AS AMAZONAS

Foi publicado há pouco tempo, nos Estados Unidos, um livro que me despertou a atenção: “As Amazonas: Vidas e Lendas das Mulheres Guerreiras do Mundo Antigo”, da autoria de Adrienne Mayor, já traduzido para francês com o título: “As Amazonas: Quando as Mulheres Eram Iguais aos Homens (século 8º AC até século 1º DC).  Não me é desconhecida a história ou lenda das amazonas,  mas este trabalho propõe-nos um conhecimento mais profundo do tema, talvez, mesmo, esgotando-o, podendo mesmo transformar-se num clássico dos estudos sobre  géneros. E numa época como a nossa, em que tanto se discute a igualdade de géneros, não deixa de ser aliciante remontar a uma época em que “as mulheres eram iguais aos homens”. Hélas!!!

“A historiadora Adrienne Mayor é investigadora na universidade de Stanford (Califórnia) e desenvolveu um trabalho monumental , indo até aos confins da história, da filosofia, da arqueologia e da antropologia, reencontrando  as raízes do mito grego das amazonas, um povo de guerreiras, mulheres que, como o título anuncia, eram iguais aos homens”.

O mito das amazonas foi integrado e difundido pela cultura grega e, daí, se nos tornou familiar. É sabido, hoje,  que essas mulheres intrépidas cortavam os seios direitos para melhor atirarem com os arcos. Que iam, uma vez por ano, seduzir os homens mais belos dos povos vizinhos para obter uma descendência expurgada, desde a infância, do género masculino.

Mas Adrienne Mayor diz-nos que as amazonas não são apenas o fruto da imaginação helénica. A realidade histórica levou-a até um conjunto de povos nómadas e semi-nómadas, que viviam desde o norte do Mar  Negro até às margens ocidentais da China, cobrindo realidades etno-linguísticas diversas.  Mas o que sempre se manteve ao longo dos séculos com esses povos foi o lugar social das mulheres, livres, como diz a autora, “de fazer amor e a guerra”.  Os vestígios arqueológicos, as antigas estruturas funerárias (mulheres enterradas com as suas armas e os seus cavalos) indiciam, como realidade, o que foi sendo transmitido pelos relatos, pelos detalhes cerâmicos, por toda a iconografia existente. A principal virtude deste estudo é ressuscitar as organizações sociais defuntas para as analisar à luz das nossas sociedades atuais. Para que “nos possamos dar conta das nossas atitudes no que respeita à distinção dos sexos”.

E não são necessárias muitas lucubrações para se entender a longa luta das mulheres na obtenção e defesa dos seus direitos, principalmente ao longo dos últimos decénios. Com excessos, por vezes, mas como dizem os estatísticos, os excessos contribuem para a mediana.  É hoje incompreensível que, ainda em muitas situações, não sejam dadas às mulheres as mesmas oportunidades que aos homens. O mundo está cheio desses exemplos mas os comportamentos das sociedades mais evoluídas poderão contribuir para essa progressiva realidade.

São milhares os exemplos de mulheres que, todos os anos, aparecem elogiadas pelos seus desempenhos nas áreas mais variadas da vida: ciência, investigação, cultura, política, gestão de empresas, forças armadas, enfim, um panorama extensíssimo que nos obriga a aplaudir o imenso mérito de todo o trabalho que tem sido feito. Temos as Amazonas dos nossos tempos, sem a crueldade normal nas fases primitivas da história, mas com o bom senso, a cultura, a determinação que os séculos nos trouxe a todos.

Os exemplos são inumeráveis mas alguns mais recentes vêm-nos à memória: o caso de Jacinda Ardern que, aos 37 anos, se tornou a mais jovem primeira-ministra da Nova Zelândia, nos últimos 150 anos. Por outro lado,  assistimos ao assassínio da jornalista de Malta, Daphne Caruana Galizia, por ter vindo a denunciar o “alto nível de corrupção nas elites da política, dos negócios e criminais de Malta”. Para um país pequeno, incluído na UE, os sintomas são muito preocupantes.  Não é a única mulher que tem desenvolvido lutas e assumido protagonismos extraordinários, mas este é um caso marcante e recente. São bem conhecidas muitas mulheres portuguesas que se têm distinguido em muitos sectores  da vida.

Mas tudo isto vem a propósito dos casos monstruosos, pelo menos para a nossa sensibilidade, que surgem com frequência, por todo o mundo, no que respeita à violência sexual.  A recente vaga de indignação suscitada pelo caso Weinstein, o produtor americano acusado de assédio continuado, mostra que esses atos, tolerados por muito tempo, passaram a ser moralmente intoleráveis. Os casos de Weinstein, de Strauss Kahn e muitos outros com grande expressão mediática, vieram despertar os sentimentos contidos e acabaram por dar força e coragem a muitas jovens mulheres que, ao longo dos anos,  foram vítimas desses abusos.  A ginasta inglesa, Mckayala Maroney, medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Londres 2012, acabou, recentemente, por denunciar o médico da sua equipa olímpica (Lawrence Nassar)  por abuso sexual continuado,  “sob o pretexto daquele procedimento ser considerado como tratamento”.

Como diz a antropóloga Véronique Nahoum-Grappe, : “A apropriação sexual é muitas vezes a realização final do domínio económico, no contexto colonial, nas fábricas e nos escritórios…”. Todos sabemos que o assédio se desenvolve nos dois sentidos, (homem/mulher, mulher/homem)  mas, em qualquer caso, essas atitudes passaram apenas de injustas a inadmissíveis.

Mas é importante destacar as “amazonas” deste nosso tempo. A sua luta terá que prosseguir por muitos séculos ainda mas, como dizia alguém importante, o caminho faz-se caminhando.

E não é de somenos a ideia de que todos apreciamos a beleza, nos dois sentidos, e que guardamos, com respeito, imagens inesquecíveis de beleza e encanto nas nossas vidas. Aqui vos deixo uma, para terminar,  para não deixar a ideia de que este post tem apenas um sentido trágico.  Não, pretende apenas relembrar a enorme valentia com que as antigas e atuais amazonas têm contribuido para o são desenvolvimento do mundo.

Aqui vos deixo uma imagem lindíssima. E não era minha… Fui buscá-la ao DN. Lembram-se dela?

IMG_0996

2 pensamentos sobre “AS AMAZONAS

  1. Interessantíssimo, este assunto, e tão elegantemente escrito. Pouco ou nada direi, em acrescento, se me é permitido esta pequena vaidade…! Estou tentado a começar pelo fim deste texto, talvez mais impulsionado pela fotografia bem representativa da beleza cativante de uma mulher que nos obrigou a longos suspiros durante a nossa juventude. ” Um pecado que mora ao lado ” ,” Os homens preferem as loiras ” ( o que não é bem verdade ), e Niagara ( que em tempos percorri, pensando que todos aqueles caminhos que calcorreei, já tinham sido subtilmente pisados por aquela mulher, sem entrar no exagero de andar em bicos de pés, e não destruir os imaginários vestígios da sua passagem ). E isto, penso, que não será nunca, machismo, mas antes a afirmação de quanto um homem pode admirar e respeitar a mulher, não só pela beleza, mas ainda muito mais, pelo valor que ela tem e sempre teve na sociedade. Antes de tudo, por ser mãe e transportar-nos até ao nosso dia de visitarmos este mundo em que vivemos, dando continuidade àquilo que somos nós todos. De facto, aquilo que nós somos, em boa parte, devemos-lhes a elas. De facto, houve e continuam a haver, mulheres extraordinárias, a começar pelas nossas mães…!

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