Crónica de Quarentena

Estou no meu terceiro (ou será quarto?… não sei…) dia de quarentena por causa do corona. De casa, da varanda do meu escritório, vejo, felizmente, uma paisagem muito bela que me repousa o espírito. Confesso que esta “cena” não me faz grande diferença. Não sou, nunca fui, assíduo frequentador de cafés ou centros comerciais e, portanto, vou continuando a fazer aquilo que me dá prazer: ler, ver a Netflix, claro…, estudar (sim, estudar… devagar, claro, só aquilo que me interessa), pintar a pastel (crayon, se preferirem), fazer coisas que, enfim, ao longo da vida ativa fui relegando para segundo plano. Quando escrevi “vida ativa” ia escrever “vida útil” mas, felizmente arrependi-me. Sei que o prazo de validade  já lá vai mas a “atividade” só terminará num dia com o qual não sonho nem, devo dizer, me preocupo sobremaneira. Já concluí, há muito tempo, que tenho ainda muita coisa por aprender e, por isso, vou olhando de volta e tentando entender o tanto que os dias me vão trazendo em abundância.

Por isso esta quarentena é, na realidade, um estágio de doutoramento num curso imaginário de “Teorias da Observação ou Contemplação” do qual retiro conhecimentos e me apercebo de factos surpreendentes.  Estão a ser tomadas as medidas que os responsáveis entendem mais adequadas. Por mim, sigo-as à risca, sem deixar de dar as minhas escapadelas para resolver o inadiável. Tenho apreciado o que outros países têm feito para ultrapassar as mesmas dificuldades e também, claro, as “doutas” opiniões que vamos ouvindo na TV enviezando os seus pareceres para não se pensar que leram todos pela mesma cartilha. Claro que me lembrei (e dei-me ao trabalho de conferir) da famosa “tirada” de Churchill ao dizer que “os americanos encontram sempre uma boa solução para um problema, depois de tentar todas as outras”. Que bem se aplica este pensamento à “navegação na plasticina” do inefável Trump!… As voltas que ele tem dado e negado a evidência são, realmente, de espantar o mundo. Agora decretou a abolição das viagens aéreas da Europa para os Estados Unidos, com exceção do Reino Unido e da Irlanda. Claro que o seu amigo BoJo tem à disposição, para os americanos que ainda andam pelo mundo, o seu Serviço Nacional de Saúde para fazer os testes do corona a preços muito mais vantajosos, quando comparados com os que se praticam nos Estados Unidos.

Mas isto da proibição dos vôos só funciona para a “vulgata popularucha” que anda sempre em económica ou em aviões “easy”, nos que quase obrigam a malta a ir de pé… O que interessa é salvar os super ricos, porque esses já esgotaram todos os aviões de aluguer disponíveis nas empresas internacionais de “renting”. E voam quando e para onde quiserem. Além disso, muitos deles, já contrataram, em diversos estados americanos, antigos “bunkers” de armazenamento de material de guerra para, agora, os transformarem em agradáveis ninhos de isolamento.  Sim, porque essa coisa do corona não é para super ricos…  Muitas empresas, em todos os países do mundo, já acordaram com os seus colaboradores o trabalho a partir de casa. Realmente, com o computador, grande parte do que se faz em escritório pode-se fazer em casa. E aproveitam e dão uma olhadela à criançada… Já em muitos países se começa a perguntar se, quando passar esta crise, essa gente estará interessada em regressar aos escritórios… Virá por aí, não nos iludamos, uma grande e alargada mudança nos hábitos das populações. Segundo os especialistas,  o mundo irá passar por uma longa e dolorosa crise sanitária e económica. Muita coisa pode e vai mudar. A minha geração viveu, na sua infância, as atribulações e privações dos racionamentos e das faltas de muita coisa, por causa da 2ª Grande Guerra. Mais tarde vivemos a “nossa” guerra. Longa, inútil e dolorosa. Nós e o mundo conseguimos resistir. Prevê-se que, desta vez, será o mesmo. Mas um audacioso economista francês arrisca dizer que  “para matar o vírus há que matar a economia para impedir o arrastamento da crise”.  Talvez tenha razão mas, sem dúvida, esperam-nos dias complicados. Dias aos quais se sucederão outros dias maravilhosos. É assim a natureza e a vida. Uma amiga minha publicou hoje uma foto lindíssima para exprimir, exatamente, essa nova floração da vida. Aqui a deixo.image_6018A887-3481-4126-A18E-6412AF985A4F.IMG_1418

Boa quarentena!!!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um pensamento sobre “Crónica de Quarentena

  1. Excelente texto. O que virá depois desta pandemia, que alterações provocará nas nossas vidas, as pertinentes interrogações que a prosa belissima do Manel Zé nos coloca.

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