos a vossa atenção pelo NOSSO 7 DE OUTUBRO!

3 pensamentos sobre “7 DE OUTUBRO DE 1947

  1. Devorei todas as palavras, todas as sílabas, desta crónica…! Curiosamente, senti-me regressar à minha juventude, igual a de tantos outros. Rever amizades que já não conheço, com excepção de alguns que ia encontrando por mero acaso, nos sítios mais longínquos que podíamos imaginar. Não, que não os quisesse encontrar, mas apenas porque a vida nos separou até ao esquecimento. E aquele malvado exame de admissão ao liceu, que me levou ao desespero de ter que mudar de rumo. Os colegas de carteira no Colégio Moderno, no Campo Grande, de que guardo grandes recordações. Professores extraordinários que tivemos, a quem, alguns dos quais, aplicávamos alcunhas, por algum motivo, muitas vezes sem nexo. Era o professor de francês ” Monsieur Porc Russe “, de cabelo arruivado, que largava grandes fumaradas do seu cachimbo, cada vez que interrompia as suas prelecções. Eu sabia pelo cheiro, que era Revelation, igual ao tabaco de meu pai. E o professor de matemática, que pela sua parecença com Gary Cooper, ganhou esse nome, além da nossa grande estima, por jogar à bola connosco, quando o horário dispunha esses tempos disponíveis. O Doutor Rosa, professor de Geografia, de cujas lições ainda me lembro hoje, que tive a felicidade de o encontrar em Goa, num abraço infindável, com os nossos olhos cheios de lágrimas. O actor Manuel Lereno, que nos ia dar lições e ensaios para uma peça de teatro de Gil Vicente, que nos fazia recear pelo palavreado ” obsceno ” usado com risos, na ” Barca do Inferno “. O próprio Director Dr. João Soares, que nos esperava todas as manhãs, em frente do seu escritório, de onde nos estendia a mão, segurando a sua bengala com a outra, quando sabia que tínhamos boas notas, ou apenas com um dedo, guardando os outros para agarrar a bengala, quando achava que não éramos mais merecedores do que tal manifestação. Algumas das vezes, fazia-nos sinal para seguirmos, apenas com um gesto, quando as notas não eram de seu gosto…!
    Recordações que ficaram bem gravadas na minha memória, de um dos períodos mais importantes da vida, mesmo que algumas contrariedades a tivessem ofuscado.
    Encantado com todas estas recordações, não sei se rejuvenesci, ou se envelheci irremediavelmente, ao pensar em tanta coisa que gostaria de ter mudado, riscado, alterado, desfeito…! Sei apenas, que adorei ler este texto…! Ah …! Não posso esquecer, aquelas vezes em que oferecia raminhos de flores ainda frescas, surripiadas do jardim do Instituto Nacional de Estatística, atiradas através das janelas abertas das salas de aula do Filipa. Mal sabiam as ” miúdas “, das corridas a que me forcei, fugindo ao jardineiro, que me ameaçava com um ancinho…! Doces pecados !

    Liked by 1 person

  2. As tuas memórias, quase todas, são as minhas memórias. Reparto-as com o outro liceu que frequentei e que, tal como o “velho” Passos, me marcou para a vida: o D. João de Castro. Foram tempos diferentes, nós éramos diferentes: é impossível comparar, à distância de 70 anos, a estrutura educativa em que vivemos e a actual. Nós tivemos grandes professores, como o que nomeaste sem dizer o nome, mas, perdoe-se-me a imodéstia, eles também tiveram grandes alunos – nós. Hoje, professores como eles poderiam ter muito menos sucesso… mas explicar isso levar-me-ia tempo demais para um comentário.
    Resumindo: grande texto, excelentes memórias, e vamos ao almoço de segunda-feira!

    Liked by 1 person

  3. É verdade que não havia as tecnologias atuais, mas se pensar bem nem tudo foi mau…dava-se mais valor a tudo o que se conseguia. Eu que andei num colégio de freiras, recordo com saudade esses tempos.

    Liked by 1 person

Deixe um comentário

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s