UM ELEFANTE NO ESTÚDIO

Vi na televisão, na 6ª feira passada, coisa que nem sempre acontece, o programa “Expresso da Meia Noite” conduzido e moderado por um jornalista do canal, sobre o magno problema do futebol. Estavam no estúdio, como convidados, um dos chamados “príncipes” do comentário desportivo no país; um antigo árbitro de futebol, agora também convertido em comentador encartado; um professor-investigador com obra feita e escrita sobre os comportamentos das sociedades (incluindo o desportivo) e um “mágico” do “marketing” desportivo com conhecimentos alargados sobre o fenómeno em discussão.

O programa despertou-me a curiosidade de ouvir o que todas aquelas “sumidades” iriam dizer sobre a maior vergonha desportiva que alastrou pelo país. Sabemos que não é só em Portugal que tantos dislates se verificam nesta chamada indústria do futebol (já o referimos em textos anteriores deste blogue) mas ao que se tem assistido, ao longo dos anos na nossa terra, ultrapassa as raias do absurdo e da decência. Considerando e respeitando sempre as devidas exceções,  abundam dirigentes de duvidosa competência e seriedade, obscenas interligações financeiras que permitem as vidas milionárias de clubes tecnicamente falidos, explícitas comunhões de interesses entre a  política e o dirigismo desportivo, instituições tutelares do desporto que discretamente se refugiam em legislações confusas, tolerantes e impraticáveis e que, menos discretamente, aparecem nas ocasiões de sucessos temporários para beneficiarem também dos louvores e dos aplausos do momento. Todas as modalidades desportivas são hoje alvos de redes nacionais e  internacionais que, na obscuridade das leis, movimentam fortunas em transferências, dopagem, apostas ilícitas. Assistimos a  aquisições de clubes falidos  para serem utilizados como plataformas de “lavagem de tudo o que der vantagem aos compradores”.

De tudo isto falaram os notáveis convidados do programa. Exercitaram ainda a deficiente justiça aplicável a casos de desvergonha desportiva mas que, segundo disseram, como o desporto se “auto-regula” as penas tendem a não existir, a serem muito benévolas ou, até, a prescreverem por falta de testemunhos e provas. Um antigo Secretário de Estado do Desporto, que também se juntou ao programa via satélite, disse que, se soubesse o que sabe hoje, não teria, na altura em que desempenhou funções, proposto e conduzido a legislação desportiva no sentido de toda esta autonomia. Não sei se terá razão.  Mas o mais interessante do programa é que todos os intervenientes já atrás mencionados, dando embora mais ênfase às suas áreas de especialidade, concordaram em que tudo isto não tem solução à vista “a menos que se faça qualquer coisa como já se fez noutros países”. Mas, além de saberem mal o que fazer, não acreditam que se faça alguma coisa. Os “poderes” são demasiado fortes para alguém se atrever a mexer nas terríveis teias existentes. A poluição no futebol é tão grande que os próprios dirigentes são, quando bem intencionados, dizimados pela opinião pública, pelos interesses e pelos meios de comunicação existentes.

Ou seja, naquele estúdio estava realmente um enorme “elefante” de quem todos disseram mal mas no qual nem com um dedo tocaram para não se magoarem…  Falaram em antigas tradições das nossas gentes nas suas idas “à bola”, falaram nos tempos em que havia um ou dois jornais desportivos com uma edição semanal (contra os atuais três com edições diárias), falaram no acrescido interesse das marcas em apoiarem os clubes e as provas, ver os seus logos espalhados por toda a parte, mas também no eventual receio de que a obscenidade e indecência reinantes os possam vir a prejudicar.  Falaram, realmente, de tudo isso mas no fim do programa saíram de braço dado com o “elefante”, considerando cumprida a sua missão de alertar,  sem pistas para solucionar.

É uma pena que tenhamos que conviver com este estado de coisas. Eu gosto de futebol, gosto de Desporto, dei boa parte do tempo da minha vida à causa desportiva. Cruzei-me com comportamentos censuráveis mas que, nos âmbitos em que me movimentei, sempre foram de expressão mínima e sempre combatidos.  O Desporto, não tenhamos dúvida, é uma das atividades mais nobres do ser humano. As sociedades mais evoluídas ensinam-no, protegem-no, regulam-no e ampliam-no. Mas nenhuma está incólume aos abastardamentos sociais e às redes com que a globalização nos presenteou. Estejamos atentos, lutemos pelo Desporto Limpo e Decente, pela Ética Desportiva.

NOTA FINAL – No dia em que estou a escrever este texto Portugal está a festejar o facto da equipa nacional de Futsal ser campeã da Europa. Foi mais um momento glorioso para o país e para o Desporto Nacional. Trata-se de uma modalidade  participada por jovens e jogadores semi-profissionais, oriundos de clubes pequenos e pouco conhecidos, onde ainda não campeia o desgoverno mas sim o enorme trabalho de todos eles. Os que já são profissionais a tempo inteiro estão a jogar no estrangeiro. Tive um amigo, dirigente desportivo, infelizmente já falecido, que participou, com grande entusiasmo, na transformação do futebol de salão em futsal.  Já nessa altura (1997/2000) ele me dizia que a modalidade seria muito forte, muito concorrida e muito divulgada. Tinha razão. Hoje, com este título, lembro-me dele e dedico-lhe a minha satisfação. Excelente altura para salvaguardarmos o futuro desta modalidade e do Desporto Português.

3 pensamentos sobre “UM ELEFANTE NO ESTÚDIO

  1. Tudo isto que se passa no desporto revela uma grande miséria moral aliada a muita ganância.
    Não sei bem do que se trata, mas há grandes divergências entre o C.F. Os Belenenses e a respectiva SAD. Será que alguém pretende usar o belo espaço do esádio do Restelo para centro comercial ou apartamentos de luxo ?

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  2. Apreciei muito, a forma como o assunto do futebol actual, foi exposto. Muito sinceramente, pouca atenção tenho dado aos problemas, quase diários, que nos invadem e interrompem a intimidade de nossas casas. Faço-o, por me sentir desconfortável, perante tanta arrogância dos dirigentes e treinadores, que se habituaram a despejar, em público, toda a sua raiva. Das queixas consecutivas de jogadores, influenciados por um protagonismo bacoco, como se nada mais se passasse de importante no país. Mais ainda, por culpa de uma Comunicação Social, sempre a explorar o acontecimento, banalizando, ao ponto de fragmentar a beleza de uma competição sadia, onde muitos adeptos, pacificamente, gostariam de levar os seus filhos pequenos, em segurança. Não poderei dizer, que a minha abstração sobre o futebol, tenha sido de sempre…! Mas poderei dizer que já vem de longe, talvez desde os meus tempos de jovem, depois de deixar de ver a Académica, no velho Campo de Santa Cruz, em Coimbra. Desinteresse por outros clubes ? Nem sempre assim, mas sempre fiel a um desporto que imaginei de pureza desportiva, com um ou outro ídolo a despertar-nos a admiração. Infelizmente, verificamos que tudo se encontra mergulhado num tremendo charco, onde já não cabem mais pedras…!

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  3. Li com muita atenção o teu artigo. De acordo com tudo o que afirmaste, fico com um enorme desgosto em não te poder ajudar mais: é que tenho a consciência que não sei expor o que me vai na cabeça! Pelo que escreveste, um grande obrigado !

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