A ALQUIMIA DO TEMPO

 

O texto de hoje pretende ir ao encontro da gente da chamada “terceira idade”, dos que já foram novos e estão, agora,  a entrar no inexorável envelhecimento (no qual, naturalmente, me incluo). Como diz um amigo meu, com muita graça: “Estamos na idade do Condor , uma dor aqui, outra dor acolá…” Parece que Freud se interessou, nos seus estudos, principalmente, nos primeiros anos de vida de amadurecimento do jovem em fase de envelhecimento. O psicanalista Carl Jung aprofundou mais o envelhecimento no tempo e chamou-lhe “A Alquimia do Tempo”. Daqui vem o título deste post.

Se perguntarmos aos seniores (modernismo de “velhote”) se querem regressar aos seus trinta anos, na sua maioria responderão: “O quê? Fazer tudo de novo? Aturar outra vez os problemas da vida (carreira, casamento, família…)? Não, muito obrigado!” Destas respostas e comportamentos têm surgido muitos estudos em que se aborda a sabedoria prática no quotidiano dos seniores. Mas não podemos ignorar o discurso pessimista das inevitáveis degradações corporais e cognitivas ligadas ao envelhecimento. Claro que não: envelhecer é, sem dúvida, uma das desoladoras condições , particularmente físicas, às quais estamos condenados pela finitude humana. Mas as dimensões psicológicas e emocionais desse processo trazem, por vezes, agradáveis surpresas. Um dos benefícios da idade avançada é passar a ter menos vergonha associada à tristeza e à solidão.

Segundo os especialistas “há um meio da vida, o momento onde o envelhecimento transforma a extroversão em introversão.  Aliviado da angústia de tudo o que há a fazer, a  percepção do tempo pode tornar-se mais agradável.”  Um dos fatores mais benéficos para aqueles que envelhecem numa sociedade mais rápida e mais jovem é a entrada progressiva numa maior lentidão. Mas para quem não estiver afetado por condições inevitáveis de saúde,  as recomendações são unânimes: procurar movimentar-se, criar novos motivos de interesse, discutir com os mais novos os benefícios ou malefícios das novas tendências, reconhecer a juventude como a ponte benéfica, e única,  entre “o seu tempo” e os “tempos que aí vêm”. Aprofundar os conhecimentos que já tenha esquecido ou prestado menos atenção, relatar muito do que assistiu na vida (tipo cronista), procurar no desporto, se possível, um método disciplinado de organizar a sua atividade.

Isto de envelhecer é uma sorte e uma ciência. Mas há um ponto obrigatório para todos: prestar muita atenção, ver e ouvir com cuidado e estimular tudo o que vem da juventude à sua volta. Isso ajuda imenso a envelhecer mais devagar…

Sem esquecer, no entanto, o que cantava Léo Ferré:

Avec le temps

Avec le temps va tout s’en va

On oublie le visage et l’on oublie la voix

Um pensamento sobre “A ALQUIMIA DO TEMPO

  1. Gostei muito de ler este post. Talvez, porque tem muito a dizer comigo e com os da minha idade, se é que a idade possa ser definida como uma elite de usados, como se tratasse de uma colecção de carros usados em razoável estado de conservação. Todos os dias, dou comigo a pensar, no privilégio de existirmos e sermos parte da história do Século XX e XXI. De uma história vivida, encadernada com letras gravadas em baixo relevo, que se vão apagando com o uso diário de leitura…! Pessoalmente, sempre detestei a ideia de envelhecer. Custava-me, ter que aceitar o somatório de muitos lustres e de não ter já a agilidade de saltar do eléctrico em andamento, como o fazia em novo. Mas que coisa, eu agora havia de me lembrar, para fazer estas pequenas confissões…! E a dignidade ? E o respeito, somado à moral aprendida noutros tempos, em que se vivia mais severamente em todos os aspectos e nos moldava a personalidade ? Do que nos serve tudo isso, no meio desta balbúrdia em que se vive actualmente, recebendo autênticos choques, fazendo-nos indignar e desconfiar de novos dias sombrios que se avizinham, em que nem o Presidente de todos os portugueses escapa à raiva e à maledicência pública ? Há quem diga que a história se repete. Eu não acredito. Talvez haja gente, que goste ou precise de mimetizar as atitudes de outros, para fazerem parte da história…!

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