UMA LUFADA DE AR LIVRE ( 2ª PARTE )

Chegado a Bordéus, para poupar uns francos, em vez de apanhar um táxi, fui a pé para o Hotel L’Étape Gasconne que me estava destinado e não era muito longe da estação de CF. Depois cheguei à conclusão que não era assim tão perto como isso, mas a asneira estava feita. Eu levava duas malas, uma com a roupa e outra com livros de estudo apropriados à actividade da fábrica e garrafas de Vinho do Porto que o professor Laurent aconselhava a todos os estagiários em França a levar, para começar o estágio com o pé direito. Como as malas ao fim de algum tempo ficavam mais pesadas, parei algumas vezes pelo caminho. Na última paragem, a meio da Ponte Thiers ou Ponte de Pedra, ao pousar a mala pequena no chão ouvi um som de vidro contra vidro, mas não liguei e, passado o tempo de descanso, continuei a caminhada. Então reparei que outros transeuntes olhavam para mim e riam ou sorriam. Que se passaria, pensei e olhei para baixo. Então percebi : as garrafas ao bater tinham-se partido e do fundo da mala jorrava o “precioso néctar” que ia regando o passeio !. Não me dei por achado, continuei e daí a pouco estava no hotel. Observando o prejuízo, verifiquei que já não tinha vinho para causar uma primeira boa impressão e que os livros tinam apanhado uma valente bebedeira ! Ainda os tenho numa das minhas estantes, com as folhas parcialmente acastanhadas (mas já não cheiram).

A fábrica de ácido sulfúrico era mesmo muito antiga, provavelmente de antes da 2ª guerra mundial, e na maior parte dos departamentos tinha um aspecto sujo. O processo de fabrico era antiquado – na CUF do Barreiro já havia mais moderno. Na produção, nos serviços mais duros fisicamente e menos interessantes, havia trabalhadores espanhóis que tinham fugido de Espanha na sequência do desfecho da guerra civil e que tinham ficado em França. Não queriam voltar à pátria pois ainda se consideravam inimigos do regime franquista. Um deles disse-me que de vez em quando ia à fronteira para ver familiares do outro lado. Um irmão que era guarda-civil dizia-lhe sempre
– Passa que não há problema .
– Não, não –respondia-lhe – Só entro quando tu saíres!
Um outro que encontrei a empurrar uma vagoneta com cinzas de pirite disse-me:
– Em Espanha era empregado de escritório, mas aqui sou um burro de carga!
Nas proximidades da fábrica havia um bairro onde predominava uma comunidade de origem espanhola, mas nunca estabelecemos, eu e um colega português que também se apresentou para fazer estágio e de que falarei a seguir, contacto com rapazes ou raparigas da nossa idade. Não cheguei a perceber porquê, mas não queriam convivência connosco.

Esse colega, que andava um ano à minha frente era peculiar, desde o aspecto físico às suas ideias. Chamemos-lhe Quim. Na sua postura, quando prestava atenção ao que se dizia, punha a cabeça de lado, tal e qual como os passarinhos. Da sua ideologia direi que era vegetariano (no hotel pediu que lhe dessem só vegetais e ovos), totalmente anti-salazarista e nudista praticante – nos locais próprios claro. No primeiro fim de semana em que apanhamos uma boleia para a praia de Arcachon – o Estoril lá do sítio – perguntou ao condutor se havia parques de nudismo nas proximidades. A resposta foi que sim, mas que eram todos uns maricas e uns parvos! O Quim desistiu da conversa, é óbvio. Noutra altura estávamos à conversa os dois e falámos de Portugal e do nosso regime, e o Quim disse mais ou menos isto :
– Sim o ditador Salazar endireitou as finanças, mas à custa dos impostos que cobrava das casas de p…!                                                       (Como sabem, na época essa actividade era legal e legislada. Não faço ideia que tipo de impostos pagavam, mas não era certamente de molde a conseguir o objectivo de endireitar as finanças ).
Eu limitei-me a comentar :
– Quim não exageres!
O estágio não foi particularmente interessante, mas fiz um bom relatório em francês o qual o Prof. Laurent apreciou bastante. Ah!, mas tive oportunidade de causar uma boa impressão final na fábrica. Foi o caso que o meu Pai sabendo do meu infortúnio com as garrafas e tendo conhecimento que um amigo seu ia numa excursão de autocarro a Paris, com paragem em Bordéus, pediu-lhe para me levar 3 garrafas de Porto. O amigo concordou e assim vi-me novamente na posse das ofertas. Que aliás foram muito apreciadas pelo director da fábrica, pelo engenheiro encarregado do estágio e por um chefe de turno que tinha sido bom colaborador. Deixei Bordéus com a sensação de que tinha visto pouco da cidade e da região. Praticamente só conheci Arcachon.
O meu regresso não era para Lisboa directamente, mas para Celorico de Basto onde os meus Pais estavam de férias. O percurso normal seria entrar em Portugal por Vilar Formoso, seguir para o Porto, apanhar o comboio do Douro e depois o do Vale do Tâmega, mas resolvi fazer uma variação e apanhar o comboio do Douro em Barca d’Alva. Para isso deixei o Sud-Expresso em Salamanca para tomar o comboio que ligaria àquela estação. Caí em Salamanca num dia de feira anual e como só tinha comboio no dia seguinte tive de pernoitar na cidade. Tive grandes dificuldades pois os hotéis e pensões acessíveis estavam cheios. Lá consegui ficar numa cama- divã da sala de estar duma pensão onde dormiram também três ou quatro parceiros que não cheguei a ver acordados. Mas o jantar da casa foi “à grande de Espanha”: entrada de ovos mexidos com batatas, mais dois pratos e doce!
Entretanto tinha falado com um português que me fez desistir da ideia de entrar por Barca d’Alva pois, segundo ele, teria de dormir uma noite no local à espera do comboio do dia seguinte e só havia uma pensão horrível onde os percevejos passeavam pelas paredes! O meu espírito de aventura não deu para tanto. Na manhã seguinte voltei ao Sud, não sem ter deixado o exemplar do L’Humanité na sala de estar, para irritar eventuais franquistas, e de ter reparado na tabuleta de aviso na estação “Cuidao com los ratoneros “! Quem te avisa teu amigo é. 
O único pormenor interessante da viagem foi ter conversado com um emigrante português que vinha França para passar férias na terra e que trazia o dinheiro francês (nesse tempo, já com o General de Gaulle de novo no poder, havia restrições à saída de divisas) escondido nos sapatos, em cavidades nos saltos que tinha mandado fazer de propósito! Os portugueses como sempre mestres no desenrascanço!

Lisboa, 4 de Novembro de 2017

3 pensamentos sobre “UMA LUFADA DE AR LIVRE ( 2ª PARTE )

  1. Sublime, toda esta aventura e a forma como foi descrita ! Ah…! Aquelas garrafas de Vinho do Porto, a regar as ruas de Bordeus, deixando um rasto de perfume delicioso, a concorrer com os vinhos da região…! E Arcachon, uma interessantíssima praia, com os seus Chaléts de luxo, que marcou bem, uma bela época de França. Uma boa recordação, que me ajudou a reviver todas as viagens de carro e como não podia deixar de ser, no sempre velho Sud Express…!

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  2. Relato muito interessante de um estágio e de uma viagem divertidos. Muito bem argumentado o facto de não terem tido sorte no convívio com raparigas… Compreende-se. Gostei muito.

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