O MUNDO EM QUE VIVEMOS

Um dos últimos textos deste blogue, escrito pelo José Aparício, abordou, como se lembrarão e poderão recapitular, o tema das guerras, especialmente a guerra na Siria, e a insanidade aparentemente reinante no mundo de hoje. Nada mais verdadeiro e tão exemplarmente documentado. Continuei desperto para aquele tema, não só pela realidade que descreve mas também pelos acontecimentos que, diariamente, sem interrupção, o vão corroborando.

Decidi voltar ao tema pegando na frase com que o JA termina o seu texto: “Está perigoso o mundo em que vivemos!” É verdade, o nosso mundo está perigoso. E está perigoso porque se mantém desigual, em abismos sociológicos, em bizarrias de costumes, em fanatismos religiosos, em deslumbramentos de poder, em tentações inextermináveis de superar as convenções e ludibriar as instituições  e os nossos semelhantes, em recorrer a tudo, mesmo que ilegal, para obter objetivos inconfessáveis.

Percamos um pouco de tempo e recapitulemos algumas notícias que nos chegam diariamente, comprovadamente verdadeiras. Não falo no crime hediondo, mas tão inserido na sociedade atual,  que é o derrame de notícias falsas, forjadas, assassinas, nas chamadas redes sociais. Abordemos apenas algumas das que são confirmadas e analisadas.

  • A tragédia da mutilação genital persiste em diversos países e regiões, sob a égide de uma convicção religiosa, que desdenha as mulheres subalternizando-as, escravizando-as, matando-as. Os movimentos sociais em países europeus e americanos têm vindo a desenvolver campanhas de denúncia, de luta, de apelo às autoridades mundiais. Com que resultados? Nenhuns.
  • No grande “império” da China assistimos a um habilidosíssimo amigo do ocidente, o Presidente Xi,  ser consagrado pelo Partido Comunista Chinês como dirigente sem limite de mandatos. Os seus pensamentos e decisões passarão a fazer parte dos códigos de procedimentos do Partido e da Constituição do Estado. “Xi forever?” Será bom para o relacionamento internacional? O jogo das economias globais já deu os seus alertas mas parece que a regra adotada foi a de esperar: “Wait and see”.
  • O homem da Coreia do Norte aproveitou os Jogos Olímpicos de Inverno, mandou a irmã em sua representação e conseguiu falar com os vizinhos do sul e, melhor ainda, conseguiu acordar uma reunião com Donald Trump. Este e os seus sequazes já disseram que sim ao encontro mas, claro, nem pensar em diminuir, para já, as sanções em vigor. Mas o certo é que o Grande Chefe do Norte conseguiu a reunião mantendo, aparentemente, a sua legitimidade institucional. Resultará? Não se sabe, ninguém sabe, mas a coisa vai levar tempo a desenrolar-se e isso permite às partes o tal “Wait and see”. Não nos esqueçamos que a Guerra da Coreia foi interrompida com um armistício, há 53 anos, sem nunca ter sido assinado um acordo de paz. Talvez fosse altura de começar por aí.
  • O regime militar da Tailândia adiou as eleições (para repor o regime democrático) de Novembro de 2018 para Fevereiro de 2019. Será verdade? Alguém se importou muito com isso? Não. Logo se vê.
  • Donald Trump apelou a fortes medidas de controle de armas para evitar os descalabros sucessivos causados pelos  cidadãos americanos. Alguém acredita? Então e os amigos dele que fabricam as armas o que dizem? Nada, porque sabem que fica tudo na mesma.
  • O Presidente Temer do Brasil decretou a intervenção militar federal no Estado do Rio, tais as proporções de rebelião e desgoverno que ali se vive. Não esqueçamos que, entretanto, foi absolvido das acusações de corrupção de que era alvo. Ele e todos os outros que, como ele, têm participado em tudo o que é “lixo de tapete”. Alguns estão na prisão, e não são poucos, mais ainda faltam muitos.
  • O caso da Venezuela é inenarrável. Um presidente incompetente e louco conseguiu levar um país riquíssimo à falência absoluta. E alguém está a fazer alguma coisa? Diplomaticamente e de acordo com insinuações de Serviços Secretos parece que sim. Mas na prática, nada. Quantos venezuelanos já fugiram e já morreram? Está todo o mundo à espera não se sabe bem de quê. Umas décadas atrás havia os golpes de estado militares…
  • A guerra na Síria, como disse o J. Aparício no seu excelente texto , é um calvário para a humanidade. Ou como diz António Guterres, “É o inferno na terra”. No último relatório apresentado por uma comissão independente de observadores e técnicos especialistas diz-se que “a culpa é de todos os intervenientes”. Sem exceções. Mas, evidentemente, todos apresentam os seus  melhores argumentos para justificar o inferno e se livrarem dele. Claro, os vizinhos estão atentos e o petróleo é muito…
  • E os “Rohingya” , minoria étnica de Myanmar, que estão ser expulsos da sua terra em direção ao Bangladesh? Embora em inexplicáveis abrigos temporários acabam, muitos deles , por morrer com doenças ou por serem simplesmente eliminados. Naturais de um país que, por viverem uma crença religiosa minoritária , são pura e simplesmente expulsos e incriminados de guerra subversiva. Desde agosto que fugiram ou foram abatidos cerca de 700 mil e a Nobel da Paz, Aung San Suu Kyi, eleita democraticamente pelo povo,  confessa não poder travar esta loucura que os militares que detêm o poder têm vindo a praticar. Os noticiários são muitos, as Nações Unidas já se pronunciaram mas qual o resultado? Nenhum.
  • E a nossa vizinha Itália que saiu de umas eleições gerais sem conclusões à vista?Dizem que os partidos tradicionais perderam a sua razão de ser, pelo que os votos se repartiram por novos partidos (ou associações de interesses) que são incompatíveis, desordenados e combativos no pior sentido. A maioria deles olha de esguelha para a Europa e a Europa, perplexa e atabalhoada, não encontra a fórmula de se reformular para poder ir ao encontro das legítimas aspirações e expectativas dos cidadãos europeus. De todos. Os problemas da Hungria, da Polónia, da Áustria, dos países do Báltico, para não falar no já cansativo e inconsequente Brexit, estão por resolver, sem solução integrada e inteligente à vista. O problema dos refugiados vai avançando,  embora com travagens ideológicas de alguns dos países membros. Se nos lembrarmos que a Itália é um dos membros fundadores da União Europeia, ficamos preocupados. Não, propriamente com a Itália,  porque pode passar anos sem governo eleito (como já nos provou muitas vezes, a máquina administrativa resolve tudo) mas com a Europa na qual estamos envolvidos e da qual muito dependemos.

Será este o mudo em que desejaríamos viver? Claro que se trata de uma meia dúzia de casos, importantes todos eles, mas que, indiretamente, muito nos afetam. As nossas atenções são, no entanto, desviadas, diariamente, para os escândalos, trapalhadas, “vigarices de meia-tijela” (desculpem os termos) com que alguns dos nossos famosos locais se entretêm a enganar os seus concidadãos. Mas acho que estes já perceberam tudo e não se deixam enganar. E têm, valha-nos isso, a arte do humor, destruindo com umas graças as aleivosias alheias. Mas isto não chega. É preciso que as instâncias da justiça tenham a capacidade e independência de, com a rapidez possível, punir o que houver a punir e a absolver o que for de absolver.

Porque, todos sabemos, o mundo não é só aquilo. Há coisas maravilhosas para ver, para ouvir, para aprender, para nos deleitarmos com tudo o que de bom o mundo continua a ter para nos dar. É indispensável que continuemos a viver com solidariedade e decência. Como diz o nosso povo, sempre sábio, “isto é como pregar no deserto”! Talvez seja, mas não devemos desistir. O meu próximo texto será, garanto-vos, muito mais amável e bem disposto.

Um pensamento sobre “O MUNDO EM QUE VIVEMOS

  1. De facto, a paisagem mundial não se apresenta nas melhores formas. Há sempre sítios explosivos, que nos preocupam ou ferem a nossa sensibilidade humana. Também o mundo de hoje se tornou uma aldeia gigante, brotando notícias a toda a hora, numa cadência infernal, desassossegando os nossos espíritos. Penso por vezes, que viver a ignorância de outros tempos, seria talvez hoje, um pequeno luxo de espírito, embora não consiga desligar-me da ideia de ver um certo passado a preto e branco. Quer parecer-me, no entanto, ter havido melhores sinais de filantropia, do que na presente globalização, onde todos deveriam sentir-se livres e respeitados.
    ” Malgré cela “, temos todos os dias um horizonte, que mal ou bem, nos vai alimentando a esperança…!

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