O Elogio da Loucura

Por razões que relato mais adiante fui levado a rever alguns elementos da obra de Erasmo de Roterdão, “O Elogio da Loucura”, para melhor recordar a obra e o autor de que me encontrava ausente, depois de tantos anos sem o consultar.  Como se lembrarão Erasmo de Roterdão (de seu nome completo em latim Desiderius Erasmus Roterodamus) nasceu em 1465, em Roterdão, na Holanda, e foi humanista e teólogo famoso do seu tempo. Foi um intelectual importante que, embora vivendo em convento, percorreu toda a Europa e conviveu com figuras famosas da época. Começou a escrever em 1509 um ensaio, publicado em 1511,  a que chamou “O Elogio da Loucura” que dedicou ao seu grande amigo inglês Thomas More, autor da Utopia (A Man for All Seasons, lembram-se?…)  Erasmo era cristão mas crítico profundo do fanatismo religioso e da opressão causada pela igreja católica. As suas críticas e reflexões serviram de base à Reforma Protestante, para combater os comportamentos e pensamentos da sociedade do seu tempo. No seu “Elogio da Loucura”,  Erasmo tenta combater os males e vícios da sociedade, levando-a a refletir sobre os pressupostos daqueles a quem essa sociedade considerava de loucos. Começando por ser uma sátira à sociedade dos séculos XV e XVI a sua obra acabou por ter uma enorme influência na história da humanidade, ao desmontar tudo aquilo que se considerava certo e inabalável e que era, afinal, um espelho de vícios e crenças de que só os loucos tinham coragem de falar.

Toda esta introdução vem a propósito de um filme que está em exibição entre nós, Joker, realizado por Todd Phillips e magistralmente desempenhado por Joaquin Phoenix. Trata-se de um homem solitário, frustrado, desgostoso da vida e, claro, com uma mente passeando sempre nas fronteiras da loucura ou alucinação. Tudo isto se passa numa cidade imaginária americana, Gotham, na década de 1980 do século passado. O seu desespero pela vida sem contornos nem objetivos transforma-o num psicopata impiedoso que mata sem arrependimento nem consternação. Todo o seu drama se desenrola em simultâneo com intensas perturbações sociais que se materializam na revolta descontrolada de uma população contra a gestão da cidade, utilizando nas suas turbulentas manifestações as máscaras de palhaços (jokers), imagem de artista que o protagonista sempre idealizara para si, mas sem o reconhecimento que ambicionava.

E foi o seu drama pessoal que se entrelaçou com o conflito social em que se viu envolvido e que, à semelhança do que escreveu Erasmo de Roterdão, polarizou a tremenda crítica ao poder estabelecido e o alcandorou, sem disso se aperceber, ao estatuto de ícone de uma revolução temporal mas, hoje, cada vez mais compreensível.

Não que seja de elogiar a loucura mas, sobretudo, servirá para acordar a sociedade para os defeitos congénitos da sua “praxis” desumanizada e incoerente. O homem deve reconhecer-se e reconhecer os objetivos da vida e da sociedade.  Citando Vaclav Havel: O elemento trágico para o homem moderno, não é que ele ignore o sentido da sua vida, mas que isso o preocupe cada vez menos”.

O Joker e Erasmo de Roterdão têm afinidades.

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