ABRIL

De entre alguns temas que vou armazenando  para publicação em  diferentes oportunidades apeteceu-me hoje escrever sobre Abril. Nada de novo, portanto, mas não deixa de ser um tema que para nós, portugueses, sempre nos tem vindo a acompanhar. Segundo o recente acordo ortográfico, que tanta gente se recusa a utilizar,  os meses já não se  escrevem com iniciais maiúsculas. Deveria ser, portanto, abril e não Abril como escrevi atrás. Mas confesso que esse tal acordo também me irrita um bocado. Lei é lei e, portanto, deve ser cumprida. Mas sempre tive a noção de que este acordo importava mais novidades do que exportava realidades. Durante a minha vida já passei por mudanças ortográficas (creio que por três vezes) e devo dizer que sempre as acompanhei com facilidade e compreensão. Mas desta vez (será a idade?…) irrita-me ter que escrever “ata” para o relato de uma reunião e “ata” para fazer um nó no sapato. Poderia dar muitos outros exemplos que já todos conhecem mas assumo que sou um cumpridor desrespeitoso e lá vou escrevendo umas coisas à moderna e outras à antiga. Está errado, eu sei, mas gosto mais de escrever os nomes dos meses com iniciais maiúsculas. E principalmente, como é agora o caso,  o de Abril.  E como me podem criticar sem me levar preso, vou infringindo as regras da pureza “malcatiana” (aqui o Malcata leva letra pequena que é para aprender). Há também os famosos que escrevem livros e artigos à antiga e que, no fim dos textos, dizem que não reconhecem o tal acordo. Enfim, desmandos com que nos vamos entretendo com a garantia de que esta transgressão não nos levará à prisão.

Mas voltemos ao Abril porque essa é a razão do texto de hoje. Reparei recentemente que grande número de amigos e familiares meus fazem anos em Abril. Contei-os, por alto, e são mais de duas dúzias. Curioso… E recuando no tempo, contando pelos  dedos, verifica-se que nove meses antes, o tal milagre da concepção (cá vai outro erro que o computador preferiu não corrigir) terá ocorrido por volta de Agosto. Dizia-se que era mês de férias, que havia mais tempo para pensar nestes assuntos e por isso o “pessoal” aparecia em Abril. Pelo menos, dantes isto era assim. Agora com as modernices da IA (Inteligência Artificial) talvez seja de outras maneiras. Já deve haver robôs (cá vai outra que eu não gosto) que simplificam as coisas. Se calhar mesmo sem a presença, antigamente indispensável, de dois parceiros de sexos diferentes. Mas o certo é que conheço muita gente nascida em Abril,  em resultado dos métodos utilizados no século passado.

Abril, para nós, faz-nos lembrar “Águas Mil” (o que este ano é verdade) e o “Abril em Portugal” que não é mais do que uma reencarnação da famosa melodia “Coimbra”. Abril pertence ao signo do Aries que vai de 21 de Março até 19 de Abril (de 19 de Abril até final do mês passa a vigorar o signo do Touro). Segundo os sábios  do Zodíaco os nascidos em Abril são corajosos, determinados, confiantes, entusiasmados, otimistas, honestos e passionais. Todos os que conheço nascidos em Abril são gente amável e gente de bem. Descendentes ou antecedentes meus, muito próximos, fizeram ou fazem anos em Abril, portanto esta ideia de bonomia e temperança que aqui expresso tem justificação.

Mas em Abril nasceram também Leonardo da Vinci, Adolfo Hitler, William Shakespeare. E haveria muitos mais a referir. Mas estes já servem para nos relembrar que as certezas de Zodíaco se expressam de formas muito diferentes.

Antecipei este pequeno texto sobre Abril antes que os meios de comunicação social se encharquem de prosas, poemas, declarações, pronunciamentos e declarações sobre o nosso Abril, o 25 de Abril. Faço-o para tentar ir ao encontro da imensa e simpática juventude portuguesa e suscitar-lhe o interesse de estudar, com cuidado, o que se passou a 25 de Abril de 1974.  Acreditem que há muitos deles que não sabem bem… Uns por desinteresse mas, grande parte deles, porque a família, os que viveram o 25 de Abril, não lhes contam todas as peripécias da história. Muitos deles, aliás, preferem nem falar nisso porque lhes causa mau estar, lhes desperta saudades bolorentas e lhes recordam símbolos de vidas que tiveram. Porque, na tolerância daqueles tempos de 74, a maior parte deles ficou toda por cá. Estão cá e não se privam de dizimar tudo o que se conseguiu fazer após 1974. Uns disfarçam melhor que outros, fizeram um “aggiornamento” doloroso mas sem conseguir ocultar a irritação que lhes causa a abordagem do tema. Temos todos que nos compreender mas lembrar-lhes que aquelas irritações e o poderem dizer que não estão de acordo com o novo sistema é uma vantagem de viver em liberdade e de, como referi acima com a transgressão ortográfica, não serão presos por isso. Mesmo que escrevam o abril com “a” pequeno.

Viver com liberdade de pensamentos e meios é, no entanto, uma enorme responsabilidade. Porque exige comportamentos, exige perceber os direitos em confronto com os deveres, exige, enfim, um melhor grau cultural e educacional que, aos poucos e de forma progressiva, tem vindo a ocorrer. Talvez sem a rapidez que todos desejaríamos mas, sem dúvida, com progressos notáveis. Lembro-me, pouco tempo a seguir ao 25 de Abril de 1974, de alguém conhecido me perguntar: “Mas será que agora um filho de um canalizador poderá estudar para ser doutor?” A minha perplexidade foi tanta que me limitei a dizer: “Sim, claro!…” Felizmente que hoje já ninguém faz perguntas dessas,  mas muitos dos que foram  capazes de as fazer na altura ainda andam por aí.  E são os filhos, em muitos casos,  que os ajudam a superar-se e a compreender a nova realidade. Uma realidade  nova de 44 anos que cometeu erros e se transviou, por vezes, com lamentáveis enganos mas que nos permite afrontar, com dignidade e de igual para igual, gente de outros países e de outras latitudes. Claro que quando tomamos conhecimento dos desmandos e das gravíssimas infracções cometidas por gente com responsabilidades, ficamos arrepiados com tudo o que a liberdade permite. Aos mal formados, claro, à gente ignóbil que se aproveitou desta liberdade que tanto nos custou a conquistar. Mas existe a Justiça que deverá corrigir as provocações e as acções de quem, dir-se-ia, não merece e se calhar não desejaria viver com esta liberdade. Esta justiça que, envolvida nas teias dos seus próprios labirintos, se nos torna tão criticável com os seus atrasos, as suas disparidades, a sua por vezes incompreensível falta de oportunidade. Mas aí contamos com a sua maior desenvoltura, completa equidade como, aliás, tem vindo, paulatinamente a suceder.

Deixem-me terminar este pequeno texto com o desejo veemente de que toda a nossa juventude possa fazer uma comparação serena entre as realidades vividas por pais e avós e a realidade de que desfrutam hoje. Que se identifiquem, com cuidado, das grandes alterações  geradas por aquela “revolução”, nas suas virtudes e nos seus desmandos. Porque não há mudança social que possa evitar essas duas facetas. As tecnologias, em permanente desenvolvimento,  vieram demonstrar que os “meios” são cada vez mais “inspiradores” de toda a gama de vilanias e atropelos que têm vindo a ser utilizados. Só a boa formação e a educação dos jovens poderá estabilizar os novos hábitos de vida. Em louvor ao nosso 25 de Abril de 1974. E agora vamos esperar, calmamente mas com inteligência, tudo o que vai ser dito, escrito e divulgado através da comunicação social nas próximas semanas.

2 pensamentos sobre “ABRIL

  1. Depois de ler esta crónica, por sinal muito interessante, fiquei um bocado pensativo…! Sou do signo de um antipático escorpião, que além de gostar de água, também se esforça por ser amável e de bem, adaptando-se muito bem às águas mil, de uma Primavera que nunca mais se mostra na sua maior beleza. Não pretendendo fazer comparações, parece-me que Outubro, também foi para Portugal, um mês de grandes modificações na vida da maioria dos portugueses, ao ponto de se atribuir um nome a uma das mais bonitas avenidas de Lisboa. Um nome, que de nada serviu para manter viva a efeméride e enaltecer os benefícios de uma democracia que daria a oportunidade a todos os portugueses de viverem com a dignidade e o respeito merecidos. A doutrinação ou a consciencialização, falhou ! Ainda hoje se vêm os vestígios de uma sociedade que não se modifica facilmente. Somos assim, um povo que se adapta lentamente, sem levantar poeiras, no recato dos seus interesses e hábitos ancestrais. E tanto mais lentamente se modificará, quantos mais disparates se fizerem…!
    Mas, apesar de todos os erros de governação e de justiça, desde este quase meio século após o 25 de Abril, a quem percorra este país, deparar-se-há um Portugal diferente, bem mais vivo, mais alegre e colorido. Um Portugal, que não tem nada a haver com o que se passa na maior parte das discussões estéreis do Parlamento…!

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