INFORMAÇÃO REGIONAL

Não é de agora. Desde há uns anos que a comunicação social escrita (vulgo, os jornais) tem vindo a conhecer, em todo o mundo, uma terrível crise de audiências e, portanto, de vendas. As redes e plataformas sociais têm vindo a ocupar, progressivamente, o espaço noticioso contínuo, quase permanente. Os movimentos internacionais de compra e venda de empresas de comunicação, às vezes por montantes delirantes, são os rostos disfarçados de grandes grupos que pretendem influência política ou social ou, muitas vezes, preferem reduzir custos, transformar a filosofia das edições para, depois, negociarem, de novo, com lucros escabrosos. As novas tecnologias encarregam-se, quase diariamente, de encontrar soluções para chegar junto dos leitores digitais a custos baixíssimos que, no entanto, multiplicados pelo número de utilizadores, lhes dão proventos fabulosos. É assim em toda a parte e mesmo os que vão mantendo o seu pouco papel em bancas não recusam as edições digitais, na ânsia de que o progresso lhes salve o prestígio e a história das suas publicações.

Nas últimas décadas tem havido múltiplas conferências internacionais, onde os maiores conhecedores do assunto têm feito os seus avisos e apresentado as suas soluções. Soluções que, muitas vezes, já estão desatualizadas nos dias seguintes. Só os grandes jornais de renome internacional cimentado têm conseguido manter o apelo de leitura, recorrendo sempre a artigos ou comentários escritos por grandes autores de cujas opiniões os públicos não gostam de se afastar, mesmo que nem tudo seja lido no próprio dia. É o jornal-romance que se vai lendo, com tempo e com tempero que os artigos e os autores exigem. Há também os jornais da “faca ensanguentada” em que são relatados os pormenores mais sórdidos de vidas que desconhecemos mas que alimentam o “voyeurismo” palpitante de certos setores de populações que, como se costuma dizer, vivem mais dos bonecos do que dos textos.

No estrangeiro estes fenómenos são frequentes. Recentemente o New York Daily News reduziu em 50% os seus encargos salariais, conforme notícia dada no seu número de 23 de Julho último. Dos 34 jornalistas desportivos de que dispunha restam 9. Só um pequeno número de jornais de referência, com especial relevo para o New York Times, conseguiram manter um número interessante de assinantes que pagam uma mensalidade importante em troca de informação de alta qualidade. As estatísticas indicam que 67% dos americanos adultos passaram a ler as plataformas sociais e abandonaram as bancas da imprensa escrita.

Em Portugal acontece o mesmo. Jornais como o Expresso, de nítido pendor e escolha política, passou a arriscar no Expresso Diário com impacto inicial apreciável mas, tal como o próprio jornal-mãe, a decair progressivamente nas procuras dos cidadãos. A crise é generalizada e complicada. O Diário de Notícias optou, recentemente, por se transformar em digital durante a semana e publicar uma grossa edição em papel aos domingos. Esse quase “semanário” tem tido bom acolhimento mas muitos entendidos, opinadores ou detratores têm dito que o Diário de Notícias caminha para o fim. Talvez seja precipitado esse obituário mas só a evolução tecnológica, em progresso todos os dias, nos dirá o que irá acontecer. O famoso “cheiro do papel” para ler enquanto se bebe o café começou a desvanecer-se e veremos até que ponto esse “perfume” se vai aguentar.

A verdade é que os cidadãos não precisam de “jornais nacionais” para estarem informados no mundo. As informações digitais chegam-lhes primeiro, quase instantaneamente. O contrário já não é tão verdade: se o cidadão algarvio, por exemplo, quiser saber a última notícia da sua terra o jornal nacional não lha dá e  a base digital muitas vezes ignora-a. O americano de Illinois ou de Ohio interessa-lhe mais saber o que dizem ou fazem os seus dirigentes do que saber qual a última loucura de Trump. Por isso recorre aos seus jornais porque se o disparate do Trump for muito grande também lá vem.

Por curiosidade fui ver o panorama dos jornais portugueses. Diários nacionais há 5 com tremendas dificuldades financeiras. Semanários nacionais há 2 também com enormes dificuldades. Jornais desportivos há 4 que, integrados em outros grupos, vão alimentando, muitas vezes com baixíssimo rigor e qualidade, os mais ferverosos adeptos do desporto (principalmente o futebol). Salto por cima dos jornais políticos e das revistas diferenciadas cujas edições são quase todas devolvidas como sobras.

Vou-me fixar nos chamados Jornais Regionais. Há 3 na zona de Lisboa, 6 na zona do Porto, 17 na chamada zona do Norte, 13 na chamada zona do Centro, 14 na chamada zona do Sul, 8 na chamada zona do Oeste e e 5 nas zonas de Açores e Madeira. Muitos deles são históricos e criados há muitos anos. Vivem com extremas dificuldades, com assinantes que se atrasam nos pagamentos, com mercados muitas vezes centrados na nossa diáspora de cerca de 2,2 milhões de emigrantes. Por todo este pequeno país há gente que tem origens familiares em outras zonas do continente ou das ilhas. Não haverá uma maneira de conjugarem os seus esfoços (principalmente os jornais das mesmas zonas ou regiões) de se associarem e assumirem projetos de modernidade que os libertem da caução financeira e os levem a participar num mundo novo em que já vivem e pelo qual os seus conterrâneos  andam dispersos? Um algarvio em Lisboa ou em Hong Kong não desdenhará saber, em curto prazo e de forma direta, o que se está a passar na terra onde nasceu, onde vivem os seus pais e avós e onde, possivelmente, ainda tem uns terrenozitos cuja propriedade tem que vir resolver. E as estradas que prometeram construir? Já estão prontas? E o caminho de ferro já foi melhorado?

Com as novas tecnologias à nossa volta deixemos os jornais nacionais zelarem pelas suas vidas mas os REGIONAIS que aproveitem esta enorme possibilidade e saiam dos seus “cantinhos” para irem ao encontro de todos aqueles que têm interesse em lê-los. E são muitos, são mais de dois milhões.

2 pensamentos sobre “INFORMAÇÃO REGIONAL

  1. Para mal dos meus pecados, decidi aderir ao jornal digital, nomeadamente, Diário de Notícias e Expresso. Torna-se prático, mas não agrada. Torna-se cómodo, mas não satisfaz. Um mundo digital, que mexe com os meus pequenos vícios, vulgo hábitos, que acabam por me deixar um certo vazio. Para onde olharei, quando for ao barbeiro, ou quando estiver à espera de vez, em qualquer instituição ? Desde os tempos do ” Mosquito ” e do ” Mundo de Aventuras “, de uma juventude já passada, que nos habituou ao cheiro do papel e da tinta. O contacto real, com a notícia que nos parecia de última hora, o pregão do ardina, a querer desembaraçar-se daquele magote de jornais, frescos de tinta, ainda a manchar-nos os dedos, seu pequeno sustento, acabou, por decisão económica. Não sei se será com ponto final…!

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  2. Muito boa chamada de atenção para o interesse da imprensa regional. Se ela é muito importante para os naturais de localidades do interior que migraram ou emigraram então os interessados devem fazer um pequeno esforço para manter o “jornal da terra” vivo. Penso que não fará sentido pedir auxílio financeiro ao Estado Central, mas também pensoque as autarquias locais deveriam colaborar – desde que não obriguem os editores a fazer a apologia política acrítica das suas decisões.
    Também eu não gosto dos jornais digitais. Como disseste e muito bem, não têm cheiro nem sujam as mãos !

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