E POR CÁ, ESTÁ TUDO MAL?

Como vai o nosso país? Como vão as coisas por cá? Como vai a política e quais os resultados das políticas que têm vindo a ser feitas? Dir-se-á que basta ouvir os noticiários televisivos ou ler as notícias de muitos jornais para se ficar com a ideia de que muito pouca coisa funciona no nosso país. Basta cronometrar alguns noticiários para se concluir que os primeiros 20 a 25 minutos relatam apenas factos que correspondem a maus comportamentos, maus funcionamentos, atos irrefletidos, desmandos sistemáticos que fazem do nosso país um local inabitável.

As dezenas de comentadores, de todos os estratos, que pululam nas televisões,  contradizem-se nas suas opiniões mas percebe-se:  fazem jus às avenças que lhes pagam para exibirem os seus conhecimentos.

Há, realmente, muitas coisas que não funcionam bem, tanto nos serviços públicos (os mais atacados) como nos serviços privados. Muitas vezes, surpreendentemente, somos bem atendidos num serviço que, na véspera, tinha sido declarado nos noticiários em estado de abandono ou falência. Os índices da economia, do desemprego, da produtividade, do turismo, da educação, da saúde têm vindo a melhorar mas não é essa a mensagem que nos é diariamente transmitida pelas vias de comunicação.

Enfim, não valerá a pena insistir num ponto com que todos somos confrontados, estando mais ou menos de acordo com o que nos é dito.

Resolvi hoje recorrer a um pequeno infograma de um estudo da OCDE sobre o número de horas trabalhadas nos países europeus, em comparação com o que acontece na Coreia do Sul (gráfico seguinte).

 

estatistica_OCDE.png

Como se vê, o total de número de horas trabalhadas, por ano, tendo em conta o número de habitantes na Coreia do Sul é de 1048,5 enquanto que a média da União Europeia é de 751,8. Curiosamente para Portugal o número é de 850,2  horas e para a França (o que muito os aflige) é de 634,8.  Que significa isto na realidade? Vejamos as condicionantes da estatística.  Trata-se de trabalho remunerado no sentido económico do termo (excluindo trabalhos domésticos benévolos, por exemplo).  Sobretudo estes números referem-se ao conjunto de habitantes de cada país, desde as crianças aos centenários. Esta condição evita que se compare os tempos de trabalho (critérios de tempo semanal, duração de anual de trabalho dos 15 aos 64 anos, ou início da vida ativa até à partida para a reforma). A única coisa que conta é a quantidade de trabalho fornecido pelo país no seu conjunto e que resulta, evidentemente, de todos os parâmetros anteriores: a semana, o ano, o ciclo de vida, as esperanças de vida razoavelmente parecidas, etc. Desta forma os 50,4 milhões de coreanos, com a sua média anual de 1048,5 horas,  fornecem 52884 milhões de horas de trabalho, enquanto que os 10,5 milhões de portugueses, com a sua média anual de 850,2 horas fornecem 8927 milhões de horas. Retira-se da estatística que os coreanos trabalham, em média, apenas 3 horas por dia o que diz bem da produtividade daquele povo. Pelo mesmo critério os portugueses trabalhariam , em média, 2,3 horas por dia, o que, como se sabe, não é a realidade. Pergunta-se, naturalmente, as razões desta desconformidade. A diferença entre as horas reais de trabalho e a média atrás obtida decorre do facto de os portugueses não terem ainda todas as competências para trabalharem mais para o seu envolvimento no mercado mundial.

No entanto, também de acordo com a OCDE, as competências dos jovens (Programa Pisa) e dos adultos (Piaac) são muito favoráveis aos portugueses quer em literacia como em cultura numérica. O que nos falta, portanto, é um muito maior número de gente habilitada, com mais altos graus de desenvolvimento no ensino e, portanto, melhores capacidades de desempenho.

Este tipo de problemas não é só português: muitos países da União Europeia debatem-se com as mesmas carências quando se comparam com a Coreia do Sul. É sabido que há anos que os coreanos dizem : “O que um japonês faz, um coreano pode fazer melhor”. Os franceses também já adotaram o “slogan” e dizem: “O que um alemão faz, um francês pode fazer melhor”. E eu diria também: “O que um francês faz, um português pode fazer melhor”.

Insistamos, portanto, no que é essencial: na educação, na cultura, no desenvolvimento acentuado de licenciaturas, mestrados, doutoramentos e cursos com competências profissionais específicas. Para que possamos fazer melhor aquilo que ainda não fazemos bem: tudo o que mencionei no início do texto. Temos todos que ajudar para que haja mais competências e, dessa forma, se possa produzir mais horas de trabalho qualificado para competir com o mundo. Não resolve dizer, todos os dias, mal do que está a funcionar menos bem, ou às vezes até a funcionar bem. Importa falar do que está a funcionar satisfatoriamente e apontar as soluções para que tudo passe a ser melhor. Falar de forma decente para criar um país cada vez mais decente.

 

 

3 pensamentos sobre “E POR CÁ, ESTÁ TUDO MAL?

  1. Manuel José, gostei do teu artigo, mas vou referir-me apenas a ìntrodução, sobre as notícias de que está tudo mal no nosso país. De facto as notícias assim querem fazer crer, e podem apontar-se várias razões para esse martelar sistemático : interesses políticos para culpabilizar o governo e levá-lo a perder as próximas eleições ; interesses económicos para levar a outras orientações ( caso dos serviços de saúde ) ; o prazer de dizer mal de tudo e todos, que é muito nosso, e que está associado à inveja de quem faz bem ; e, também, admito, o desejo de chamar a atenção para melhorar as coisas. Vem-me frequentemente à memória a frase do J:F: Kennedy : Em vez que procurares o que a América pode fazer por ti, pensa no que podes fazer pela América.

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  2. Ao ler este assunto, por sinal muito positivo, fiz uma retrospectiva a uma fase da minha vida em que lidava com várias empresas fabris, por todo o país. A disciplina e a forma como a maioria do pessoal se dedicava ao seu trabalho, mostrando muitas vezes, um certa vaidade no que estava a fazer, deixava-nos orgulhosos, sabendo-se que a maioria das indústrias não conseguia os meios evoluídos de produção. Não se apetrechavam, porque o mercado não absorveria a totalidade da produção, e nem sempre a exportação permitia o escoamento desse excesso, apesar de estarmos favorecidos pela EFTA, e com algumas transferências de industrias para Portugal, procurando uma mão de obra hábil e mais barata.. Talvez até, por uma falta de financiamento nacional nesse sentido, embora o antigo Fundo de Fomento de Exportação, apresentasse um belíssimo desempenho, no desbravar de novos mercados. Contudo, apesar de todas estas indisponibilidades financeiras, a indústria portuguesa, ainda que com um Know How modestamente apresentado, mostrou como sempre esteve aberto à inovação. Mais uma vez, não obstante aos condicionalismos restritivos de produção,os Alvarás, favoreciam os monopólios de produção. Ainda hoje, há indústrias que se mantém habitualmente sozinhas, em ambiente quase monopolista, por falta de iniciativa e investimento, senhoras de um mercado, que apenas sofre, despreocupadamente, a concorrência de uma eventual importação.
    Ainda que a vida, hoje, esteja mais difícil pela abertura à agressividade do exterior, muito se evoluiu nestes últimos vinte anos, pela compreensão da classe produtiva e do brio profissional, que infelizmente, muito pouco se tem falado na comunicação social, mais preocupada com as desgraças que vão aparecendo todos os dias…! E estes gráficos, mostram bem o que ainda se poderá fazer de futuro…!

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