Estados Unidos, Geração Massacre

É este o título de um documentário produzido em 2018 pelo cineasta alemão Sebastien Bellwinkel como reação aos 17  mortos a tiro (14 alunos e 3 professores)  no Dia de S. Valentim, em Parkland, na Florida, Estados Unidos, claro! Foram todos abatidos a sangue frio por um um jovem de 19 anos, armado com uma semi-automática AR-15, arma bem conhecida por outros autores de massacres em todos os Estados Unidos.

Já depois deste incidente e do documentário atrás citado repetiram-se, recentemente, fenómenos semelhantes: um em El Paso, no Texas, com 22 mortos e outro em Dayton, no Ohio, com 9 mortos. Os autores, como em casos anteriores, são jovens com ou sem antecedentes criminais mas, decerto, com antecedentes de doenças obsessivas que não foram consideradas em tempo.

Donald Trump, o inconsequente Presidente dos Estados Unidos, em uníssono com os conservadores, proclama os “seus pensamentos e orações” mas resiste às limitações à venda de armas.  Prefere adotar a sugestão da poderosíssima NRA (National Rifle Association),  que contribuiu com 30 milhões de dólares para a campanha Trump de 2016 e que se  propõe armar e treinar os professores das escolas.  País extraordinário este, onde 22% da população partilha 265 milhões de armas. O documentário revela que 78% dos americanos não têm armas.  As redes sociais já começaram a protestar contra esta loucura desde 2018, constituindo  grupos como “Marcha pelas nossas Vidas” ou “Peace Warriors” mas, aparentemente sem grandes resultados. As visitas de Trump aos locais dos desastres são sempre acompanhados por manifestações de oposição a esta loucura mas o Presidente é-lhes indiferente e continuará a sua missão em prol do armamento. E será bom registar as estatísticas oficiais que declararam 30 000 mortos em 2017, por acidentes com armas.

Mas o problema é mais profundo. Os Estados Unidos é um país relativamente recente, onde  viviam os famosos índios dos filmes que utilizavam apenas arcos e flechas. Apareceram depois os invasores e imigrantes que passaram, esses sim, a usar as armas de fogo (os chamados “cowboys”). A partir daí o país ficou realmente um país de imigrantes dos quais os atuais residentes da Casa Branca são um excelente e  magnífico exemplo. Com o passar do tempo e das gerações,  as costas leste e oeste dos Estados Unidos passaram a ser os redutos das familias mais poderosas, mais cultas e influentes. Como enorme território que é, os Estados Unidos foram descobrindo e sediando, por todos os estados, explorações e economias riquíssimas que transformaram o país numa grande potência. Mas nos dois litorais existem as novas gerações de licenciados, mestres e doutores que se exibem nos mais audaciosos projetos atuais, recorrendo, muitas vezes, a habilidades legais, semi-legais ou ilegais que lhes franqueiam o mundo. Mas há também os sábios cultos, os que deixam marcas e história e que só são conhecidos pelas elites cultas americanas e internacionais.  As suas obras chegam-nos às catadupas (livros, música, pintura, investigação, ciência, cinema, teatro) e eles preenchem, na realidade, o que a sociedade americana tem de mais valioso para o seu país e para o mundo. A investigação e desenvolvimento militares são assombrosos e o resto do mundo interroga-se sobre o bom senso e a prudência na utilização de todos esses meios. Os sucessivos solavancos nas alianças internacionais determinados por esta teatral administração não convencem o mundo sem o companheirismo tão indispensável para combater os tremendos desafios que estão presentes nos quotidianos de todos os continentes.

Pois, mas apesar de todos estes avanços a América profunda é muito mais complexa e, digamo-lo sem medo, mais destrutiva. Basta viajar pelos estados interiores e conhecer a rudeza da sua gente para compreendermos onde Trump sempre batalhará e conseguirá os seus votos. Os há muito apelidados de “rednecks” lá estão, aos domingos, nos seus almoços familiares, os pais com botas e chapéus à “cowboy” à mesa e as mães e as filhas com os seus mais resguardados vestidinhos de flores e lacinhos na cabeça. Sim, claro, esses têm que ter armas para se defender, segundo dizem, e os biliões de videojogos que inundam aquela juventude cria virtualidades e obsessões que, a prazo, desembocam nos massacres que Trump diz lamentar mas  nada fazendo para os evitar.  Que diriam os seus apoiantes fabricantes de armamento?

Pouco ou nada a fazer até porque a 2ª emenda da Constituição consagra o direito de andar armado. Há bem pouco tempo um cidadão trabalhador do interior (honesto serralheiro) dizia, depois de comprar uma pistola com silenciador: “No caso de ter que me defender não quero acordar a casa toda!”

Não, a América não se comporta como um grande país. Falta-lhe a História e as civilizações europeias. Pelo menos foi o que Churchil disse depois da 2ª Grande Guerra.

 

 

3 pensamentos sobre “Estados Unidos, Geração Massacre

  1. A América…! Sempre aquela América, que conhecíamos dos filmes que víamos desde miúdos. Dos cowboys e índios, que tanto nos entusiasmava. Gostávamos sempre do rapaz e nunca do índio mausão. A América, do ” Há lodo no cais “, ou a América de ” Bonnie and Clyde “. Ainda, ” Os melhores anos da nossa vida “, um outro filme que nos mostrava a realidade de uma América, com o regresso de quem por cá, na Europa, andou a libertá-la do nazismo, ou a invejável vida em ” A Casa do Lago “. Este último, a cereja em cima do bolo, do tal país em que tanto gostaríamos de ter vivido…! Um país multifacetado, que nos entrava pela via do cinema, mostrando a verdade plena da sua liberdade, bem longe de uma Europa de condicionalismos económicos e sociais, ou de uma Ásia a acotovelar-se de gente preocupada na sobrevivência do dia a dia.
    A Guerra Fria, que dividia o mundo em duas partes e tinha modificado as mentes das populações, desde o final da 2ª Guerra Mundial, acabou. Todos os esforços de equilibrar as tensões, acabaram por ruir, dando lugar a outras esperanças. Com a tolerância, a libertinagem e o racismo, voltaram à superfície. A globalização, misturando o bom com o mau, o certo com o incerto, despertando o mau estar e o desconforto de alguns. Daí, o racismo mais odiento e irracional. As desilusões. As guerrilhas incontroladas. As migrações e o desemprego. A diferença de salários. A violência, num mundo cada vez mais intolerante e selvagem, que o cinema insiste em transmitir, influenciando os mais emocionais, com ou sem bolinha vermelha. A América, forçosamente, já não é a mesma. Economicamente insegura e mais armada ! Talvez assustada, perante um resto do mundo, com direito à vida…!

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  2. No Japão tem havido massacres históricos desde 2001, o último dos quais, em 2016, com 19 mortos e 45 feridos. Um jovem de 26 anos, doente claro, que atacou com faca, mesmo sem arma de fogo. Há artigos que relacionam os vídeo-jogos com vício, obsessão e violência. Não será sempre o caso, felizmente.

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  3. Não meta os videojogos nisto. Isso é uma falácia inventada pelos fabricantes de armas para justificar a violência. Está mais que provado que os vídeojogos não têm qualquer relevância no contexto das mortes por armas de fogo. Outros países usam muito mais os videojogos (como o Japão, por exemplo) e não têm qualquer problema com as armas de fogo. Simplesmente porque elas são proibidas.

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