CHEGAM LÁ COM VOTOS

Não sabemos se será um truque, se uma moda mas é, seguramente, uma fórmula aparentemente eficaz de chegar ao poder sem o recurso a golpes militares, guerras civis ou autocracias delirantes: é o recurso ao voto popular. A chamada base institucional da democracia. Por isso já em anteriores textos deste blogue se abordou o tema da “Democracia”, os moldes em que ela se desenrola, a forma como é praticada e as múltiplas interferências, sempre perniciosas, a que está sujeita.  Aproxima-se, já no próximo fim de semana, mais um importantíssimo ato eleitoral, agora no Brasil, pelo qual se teme que um candidato radical e extremista de direita, o famoso Bolsonaro, consiga ser eleito. Por tudo o que leio e do que me vão relatando a coisa não é tão absurda quanto nos parece. Toda a classe política no Brasil, com raríssimas e honrosas exceções, se deixou envolver, nas últimas décadas, nos mais escabrosos descaminhos da corrupção, do poder descriminatório, do desprezo pelas classes mais desprotegidas,  a baixa e a média baixa (e, muitas vezes, a média alta). A raiva e o desprezo por essa gente tomou conta do país e boa parte da população já diz que “é preciso lavar primeiro para depois renovar”. O problema é o lavar primeiro. Como se faz isso? Forças militares? Generais outra vez? O clima mundial já não aceita  bem esses métodos tão usados há décadas atrás. Mas a aliança entre a Justiça e a Comunicação social tem produzido excelentes resultados em muitos países e as pessoas acabam por votar nos nomes que se lhes aponta. Portugal conhece um pouco esse método e julga-se estarem a ser tomadas medidas para evitar esse caminho desastroso.

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Recorro a um delicioso cartoon de António, publicado há meses no Expresso, a que ele chamou de “Dream Team”, e onde estão representados poderosos presidentes ou chefes de governo que chegaram ao poder com o voto popular. Ainda lá falta o rapaz da Venezuela e é a esta trupe que o Sr. Bolsonaro se poderá vir a juntar se o voto popular, sempre o voto popular, lho permitir.

Sabemos que o método eleitoral do Brasil é muito especial e, o que verdadeiramente contará, será o resultado da segunda volta na qual estarão presentes, de acordo com os estudos, Bolsonaro e Haddad, este em representação do PT de Lula de quem tem, com excecional cuidado, evitado falar. Mas o outro, o famoso Bolsonaro, representa tudo o que o mundo hoje rejeita: o chauvinismo, o racismo, a xenofobia, a aporofobia (desprezo pelos pobres), o amor às armas e à “manu militari”. A facada de que foi alvo durante a campanha (há quem diga que foi contratada com um meliante) serve-lhe, agora, para uma série de subterfúgios como, por exemplo, o de não comparecer aos debates que não lhe interessam. E o estilo será sempre o de atacar o ou os adversários,  apelando ao tema da corrupção, coisa em que ele se viu pouco envolvido pelo facto de nunca ter ocupado postos de responsabilidade. Se tal se tivesse passado também não teria escapado à volúpia que transformou o Brasil na maior decadência política dos últimos anos.

Mas, para não me alongar muito, quero apenas chamar a atenção para o facto de que, qualquer que seja o eleito de domingo, ele chegará lá por meio do voto popular o que, à luz dos atuais figurinos da nossa democracia, é coisa a respeitar. Se Habbab ganhar,  as tropelias também serão muitas porque ninguém esquece as recentes desgraças desempenhadas pelos mais recentes poderosos. Há, no entanto, diferenças e talvez os brasileiros, nessa famosa segunda volta, rejeitem mais um do que o outro. Acima de tudo que se evitem confrontos civis, que se preserve a paz, sem descuidar a perigosidade que já campeia pelo país. Esperemos que o Brasil se salve, que saia deste purgatório onde se enterrou e que, como à luz das mais recentes escrituras, esse purgatório não exista ou seja breve. Para bem do país e de todo o mundo. Esperemos que o cartonista António possa atualizar, a breve trecho, o seu “Dream Team”, acima figurado, sem muitos acrescentos de reservas no “banco”.

2 pensamentos sobre “CHEGAM LÁ COM VOTOS

  1. É verdade, até o Hitler chegou lá com os votos ! No caso do Bolsonaro alem das causas apontadas para a sua colheita de votos, talvez possamos acrescentar o medo de que medidas a favor dos mais desfavorecidos, do género das que Lula da Silva pôs em prática, possam dificultar a obtenção de servidores domésticos pela classe média. E, mais importante, impedir o pagamento de salários de miséria pelos capitães da indústria e pelos coronéis da agricultura.

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  2. Um assunto muito preocupante. O Brasil, desde que o conheço de perto, talvez recuando aos tempos de Getúlio Vargas, sempre viveu no turbilhão de expectativas que uma democracia permite, incluindo a sua própria destruição. O voto e as maiorias…! Talvez, as influências dos mais poderosos, as demagogias, os populismos e as manipulações tão em voga nos dias de hoje, aproveitando uma comunicação social, sempre tão pronta a apoiar quem nela investe. Longe, também já vai o tempo sereno de Juscelino Kubitschec e Henrique Cardoso e mais de uma vintena de presidentes, a intercalar golpes e influências militares. A verdade, é que o Brasil cresceu sempre, como potência económica apetecível de tantas outras economias mundiais, não obstante a miséria sempre crescente e esquecida. Talvez esta, a pedra angular de uma instabilidade, e de tanta contestação com viragens políticas…!

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