Uma página do quotidiano

Uma seca que nos atormentava, parece estar, por momentos, um pouco afastada das nossas preocupações. Afinal, a chuva voltou e tudo começa de novo a resplandecer, embora não me convença que seja bem assim, nem acreditando que estejamos preparados para um agravamento, com uma nova ameaça, que o tempo descontrolado, como anda, nos possa ainda oferecer.

Este final de semana, bem molhado como desejávamos, fez-me recolher bem mais cedo do que normalmente acontece, aproveitado para continuar a ler o livro, que há já algum tempo se arrasta pelos maples da sala. Dividindo o tempo com outros afazeres habituais, coloquei um CD no gira discos e sentei-me a ouvir alguns Clássicos…! Mozart, desde Allegro de Pequena Serenata Nocturna ( Eine Kleine Nachmusik ), até ao Concerto para Clarinete- Andante ( que serviu de tema no filme África Minha ) . Não querendo ouvir novamente Mozart, escolhi Gustav Mahler, ficando-me na Sinfonia nº 5, que curiosamente, também emprestou um ambiente dramático, como música de fundo, no filme de Luchino Visconti, ” Morte em Veneza “. Interessante, como uma sinfonia lindíssima, que Mahler escreveu como uma declaração de amor a sua mulher, antes de a ter pedido em casamento, viesse a dar tanta beleza àquele filme de um amor estranho…!

Preparava-me para aquele sono dos anjos, que já há algum tempo não sabia o que era, senti que a chuva, lá fora, continuava a cair, arrastada pelo vento frio, anunciando uma noite tormentosa. Alguns relâmpagos, iluminaram por uns escassos segundos, as cortinas das janelas e de seguida, o ribombar dos trovões, abafando o som daquela sessão musical que tinha escolhido para o final de uma noite que já não se tornara calma.

Sono desfeito, em mil bocados, por pensamentos que se cruzavam no cérebro, misturados com a perceção de sons, como vozes estranhas que o vento me parecia trazer, empurrava a chuva atrevida, de encontro às janelas. Os relâmpagos e os trovões, embora espaçados, pareciam não desistir de assustar. Contava os segundos a partir do relâmpago, até sentir o estrondo do trovão, como fazia em miúdo, com o meu irmão… ! 1, 2, 3 ,4…! Multiplicava, mentalmente, pela velocidade do som, ficando mais tranquilo ao sentir que aquela tormenta começava a afastar-se …! Vencido pelo sono, tudo desapareceu. Por algumas horas, mergulhei num faz de conta que nada acontece, acordando cansado, com um Sol mais brilhante que nunca, a espreitar entre algumas nuvens ainda cinzentas…! Voltei a ouvir Mahler, durante o pequeno almoço, e aventurei-me a apanhar chuva…!

3 pensamentos sobre “Uma página do quotidiano

  1. Aqui está como se passa uma noite com boa música , preparando um sono repousante , e com certeza merecido , quando as condições atmosféricas tudo alteram ! Uma forte chuva batendo nos vidros , sobressaltando a família, e depois da sua passagem, regressou tudo à normalidade , permitindo um sono justo e repousante ! O que se pode chamar uma noite reconfortante. Muito bem descrito,ficamos a saber que o casal nosso amigo acabou por descansar tranquilamente, o que o recompensou do susto de origem atmosférica . Boa noite, não foi ?

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