A propósito do “tempo que passa”

Como é de uso nestes tempos que vivemos, somos nesta altura “inundados” de escolhas sobre o que ocorreu de mais relevante no ano que findou, logo seguidas das previsões, e projecções, para o que aí vem no curto e médio prazo, no País e no Mundo. Nisso se esmeram os jornais e televisões nacionais e internacionais, e naturalmente também as grandes revistas de renome e grande difusão; para além dos mais especializados como, entre outros, o Stratford, o Ramsés e a Foreign Affairs que se debruçam com mais profundidade sobre temas regionais e mundiais.

Como muitos, também tenho frequentado com interesse esses meios, mas agora com menos intensidade e frequência. Primeiro, pela óbvia dificuldade de tempo disponível, mas também pela saturação na repetição, dias seguidos, de notícias e factos que “já foram”; depois, por ser cada vez mais evidente a sua manipulação em artigos de opinião que incomodam quem goste de pensar pela sua cabeça. Quem por dever de função alguma vez se interessou pela Propaganda (vd “Propagandes“, Jacques Ellul, ed Armand Colin, Paris, 1962) e pela Comunicação (vd “La Tyranie de la Communication“, Ignacio Ramonet, ed Galilée, Paris, 1999), percebe bem a que me refiro.

Vivemos hoje tempos de instantaneidade na comunicação. O que não é mau para quem subscreve as notificações sumárias de órgãos de comunicação, e recebe a todo o instante apenas uma curta descrição dos factos acabados de ocorrer. O que perturba, e incomoda, é a constatação do tratamento posterior a que muitas vezes esses factos e situações são sujeitos pelos inúmeros “spin doctors” e gabinetes de comunicação existentes, que criam novos factos que suscitem interesse apelativo, discussão e especulações, apenas para tentarem esconder outros menos agradáveis para o interesse de quem servem.

Com tanta informação disponível, é impossível hoje alguém concentrar-se em acontecimentos e imagens difundidas quase em continuo. Tanto mais que temos hoje a possibilidade de, em qualquer momento, também recordar qualquer evento que no passado nos tenha interessado. Graças à Internet, às redes sociais, e às memórias electrónicas, hoje o passado está sempre disponível para quem o deseje.

Estamos portanto numa época da pressa e do imediato que, em consequência, são tempos em que nos dispersamos facilmente.

Talvez por isso, e porque a idade também vai avançando, às vezes recordamos com prazer pequenas coisas que nos foram acontecendo ao longo da vida, essas memórias involuntárias das “bonnes-heures” assinaladas por Proust, e que mais não são, afinal, que uma recuperação do tempo perdido.

Entre os muitos interesses sempre presentes nas nossas vidas, na minha opinião está na altura de relermos a volumosa obra de Marcel Proust «Em busca do tempo perdido». Cá por mim, vou no segundo volume «À sombra das raparigas em flor»!

Lisboa, 16Jan2018

José Aparício

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