CONCERTOS DE ANO NOVO

Já nos habituámos, desde há muitos anos, a ouvir e apreciar concertos para festejar a entrada dos novos anos,  realizados em diferentes países, regiões ou cidades com divulgações muito diferentes. Uns porque são ouvidos ocasionalmente, outros porque têm grupos fiéis de adeptos locais. O já famoso YouTube abastece-nos com centenas  de concertos nesta época natalícia e de novo ano cujas audiências são muito variáveis.

Habituei-me, como muitas outras pessoas, a ouvir o Concerto de Ano Novo, nas manhãs dos dias 1 de Janeiro de cada ano, realizado em Viena, sempre com a participação da Orquestra Filarmónica de Viena e com maestros convidados, dos melhores que regem por esse mundo fora. Os concertos incluem sempre as deliciosas músicas dos compositores austríacos, alemães, húngaros, enfim, oriundos daquelas regiões musicalmente riquíssimas, com escolas que ensinam, formam e promovem multidões de celebridades musicais que se espalham por todo o mundo. O espetáculo do início do ano, realizado na Sala Dourada “Musikverein”, é, realmente, de uma beleza e realização excecionais. Trechos novos, outros sempre repetidos  espalhando aquelas melodias por todo o planeta,  para as centenas de locais onde os direitos de transmissão já foram vendidos. Excelente operação musical, cultural e mediática.

Desta vez, porém, detive-me um pouco mais na constituição da orquestra. Como se sabe todos os os seus membros são escolhidos em rigorosos concursos internacionais e só os mais qualificados são escolhidos. Achei interessante o facto de todos os executantes serem brancos caucasianos, mais ou menos louros, mas brancos. Havia, aliás, instrumentistas lindíssimas…  O mais moreno era, seguramente, o maestro italiano Ricardo Muti que já conhece bem a casa e que todos apreciam. Nas paisagens e trechos intercalados com as peças musicais viram-se também cenas lindas de balet. E aí, sim, apareceu uma bailarina com tez amulatada que dançou divinalmente. A única.

A sala estava, como de costume, cheia de convidados famosos, nacionais e estrangeiros. Lá estava o a atual chanceler, Sebastien Kurz e os seus aliados de governo da extrema direita. Recordei, na ocasião, enquanto ouvia aquelas famosas melodias, as evoluções históricas do império austro-húngaro de que a Áustria se assume como seu representante final.  Relembrei também a época dos governos socialistas de Bruno Kreisky (de 1970 a 1983) que permitiu à Áustria rejuvenescer-se do seu complicado passado político e assumir um lugar prestigiado no seio da Europa. Foi com ele que se estabeleceram pontes de diálogo entre diferentes governos mundiais do seu tempo e, hoje, a Fundação com a seu nome atribui prémios anuais em prol da liberdade. Após o período conturbado do pós-guerra a Áustria ficou a dever-lhe muito do seu prestígio atual.  Suponho que, se fosse vivo, Kreisky não apreciaria muito o atual governo austríaco. Mas isto são apenas suposições de “ciências ocultas”.

Regressando à sala do concerto também me intrigou o facto da realização, ao percorrer a distintíssima assistência, só ter focado espectadores brancos ou asiáticos (poucos). Enfim, talvez me tenha falhado algum plano visual ou talvez me deva queixar da minha fiabilidade segregacionista. Mas, curiosamente, a Áustria sempre me faz lembrar o seu nativo, infelizmente tão famoso, Adolf Hitler ou a fuga tão bem romanceada da Família Von Trapp a  que todos assistimos no tão vistoso filme  “Música no Coração”.

Descerrei, de novo os olhos, a tempo  não só de ouvir, mas também de ver a extraordinária Marcha Radetzky, de Strauss,  com que o concerto termina todos os anos. Com o público encantado e a bater as palmas tradicionais conduzidas pelo Muti. Curiosamente uma marcha decorrente de um romance de Joseph Roth, escrito em 1932, relatando o declínio e queda do tal Império Austro-Húngaro. Conta-se, aliás, que numa visita à Áustria de Eduardo VII de Inglaterra, quando assistia, ao lado de Francisco José I, ao desfilar da guarda marchando ao som da Radetzky,  lhe terá perguntado entre dentes: “Este hino é o meu ou o teu?”

Áustria encantadora, música deliciosa, austríacos muito curiosos. Mas de qualquer forma, que tenhamos um Bom Ano.

2 pensamentos sobre “CONCERTOS DE ANO NOVO

  1. Eu também vi ! Eu também vi…! Mal sabem os austríacos, que aqui por estes recantos da Península Ibérica, também há adeptos daquele maravilhoso Concerto de Ano Novo.
    Mas o mais curioso disto tudo, é que, cá pelas nossas bandas, pelo que ouvi dizer e depois confirmei, na Cidade de Beja ( Não ! Não é o cante alentejano, na senhora ), a coisa é muito mais evoluída…! No Teatro Municipal Pax Júlia, vai ser dado no dia 9, um Concerto de Ano Novo, creio que totalmente com música de Strauss…! E a Radetzky March irá finalizar o espectáculo com aquela alegria contagiante !
    Mas há mais !!! No Coliseu dos Recreios, ( creio que é hoje ) também vai haver música de Strauss, com Valsas e Polkas. E a Radetzky March, penso eu, também vai finalizar o festival de bom gosto e alegria.
    Mas a coisa não fica ainda por aqui…! Pelo que sei, também em Faro, se repetirá outro Concerto de Ano Novo, no mesmo estílo de Viena…!
    Muito seriamente, começo a pensar, que podemos ter a surpresa de ter por cá um desejoso BBC Proms, como o do Royal Albert Hall em Londres, que tanto me encanta…!
    Quem havia de dizer…!

    Liked by 1 person

  2. Também sou ouvinte certo destes concertos de Ano Novo, que aliás gravo para repetições quando estou “de maré”. Não me espanta nunca a qualidade, a cultura, e o bom gosto do autor deste artigo bem visível no escrito. Chapeau!!!

    Liked by 3 people

Deixe um comentário

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s