URGÊNCIA CLIMÁTICA

 

Antecipando o próximo dia 8 de Dezembro (comecei o texto no dia 7) , já designado como Dia Mundial do Clima, muito se tem visto e ouvido, de responsáveis políticos e instituições privadas, sobre a necessidade urgente de travar a poluição ambiental, o uso de energias fósseis, de modificar repetitivos hábitos alimentares e de consumo, tudo no sentido de preservar o nosso planeta e as vidas atuais e as das próximas gerações. Tudo isto é verdade, está cientificamente provado, não há que duvidar.

As enormes manifestações a que temos assistido, defendendo estes princípios, atacam, por outro lado, sem piedade nem contraditório, todos os responsáveis mundiais pelas suas incapacidades e apatias quanto ao fenómeno. Os próprios governantes surgem muitas vezes, a maior parte das vezes, reconhecendo humilhadamente aquilo que não se tem feito,  sem dar uma pequena palavra de apoio ao que está a ser feito em muitos locais. Claro que essa falta de coragem tem muito a ver com as poderosas companhias que dominam o mundo em termos energéticos (Saudi Aramco, Chevron, Gazprom, Exxon Mobil e National Iranian Oil), como já tínhamos dito no texto aqui publicado no dia 11 de Novembro, com o título jocoso de “A estufa e as Vacas”.  Mas, na realidade, há já muita coisa a ser feita por toda a parte. Em pequeníssima escala, claro, mas que, segundo todas as opiniões, também contam. Os hábitos domésticos, pelo menos nos países mais desenvolvidos, têm vindo a adaptar-se e poderão sempre servir de exemplo para outros países onde a disseminação desses processos são, decerto, mais lentos e difíceis. Os mares andam a ser monitorizados, os resíduos urbanos são tratados com tecnologias mais modernas, os transportes têm vindo a reduzir a sua influência poluidora com a adoção de energias renováveis. Tudo pouco, muito pouco, e por isso é necessário que desta reunião internacional de Madrid, a tal COP25, saiam decisões que prossigam estas inevitabilidades. E é bom que se lhes lembre, publicamente, tudo isso. Para que não caiam em saco roto os insistentes alertas do Secretário Geral das Nações Unidas.  Vejamos dois pequenos exemplos, em domínios tão diferentes, mas  que espelham não só o que está a ser feito, como o que está a ser investigado.

O primeiro caso prende-se com o trabalho de investigação que está a ser realizado em França no domínio aeronáutico: a produção do avião movido apenas com energia elétrica. O objetivo desta fileira de engenharia é reduzir as emissões de CO2 dos aviões de 50% até 2050. O engenheiro chefe de equipa, o cientista Stéphane Cueille, diz que: “Para fazer descolar um Airbus A320 de 80 toneladas, o efeito de massa é tal que seria necessário embarcar 180 toneladas de baterias desenvolvendo uma potência de 1000 kW/hora. Ora, para lá de 600 kW/hora  ainda não se sabe fazer”. O transporte aéreo representa 3% das emissões de CO2 mas está em constante progessão: o tráfego aumenta 4 a 5% ao ano, em média. As frotas de aviões duplicam de 15 em 15 anos. Diz o investigador: “Levando em conta este crescimento das frotas, a utilização do avião elétrico corresponderia  a uma melhoria de 90%  das emissões médias por passageiro/km em serviço em 2015″. Os motores elétricos e híbridos são a solução para os pequenos aparelhos, drones de entregas de encomendas ou jatos regionais até 100 passageiros, incluindo os taxis aéreos com descolagem vertical.  Todo este trabalho está a ser realizado e exige-se a interrelação de muitas disciplinas. E acrescenta: ” As tecnologias de rutura deviam estar acertadas até 7 anos”.

O outro exemplo leva-nos à abertura da época de ópera no Scala de Milão, hoje dia 7 de Dezembro, dia de Santo Ambrósio, patrono de Milão, (na véspera do Dia do Clima), com a ópera “Tosca”. A direção do Scala quis fazer uma sessão 100% ecológica.  Claro que não terá conseguido mas fez experiências corajosas: acabaram os bilhetes em papel (que os espectadores guardavam como recordação) substituindo-os por bilhetes eletrónicos; foram colocados receptáculos de reciclagem em todos os corredores; as luminárias da sala e de palco funcionaram a energia renovável. Só não conseguiram, claro, que as estrelas do canto viessem a pé, à vela ou em navetes elétricas. A diva russa Anna Netrebko, com um desempenho inesquecível apareceu em Milão de avião, claro.  Mas estas iniciativas são muito simbólicas,  e outros teatros e salas de espetáculos têm vindo a adotar os mesmos métodos. Valerá pouco mas, como sinal de compreensão por este candente problema, têm um significado importante.

Por todas as razões já expostas são muito pertinentes e importantes todas as manifestações  de apelo e de chamada de atenção, mas é também importante que se dê a conhecer tudo o que já se faz ou está programado em muitas  partes do mundo. Sem vergonhas e reconhecendo que as melhorias serão muito lentas até que as tecnologias possam ser alteradas de forma radical. Mas o problema vem dos donos energéticos do mundo (atrás mencionados) que não se cansarão de fornecer o seu petróleo até ao seu esgotamento.

 

 

2 pensamentos sobre “URGÊNCIA CLIMÁTICA

  1. O muito que se tem falado sobre o clima e as suas mudanças, quer-me parecer que ainda não chega. Talvez, as culpas não tenham ainda caído sobre os telhados fortificados de quem tem a maior culpa. Não me metendo em caminhos que desconheço, quer-me também parecer que a educação dos povos, tem passado ao de leve, não só pelos povos menos desenvolvidos, onde o consumismo é bem mais estreito, mas também bastante grave,mas pela falta de agressividade, no sentido de educar, consciencializar e encaminhar as sociedades mais desenvolvidas, para o problema da herança pesada,que todos nós vamos deixar aos netos e bisnetos. Referindo-me, particularmente a Portugal, um país igual a tantos outros, onde o desenvolvimento poderá ser considerado médio, com picos de avançado, e outros tantos de atrasado, verificamos que desde as praias, tão procuradas, até ao campo mais escondido, a poluição, é por vezes chocante, para um país que se preza por ser europeu. Os caneiros, os rios e ribeiros, as valas abertas, as estradas e recantos pitorescos deste país, bonito por natureza, se torna triste na paisagem obstruída, que rapidamente gostaríamos de esquecer. Falta de limpeza ou a fraca consciência de quem manda ou ainda por quem dele se serve ? Recordo-me, dos meus tempos mais jovens, quando havia cantoneiros das estradas, guarda rios e guardas florestais, que vigiavam a limpeza das matas, e as margens dos rios, incluindo os despejos poluentes. Pensemos, como a sua presença, fazia respeitar as normas, ainda que não muito gravosas, a um povo despreocupado dessas coisas, pela sua ignorância e seus costumes ancestrais …!
    Mas, finalmente, com a consequente mudança de clima, quem sabe, se os satélites , as largas centenas de corpos metálicos a girarem no Espaço, ao atravessarem o espectro magnético entre os Astros, não terão alguma influência sobre o seu equilíbrio, e no seu comportamento sobre a Terra, da mesma forma que a Lua faz, tão visível nas marés e nas simples plantações, como dizem os agricultores mais sabidos desses mistérios…?

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  2. Partilho, como todos os que não põe interesses financeiros à frente de tudo o resto, a preocupação pela salvaguarda da. vida na Terra. Sem nunca esquecer o bom senso.
    E lembro-me sempre das aulas de Química Geral do 1º ano do IST (1954-55) do Prof Magalhães Ilharco que dedicava um a boa parte das suas exposições à substituição do petróleo pelas energias renováveis. E, vergonha a posteriori, a malta achava aquilo um pouco lunático !
    Para amenizar a seriedade disto tudo, uma pergunta : O avião eléctrico sim, mas para quando o avião à vela ?

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