Histórias de Natal

O Natal aproxima-se, os corações avolumam-se de bondade, os espíritos abrem-se, e a felicidade ilumina os rostos de toda a gente que acredita que o mundo não é assim tão mau, como se ouve dizer durante todo o ano…!

Nesta época maravilhosa, em que nem a chuva e o vento frio nos enregela os rostos, avolumam-se os encontros de amigos, comemorando o tradicional almoço de Natal, em restaurantes um pouco mais acolhedores do que aqueles em que habitualmente abastecemos os nossos apetites, durante os restantes dias do ano.

E ontem, embora não tenha sido bem um almoço de Natal, mas sim mais um almoço de trabalho, reuniu-se o grupo para assentar ideias. O restaurante, estava cheio de gente que conversava ruidosamente, como é costume entre nós, portugueses. Sentado de frente para a rua, via o movimento de gente apressada, a fugir a uma chuva tocada pelo vento, que se mantinha persistente. Mal tinha dado conta de que aquele sítio tinha sido o início da minha vida lisboeta. A Alameda D. Afonso Henriques e a Fonte Luminosa, nos meus dez anos de idade, irrequietos, talvez por uma inadaptação difícil, em ter que viver entre paredes de um apartamento de quatro assoalhadas, cheio de andares por cima e outros tantos por baixo, a ouvir barulhos estranhos…!

Dizia-se à boca miuda, que a guerra estava para acabar com a invasão da Normandia. Na nova casa ( apartamento ), a fotografia de Churchil sobressaía de entre os livros bem arrumados, de uma estante do escritório do meu pai, seu grande admirador desde os primeiros dias de guerra.

A Avenida Guerra Junqueiro, ainda estava no seu início de construção. O Largo do Areeiro e a João XXI, ainda mal se notava a sua dimensão. Apenas se adivinhava serem largas, viradas para um futuro de paz, que se aproximava, ainda que penosamente.

Os meses foram passando, e a minha adaptação começou a ter lugar com novas amizades, ganhas no colégio, a poucas ruas de distância. Chamava-se Nuno Álvares…! Lisboa, continuava a crescer ao meu lado, ou talvez eu continuasse a crescer ao lado de uma Lisboa nova, deliciando-me com uma cidade que se apresentava arejada e moderna, deixando para trás, o que pouco tempo antes me tinha sido difícil abandonar.

Acabado o almoço de trabalho, despedi-me do grupo de amigos, e dirigi-me ao parque de estacionamento subterrâneo, nunca imaginado naqueles tempos de jovem, peguei no carro e subi a Alameda, dei a volta à Praça de Londres, enfiei pela Avenida de Paris, Largo do Areeiro, João XXI e Avenida de Roma, regressando a casa, satisfeito…! Tinha recuado um período de 74 anos, imaginariamente, da minha vida entre velhos amigos, que por diversas circunstâncias, há muito deixámos de nos ver ..! Talvez por ser Natal, muitas coisas possam acontecer…!

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