O MUSEU IDEAL

 

Li, recentemente,  a notícia  de que a Diretora do Museu de Arte Contemporânea da Fundação de Serralves,  Suzanne Cotter, abandonará o seu lugar no final do ano. De nacionalidade australiana e inglesa tem sido, desde 2012, uma competentíssima diretora do Museu.  Fui tentar perceber as razões desta saída.  Cotter diz ter sido “uma decisão sua e natural”. E continua:  “Sou uma pessoa muito intuitiva, faço parte de uma comunidade de curadores e diretores de museus internacionais, e nós mudamos. Creio fortemente na necessidade de os museus terem a possibilidade de se renovar e renovar a sua visão”. E, segundo declarou, terá recebido um convite irrecusável.

Trata-se de uma figura importante no mundo das artes museológicas e será, decerto, substituída por outra personalidade de igual competência.  Mas a coincidência desta sua posição com alguns artigos que tenho lido sobre este tema, leva-me a explorar algumas ideias que julgo de grande atualidade. Nesta matéria, como em muitas outras, não sou especialista que se recomende,  mas sou “observador utente” e tento compreender aquilo que acompanho em âmbitos em que a minha preparação é escassa.

Sobre o tema “O Museu Ideal” escreve Christophe Averty:  “Quando, num museu, nos confrontamos com uma obra-prima … gera-se um reencontro silencioso e contemplativo de que retemos uma sensação preciosa e viva que desejaríamos conservar”.  E esse facto leva-nos, muitas vezes,  a desejar conhecer melhor o autor da obra e as razões que o levaram a concebê-la.  É esse o grande desiderato dos museus: estimular as pessoas a não passar, simplesmente, pelas obras, mas a refletirem sobre elas. É uma missão difícil, sempre o tem sido,  mas cada vez mais difícil com a aceleração dos meios da vida moderna. Apesar disso as longas filas de espera nos museus são um bom testemunho de que o interesse das pessoas em geral e dos jovens em especial tem vindo a aumentar.  Para satisfazer esses públicos tão diversos  os museus, que estão no coração das sociedades em mutação, devem adaptar-se, renovar-se e pensar como será o futuro.  A evolução demográfica, o urbanismo, a digitalização, a globalização têm vindo a implicar alterações aceleradas de comportamentos.  Os museus serão sempre os guardiões das memórias, os grandes combatentes contra o esquecimento, a ignorância ou desconhecimento.

A evolução demográfica tem contribuído para o aumento de públicos  cada vez mais diversos e fragmentados.  As visitas turísticas ao Louvre ou ao Hermitage sempre se traduziram em penosas caminhadas de um ou mais dias para, na maior parte dos casos, se poder dizer que se foi lá. É diferente de ir apreciar peças ou conjuntos harmonizados, pelos quais teremos mais interesse e aos quais nos dispomos a reservar mais tempo. Sem esquecer as multidões de estudantes que, por todo o mundo, desejam especializar-se em determinados temas ou autores.  Existiram épocas em que as grandes coleções de arte eram alojadas em enormes recintos históricos, os famosos museus que as nossas gerações têm visitado.  Nas últimas décadas muitas cidades, em todo o mudo, disponibilizaram  áreas enormes para serem construidos edifícios arquitetonicamente  apelativos para  serem utilizados como museus. Estas iniciativas resultaram e muitas dessas cidades (Bilbao, por exemplo, ou o Centro Pompidou em Paris) passaram a registar um caudal enorme de turismo que anteriormente não existia.

Mas esta técnica também evoluiu.  Esses excelentes recintos que atraem populações não transportam a arte para outros locais mais dispersos. E por isso, muitas das instituições artísticas têm procurado, com sucesso, realizar exposições itinerantes em locais diversos de modo a “levar a arte mais próximo dos cidadãos”. Mais do que isso, e tendo concluido que as artes estão em movimento constante e que as suas disciplinas se interpenetram,  muitos museus oferecem hoje uma proposta cultural variada que atrai os inetressados em diversas linhas de criação e pensamento.  O Museu d’Orsay, em Paris, propõe, desde 2016, um “atelier” de prática fotográfica destinada aos jovens  de zonas sociais problemáticas.  Essas sessões disponibilizam também o museu e, muitas vezes, encontros profissionais que podem conduzir a estágios  e empregos.

Outras experiências têm sido levadas a cabo. Em França, em Sète, a diretora do museu, Paul-Valéry, correu o enorme risco de montar uma exposição apenas com uma tela, “A Imaculada Concepção da Capela de Oballe”, de Greco, que esteve aberta até 1 de outubro passado.  Esta proposta permite um estudo aprofundado do quadro, as razões da sua realização e o contexto em que foi feito.  Como diz  Paul-Valéry,  uma obra de arte não se resume a uma “selfie”  rápida e tão na moda.  Exige uma meditação e apreciação mais profundas. Quem quis ir à exposição foi, mas o certo é que as entradas foram permanentes até ao seu encerramento.

Também já se recorreu à exposição virtual, em que os visitantes dispões de óculos 3D e podem observar, informaticamente,  milhares de obras espalhadas por todo o mundo.  Os especialistas dizem que o regresso aos livros de arte,  em que cada volume é dedicado a um só autor, é a forma mais tranquila de apreciar, em casa, aquilo que se viu no museu talvez de forma mais acelerada.

O que será, realmente, o Museu Ideal e como vai evoluir tudo isto no século XXI? Não admira, portanto, esta coincidência da saída da Suzanne Cotter  da Fundação de Serralves  para um destino que não desvendou mas que era irrecusável. Felizmente que o mundo das artes se movimenta, se adapta e pensa a grande velocidade. As próximas gerações vão dispor, seguramente, de muito melhores meios para apreciarem as artes.

2 pensamentos sobre “O MUSEU IDEAL

  1. Interessante, este texto. Aliás, como todos os outros anteriores, onde podemos recordar ou descobrir elementos que nos alimentam o conhecimento. E a Arte, é em si mesmo, um dos mais extraordinários temas para uma conversa, tu cá tu lá, pela beleza e de tanta obra realizada pela inspiração. Quantos de nós, não desejámos saber pintar ou desenhar, ou até mesmo dedicar-se a esta nobre arte ? Infelizmente, no nosso país, isso queria dizer o mesmo que viver com dificuldades extremas. Não vou aqui mencionar os porquês deste meu pensamento, porque seria enfadonho enumerá-los. Talvez até, por defeitos de uma sociedade que dava mais valor ao que era de fora, esquecendo-se de estimular, o tanto que se tentou sempre fazer entre nós. Sou descendente de uma família de artistas, avô, tios e primos, que esculpiram inúmeras figuras em pedra, espalhadas por todo o país. Entre tantas centenas, apenas menciono, um dos altares da Igreja de Santa Cruz em Coimbra e na Sé Catedral da cidade da Guarda. Talvez ainda, poderei referir-me a peças lindíssimas de um presépio único, que se encontra no Museu Machado de Castro em Coimbra, agora totalmente renovado. Desconhecidos…! Completamente desconhecidos, com excepção de meu avô, que em tempos mereceu uma rua da baixa, com o seu nome. Na terra, onde nasceu, trabalhou e morreu…! Em 1965, foi comemorado o primeiro centenário do seu nascimento, numa sessão solene, com alguns ilustres oradores, patrocinado por um jornal da cidade, que o mencionaram apenas como ” canteiro “. Só isso ! A palavra ” escultor “, hoje, tem outro significado, enrolado num canudo, nunca se referindo a um professor de belas artes, da escola António Brotero, daquela época. Que seria hoje, de Michelangelo ou de Auguste Rodin, se tivesse nascido em terras lusas na sua época ?.
    E a arte, seja qual for, pela forma peculiar do traço marcado na tela, ou da firmeza e da suavidade com que se desbasta a pedra, dando forma à figura transferida da imaginação do artista, esse é o verdadeiro significado da arte e do artista. Para minha felicidade, tenho uma neta a estudar pintura nas Belas Artes da cidade do Porto, pelo seu próprio gosto e desejo. Espero bem. que os tempos tenham mudado o paradigma.
    Nenhum de nós, tem culpa de entrarmos num museu como o Rijks Museu de Amesterdão, esquecendo-se dos nossos, como Domingos Sequeira, Henrique Medina, Vieira da Silva, Almada Negreiro, Júlio Pomar, entre outros, e ficar extasiado a olhar para a grandeza daquele edifício e do seu contéudo.. Recordo bem, o momento de ver a muito poucos metros, o ” Ronda Nocturna “, e dos efeitos de luz que irradiava daquelas figuras, típicas da velha escola flamenga. E que outra maravilha, a pintura impressionista, de tão vasta colecção do antigo Jeu de Paumes, no Jardin des Tuileries, hoje situado na Gare d´Orleans…! Quantos museus, mesmo que pequenos, localizados nas cidades onde os seus pintores nasceram, com o de Albi, no Midi Pyrénés, com as obras de Toulouse Lautrec, ou as de Gainsbouroug, em Sudbury, Inglaterra…!
    E tudo se deve ao interesse que aquelas cidades demonstraram pelos seus artistas, valorizando os seus trabalhos, estimulando-lhes a natural qualidade, o que só há muito poucas dezenas de anos, começou, muito tenuemente a acontecer entre nós …!

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