FUI AO NORTE

 

Como sabem,  sou lisboeta de nascença e algarvio por afetos. Conheço, no entanto, razoavelmente bem o nosso país, a vida  facultou-me a possibilidade de ir e estar em muitas terras e regiões que passei a admirar, juntamente com algumas das suas gentes. Percorrer Portugal é sempre um excelente pretexto para variar de ambientes, de costumes, de gastronomias, de paisagens e revisitar a história.  Claro que a idade nos vai dando uma preocupante inércia,  para a qual nos desculpamos com maravilhosas justificações. Sempre discutíveis, mas compreensíveis. Estamos na fase do “já fomos” ou do “já conhecemos”. Por isso, às vezes, é bom que nos desafiem, nos sequestrem e nos acompanhem a sítios que conhecemos pior mas que sempre nos surpreendem. Foi o que me aconteceu recentemente: fui ao norte.

Passando, evidentemente, pelos locais tradicionais como Porto e Gaia, onde houve muito para rever e recapitular, acabei por aproveitar e fazer uma revisão de geografia e história dos meus tempos de liceu. Para muitos, aquilo que vou contar, será perfeitamente banal e já bem conhecido. Para mim foram novidades que não resisto relatar. Num dos percursos realizados encontrámos um rio de seu nome Varosa. Alto, o que é isto? –  interroguei-me. No meu tempo estudávamos os rios e os seus afluentes mas este nome confesso que não sabia. Trata-se de um afluente do Douro, que nasce na Várzea da Serra, concelho de Tarouca e que se junta ao Douro (na sua margem esquerda),  no lugar de Varais, freguesia de Cambres, em frente a Peso da Régua. O especial desta descoberta foi ela ter-se passado junto a uma ponte e torre antiquíssimas, a Ponte e a Torre de Ucanha, no concelho de Tarouca, claro. A ponte foi construida no século XII e a Torre em 1465,  para proteger as passagens e receber os pagamentos  de quem queria vender produtos de um ou outro lado do rio. Já havia portagens…ponte ucanha

A nossa visita foi tão inopinada que, quando chegámos a meio da ponte, uma residente, já idosa. aproximou-se de nós e meteu conversa. Contou-nos tudo, onde vivia, na margem da torre; a irmã e a sobrinha  viviam na outra margem e que, por sinal, ela tinha ido visitar nesse dia,  porque a sobrinha estava doente. Uma conversa deliciosa, fraterna, sinal da bondade daquela gente. Dali fomos  visitar o Mosteiro de São João de Tarouca onde apanhei mais uma lição de História, daquelas que não me lembro da escola. No Mosteiro, não muito grande mas lindíssimo, encontrámos o túmulo, enorme, de Pedro Afonso, 3º Conde de Barcelos, filho natural de D. Diniz.  Afastado das descendências reais foi poeta e trovador e, depois de muito viajar, passou a viver em Lalim, não longe de Tarouca, onde criou um importante centro cultural. Compilou cantigas de trovadores galegos e portugueses, escreveu uma longa obra poética e foi considerado o primeiro historiador do nosso reino.

Mas o que talvez mais me tenha encantado foi a imagem de uma Nossa Senhora, descoberta há muitos anos, no meio de escombros  de outras zonas do Mosteiro, e identificada como peça do século XIV. Ninguém sabia que Nossa Senhora era mas o povo, como ela tinha uma laranja numa das mãos, passou a chamar-lhe Nossa Senhora da Laranja e é assim conhecida.N.S. Laranja

Tudo isto nos foi contado por uma guia do Mosteiro que, sempre amável, nos dizia: “Se precisarem de alguma explicação é só dizerem”. Mas não era preciso perguntarmos nada: ela encarregava-se de interpretar as nossas caras de ignorantes e, rapidamente, contar-nos toda a História que por ali se derramava. Outra simpatia que ficámos a conhecer na região.

Vocês sabiam estas coisas todas? Eu, francamente, não. Mas gostei de ficar a saber. E muitas outras  fui encontrando pelos caminhos e nas terras. Não posso deixar de referir, em especial, uma visita às caves Cockburn de vinho do Porto, que toda a gente conhecerá mas onde eu não tinha ainda ido. Não fiquei indiferente aos longos quilómetros de serra e árvores queimadas que nos abafam a alma. Infelizmente são poucos os culpados de fogo posto que têm sido identificados…

Desculpem o texto de hoje que mais parece uma redação das que tínhamos que fazer na escola,  mas que me foi muito gratificante. Por isso não resisti a dizer-vos que “Fui ao Norte” e a recomendar-vos que façam estes percursos (para quem não os conheça, claro). Para além da espantosa gastronomia da região talvez consigam trazer de lá mais um caldinho de cultura, que sempre ajuda…

3 pensamentos sobre “FUI AO NORTE

  1. Eu tambem gosto imenso de dar passeios pelo Noroeste e pelo Nordeste . Os dois últimos em que participei foram a uma parte da rota do Românico ( Amarante, Penafiel, Travanca, Tormes ) e a Régua, Arede, Resende, S. Maria de Cárquere. Come-se bem e com um bom guia ficamos aconhecer lendas e historias maravilhosas

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  2. Como sabes, vivi no Norte muitos anos (Viseu, Lamego, Braga…) e conheço bem a região que te encantou. O vale do Varosa é de facto cheio de interesse histórico e de grandes paisagens. E, já que referiste a passagem pelas caves do vinho do Porto: não paraste nas caves da Murganheira? Têm belíssimos vinhos e espumantes!

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