A AGONIA DO BREXIT

Assiste-se realmente a um penoso e insensato espetáculo com o desenrolar das conversações e medidas iniciais do governo britânico para pôr em marcha um processo que a maioria dos cidadãos já percebeu que não deseja. O governo, dirigido pela mediocridade de Theresa May, é incapaz de apresentar um programa realista e funcional para concretizar um erro inominável que ela própria não desejaria cometer. Lembrar-se-ão que a sua posição inicial era contra o Brexit mas, após eleições, decidiu comandar uma empreitada com a qual não havia concordado e que, agora, pretende fazer passar por inevitável. O delegado da Grã Bretanha nas reuniões com o delegado da UE  (ainda por cima francês) comporta-se como o aluno que se esqueceu de fazer o trabalho de casa e gagueja cronicamente. O francês, claro, aproveita para levar o adversário às cordas e flagelá-lo até um KO que ainda não chegou mas para o qual só falta ouvir o gong. Lá, em Inglaterra, a Theresa, nos comícios que é obrigada a fazer, vai tendo ataques de tosse que nem o comprimido do seu ministro consegue debelar. E o problema não foi a tosse, foi o vazio. O vazio de nada dizer de convincente e nada conseguir contrapor aos argumentos que sabia encherem o pavilhão.  Enfim, a coisa não vai bem e só o futuro nos dirá como e quando tudo acabará. As divisões dentro do deu próprio partido têm vindo a agravar-se. Nicky Morgan, deputada conservadora por Loughborough, declarou publicamente que : “Se o almoço de Natal com os meus familiares já era difícil, nem vos consigo dizer como têm sido difíceis as conversas e divisões de amizades dentro do meu próprio partido nos últimos 15 meses”.

Entretanto, vão sendo tomadas medidas pelo governo absolutamente inúteis, “apenas para europeu ver”. Foi o caso da abolição do crédito da linha telefónica de apoio universal. Passará a custar aos cidadãos  até 55p por minuto uma chamada realizada de telemóvel.  Ao ser confrontada com este ponto Theresa May disse que “tinham sido introduzidas alterações e que o desempenho tinha melhorado”. Na realidade, disse NADA.

Mas já houve coisas mais graves e uma delas tem a ver com a cultura, tema sempre muito caro para os ingleses.  Ao abrigo do famigerado referendo do Brexit,  a Orquestra da Juventude da União Europeia foi obrigada a abandonar o Reino Unido, acabando por se aquartelar em Itália. Criada em 1976, esta mudança garante que os fundos oriundos da UE lhe possam continuar a ser cedidos.  O Ministro da Cultura italiano, muito rapidamente, garantiu a futura base da orquestra em Ferrara. O Diretor Musical da fundação da orquestra foi o italiano Claudio Abbado o que, nesta fase,  ajuda ao sentido da mudança. Os componentes da orquestra passarão a ter residências disponíveis a partir de 2018 e o Teatro Abbado, em Ferrara, passará a ser o seu quartel general.  Perante a inevitabilidade da questão, os co-diretores da orquestra regozijaram-se com a solução, enquanto os meios artísticos e culturais britânicos rasgaram vestes e “sangraram-se em público”.

A orquestra acolhe cerca de 120 músicos todos os anos, com idades entre os 17 e os 24 anos e, presentemente. tem 13 componentes do Reino Unido. Este caso poderá ser extrapolado para muitas orquestras com sedes no Reino Unido porque muitos dos seus membros são originários de diferentes países da UE.  Também a Orquestra Barroca da União Europeia já tinha mudado de Oxfordshire para Antuérpia, por razões idênticas.

Entretanto a Orquestra da Juventude já anunciou que a RAI italiana será, oficialmente, o seu canal oficial de transmissões.

Estas não serão, decerto, as consequências mais importantes do celebrado Brexit mas não deixa de ser um bom indicador de como, de futuro e em todos as atividades, esta operação deverá ser encarada.

Basta ler os mais insuspeitos órgãos de comunicação e atender às vozes de conceituados especialistas mundiais e do próprio Reino Unido para se perceber que o grande equívoco dificilmente chegará a bom porto.  E o elo sempre mais frágil da cultura, mas reconhecidamente o mais virtuoso, é o primeiro a baquear. Mas as marcas desta debandada forçada deixarão um rasto inapagável no conceito cultural sempre tão defendido e qualificado no Reino Unido.

Um pensamento sobre “A AGONIA DO BREXIT

  1. De facto, vivemos uma época de incertezas. Estaria a ser, talvez mais correcto, se dissesse que voltámos a viver uma nova época de incertezas. As desconfianças, os déficites, a concorrência económica entre os mais poderosos, a imigração e a perda de autonomia em relação ao que resta do seu império económico, levou muito boa gente a aceitar o Sim, no referendo provocado pelo saudosismo, de uma realidade que todos nós conhecemos. Sou dos que pensa, que Theresa May jogou demasiado forte, no puro sangue Brexit, sob a opinião de uma facção, tão conservadora como poderosa, esquecendo-se de que já não tem mais pernas para correr nas pistas do Royal Ascot.
    Como avô de três inglesinhas, sinto um maior afastamento geográfico, que talvez, nem o Eurotúnel consiga afastar os famigerados fantasmas da velha ” Albion “. As alfândegas, assim o determinarão…!
    Your passeport, please !!! You are wellcome, Sir…! Have a nice day… ! Oh..! It´s raining ! I´m so sorry…!

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