Esta coisa da Democracia…

 

Será que o mundo está realmente a mudar? Esta coisa da democracia anda realmente a preocupar-me. Sou por ela, claro, e por isso alguns recentes acontecimentos obrigam-nos a refletir. Já nos dias 4/5 e 7/6 escrevi neste blogue textos sobre o assunto. O primeiro com o título de “A democracia está em perigo?” e o segundo com o de “A época dos homens fortes”.  Talvez pareça mania mas acho que o assunto merece toda a atenção e discussão por parte de quem puder debater, com propriedade, estes assuntos. Como já se tinha previsto o Presidente Erdogan da Turquia foi reeleito com maioria suficiente para o desempenho do cargo de Presidente sem Primeiro Ministro . Passa a dispor de todos os poderes no seu país: legislativo, parlamentar, constitucional e judicial. É, de facto, o regresso do Grande Sultão,  parte da história sempre relembrada por aquelas zonas do globo. E ganhou este estatuto pelo voto popular. Claro que a oposição evocou atitudes de popularismo, de ameaças públicas, de abusos de poder da parte de Erdogan, mas o certo é que acabou por reconhecer os resultados eleitorais e remeter-se à sua reduzida força parlamentar. Aparentemente a democracia funcionou legitimando uma ditadura constitucional.

Esta semana, em Bruxelas, os consevadores britânicos votaram contra a abertura de um processo sancionatório, por parte da união Europeia, contra a Hungria por violações das leis do direito,  consignadas pelo primeiro ministro Viktor Orbán. Primeiro ministro que foi reeleito em Abril, pelo voto popular, para um terceiro mandato. A democracia também funcionou neste caso. Os cidadãos húngaros escolheram um governo praticamente totalitário que recusa refugiados e se propõe a diversos procedimentos autoritários que divergem das causas e valores europeus a que a Hungria aderiu. Claro que a Hungria não perdeu os seus direitos de voto na União mas a iniciativa de abertura de um processo não deixa de ser significativo. Os conservadores britânicos alegaram que o seu voto foi no sentido da não interferência nas políticas domésticas dos diferentes países. Pois é!  Mas o espírito e as leis da União não foram concebidos para sustentar o autoritarismo dos países. Certo ou errado o projeto de sanções será de novo apresentado ao Parlamento Europeu em Setembro.

Sabemos como a Polónia e, mais recentemente, a Itália estão a ser governados, por partidos e dirigentes que, há alguns anos, não se pensaria que chegassem ao poder. Para não falarmos, de novo, nos Estados Unidos onde o senhor Trump continua a cometer os mais notáveis desvarios com apoios ainda apreciáveis mas com gente do seu próprio partido a manifestar uma grande preocupação e incómodo generalizado.

Estamos em presença de casos onde o sistema democrático funcionou, pelo menos aparentemente, onde os votos populares foram contabilizados e as escolhas foram feitas. Grande parte do mundo interroga-se sobre estas opções. Por meio do voto os países começam a escolher sistemas de governação que, a médio ou longo prazo, os conduzirão a encruzilhadas muito complexas no que respeita à sua própria liberdade e à consolidação da solidariedade internacional.

Com tantos exemplos históricos de ditadores que foram eleitos democraticamente é altura de os responsáveis internacionais se pronunciarem sobre o assunto. O nosso sistema democrático está certo ou alguma coisa tem de ser mudada? Por mim está bem assim, para muitos está bem assim mas olhamos à volta procurando os tais estadistas que possam explicar ao mundo estas coisas tão simples. Mas é aí que está a dificuldade. A globalização e as pulverizações internacionais são tão alargadas que a obtenção de consensos se torna cada vez mais difícil. Esta coisa da democracia é, realmente, complicada.  Como dizem os homens do mar, como nas marés, “Há mar e mar, há ir e voltar”. Esperemos pelas próximas marés.

 

 

 

4 pensamentos sobre “Esta coisa da Democracia…

  1. CAROS AMIGOS
    Cumprimentos por 2 óptimos textos.
    No que respeita à tendência para regimes autoritários nos países do leste da Europa, o meu comentário simplista é o seguinte : ao longo da história nunca tiveram a Democracia; recentemente experimentaram-na durante breves anos – e NÃO SE ADAPTARAM. Por isso voltaram aos regimes autoritários ! Dizem que os povos têm os governos que merecem e se calhar é verdade
    Quanto ao voto dos britânicos contra a abertura dum processo contra o pro-ditador Orban,isso fez-me lembrar o acordo de Munique que em 1939 o PM britânico Chamberlan assinou com Adolfo Hitler, convencido de que estava a salvar a paz

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  2. É verdade…! A democracia, também tem o seu calcanhar de Aquiles. Ou, toda ela, é um calcanhar apetecível, onde os ditadores fazem as sua pontarias, no sentido de paralisar o desenvolvimento dos povos. As democracias, como é sabido, só podem ser fortes com o desenvolvimento da cultura, da educação, do sentido da responsabilidade e dever, o respeito pelo seu semelhante, não esquecendo nunca a liberdade de opinião e religião, e muito mais ainda, a dignidade, a justiça e o direito à diferença…!
    É pedir muito ? Penso, que não é pedir muito, mas sim o suficiente para que a paz sobreviva.
    E foi com estes pensamentos, que a União Europeia começou a cativar o apoio de há muito sonhado por tantos europeus, embora sabendo-se que a coisa não era fácil…! E a verdade, é que nestes últimos tempos, os escolhos começaram a tornar-se visíveis, com a descida de uma maré que pôs em perigo a navegação, tida em velocidade de cruzeiro…!
    Uma Turquia, sentindo-se várias vezes vexada, por uma Europa superior, talvez receosa de uma moderna interpretação do Cavalo de Troia, que por sua vez, levou os turcos a unirem-se numa hipotética idéia, ainda vaga, de um novo Império Otomano.
    De países, que se sentem incomodados, pensando nas perturbações futuras, pela integração de povos de diferentes culturas e hábitos, incluindo a cor da pele.
    Bom! Ninguém é racista, mas lembro-me bem daquela história, em que alguém dizia que nada tinha contra as raças, mas que ver a filha casada com um preto, era impensável…! Talvez os Hungaros, os Austríacos, os Tchecos e os Polacos, e sabe-se lá quantos mais, não estarão a basear-se neste tipo de racismo, porque nunca se misturaram com eles ?
    A América, aquele país das liberdades e das interajudas, com distribuição dos excedentes alimentares por todo o Mundo pobre do pos guerra, fazia-nos esquecer a rudeza de vida, que fabulosos escritores, como John Steinbeck, nos demonstrava, na época da recessão americana, em As Vinhas da Ira. Outros, como William Faulkner e Tennessee Williams, e ainda a superioridade de Ernest Hemingway, um exemplo de força e coragem americana. A America, era assim ! Mesmo com todas as suas dificuldades e desigualdades, ela influênciava todos os outros povos, que viam nela um exemplo de liberdade e progresso. Não era só a Europa, mas também a Ásia e a America Latina, sempre tão atenta e admiradora do seu modernismo. Hollywood, com os seus filmes, ajudava a divulgação de todo aquele desenvolvimento , deixando os povos sonhar com o Eldorado americano, mesmo que a tolerância racial fosse inexistente.
    A Europa multicultural, consciencializou-se das suas próprias capacidades, tomando o seu próprio rumo, numa experiência politica mais tolerante e aberta. Tudo caminhava bem, começando a tomar corpo, até que aquela maldita nódoa caiu no melhor pano. Esqueceu-se de que tem culpas, pela forma como descolonizou, abandonando os seus povos à mercê de novos pequenos ditadores, orientados por outros poderes…!
    Também na Europa, possivelmente, nem todos se sintam na obrigação de aceitarem refugiados e imigrantes, por não se reconhecerem responsáveis por todo este desiderato, porque nunca foram colonizadores.
    Talvez, a solução, esteja na reposição da leglidade democrática e ajudas financeiras a esses países africanos em convulsão, permitindo o regresso pacífico dos povos às suas casas, onde de certeza, se sentirão bem mais felizes, do que andarem aos empurrões entre povos estranhos…!

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