A ÉPOCA DOS HOMENS FORTES

Escrevi no dia 4/5/18 um texto neste blogue com o título A Democracia Está Em Perigo? que sei ter causado alguma perturbação em alguns dos que amavelmente nos acompanham. Alguns comentaram, veementemente e bem, que acreditam na democracia e que com ela todas as dificuldades serão vencidas. Penso da mesma maneira, como se depreende do já citado texto e cuja releitura recomendo. O problema é que o mundo se deixou arrastar, em muitos casos de forma culturalmente civilizada, para situações de autocracia e populismo que não são fáceis de ultrapassar.

Dizia no texto de 4 de Maio que “muitos sistemas atuais concretizaram a centralização do poder executivo, a politização judiciária, os ataques à independência dos “media”, o uso do poder público em benefício próprio.” E os exemplos destes factos são muitos em todo o mundo. E, como diz o escritor e estudioso Ian Bremmer, num dos seus artigos de opinião na Time, poderemos estar numa “Época dos Homens Fortes”. Tanto nos Estados Unidos como em todas as regiões do globo atravessam-se períodos de fortes mudanças sociais, ansiedade económica, crime urbano e guerras aparentemente inexplicáveis que estimularam o aparecimento de lideranças mais musculadas e assertivas.  Os populistas prometem defender-nos “deles”, envolvendo nesta designação de “eles” aquilo que se considera os males do mundo atual: as elites corruptas, o aumento da pobreza, os refugiados, as minorias raciais, étnicas ou religiosas.

E aparecem os “czares” tipo Putin que propõe a restauração da Russia depois de ter deixado de ser o centro de um império com três séculos de existência. E o certo é que os desmandos que tem praticado nas suas vizinhanças estratégicas, como na Ucrânia e Médio Oriente, têm ficado incólumes e sem resposta política adequada por parte da Europa ou Nações Unidas.

O atual homem forte da China, Xi Jinping, pôs termo a intervenções de rebelião (como as de Tiananmem) e propôs uma enorme campanha anti-corrupção, consolidando o seu poder de forma quase definitiva e histórica. As suas decisões podem ser incluidas, presentemente, na Constituição Chinesa.

Nas Filipinas o crime diário de rua levou ao poder o presidente Rodrigo Duterte, antigo chefe de Quadrilhas, com a promessa de eliminar o tráfico de droga. Executando todos os intervenientes, claro.  Na Tailândia o General PrayuthChan-ocha mantem-se no poder desde 2014 sem qualquer indicação de que pense em largar o poder. Sabemos a loucura que campeia na Venezuela com Nicolás Maduro sem que haja qualquer possibilidade de intervenção efetiva.

Falando do Médio Oriente poderemos referir os casos da Arábia Saudita, do Egito e, de forma notável, da Turquia. Este país, que pertence à NATO, seria, em princípio, um forte e útil candidato à integração europeia, mas a estratégia de Erdogan não é essa. E nunca foi. O seu poder é hoje indiscutível e, diga-se em abono da verdade, há uma grande parte da população que o defende e a paz monocórdica que ele representa.

Bom, podemos sempre falar do nosso “amigo” Trump que foi eleito da maneira que se sabe e tem vindo a demonstrar a sua total falta de preparação para a política convencional. Porque ele tem uma outra política que, no fundo, agrada a muitos ouvidos americanos. Toda aquela gente desprotegida pelos partidos tradicionais que se deixaram embalar e seduzir pelas cantatas financeiras do maravilhoso liberalismo económico. O pior foram as crises que têm assolado todo o nosso mundo que, em conjunto com uma revolução tecnológica de que sempre falaram  mas para a qual não se prepararam, os empurrou para situações de desespero e instabilidade social.  A partir daí não é difícil dar ouvidos a quem lhes promete “mudar o sistema” e resgatá-los do torniquete social e político em que se encontram. Basta olharmos para a Europa onde vivemos e acompanhar as “tomadas de poder” autocrático em curso, na Hungria, na Polónia, na Áustria, ou nos assomos de populismo em confronto com os desesperados partidos convencionais, como se passa em Espanha, em Itália e, porque não dizê-lo, também em Portugal.

Sim, a democracia está em perigo, pelo menos com o figurino que sempre lhe atribuimos. Se a época dos “Homens Fortes” continuar, se as autocracias continuarem a impor-se, é bom que, quanto antes , o voto livre das mulheres e dos homens se possa expressar de maneira livre e absoluta. Se,  com esse voto,  vierem a ganhar partidos menos convencionais para os nossos hábitos políticos não poderemos impedir que governem e assumam, depois, os votos dos que se deram bem ou mal com as sua práticas governativas. Isso já aconteceu e a democracia superou essas dificuldades.

Estes exemplos autocráticos e as regras de poder a que aspiram chegam cedo ao seio de pequenos caciques que, a nível de  grupos ou agremiações mais representativas, adotam os mesmos processos de concentração de poder sem que se lhes consiga resistir no curto prazo. Só a tal democracia os poderá anular. Por isso todos devemos estar muito atentos. A pobreza, a instabilidade social, a desumanização dos meios são terrenos férteis para o aparecimento e solidificação destes “homens fortes”.

Que nos trará esta “Época dos Homens Fortes”? O que sabemos é que alguns deles chegaram ao poder pelo voto popular. Como o Hitler, lembram-se? Apesar de tudo exija-se a democracia, a livre expressão popular, porque não é frequente que ela se engane vezes seguidas. Defender a democracia é um trabalho de todos os dias.

3 pensamentos sobre “A ÉPOCA DOS HOMENS FORTES

  1. Não me recordo de nenhum político dos tempos modernos, que não tivesse usado a Democracia para a sua própria ascensão ao poder. Hoje, mais do que nunca, verifica-se que a liberdade plena em que temos vivido, é usada pela demagogia e pelo excesso de promessas não cumpridas. Alguém disse, que a Democracia, conquista-se todos os dias…!

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  2. A Democracia, sem iluminados ou seres providenciais ou homens fortes, tem de ser defendida todos os dias. Infelizmente os meios de comunicação social sempre que podem dão relevo a escândalos a ou
    a comportamentos menos próprios de um outro político, dum ou outro empresário. Mas não devemos deixar de realçar que esses maus comportamentos são um infinitésimo em relação aos bons comportamentos. Tristemente, o público tem apetite pelos escândalos – e as acções persistentemente correctas da grande maioria dos actores não vende jornais

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