Omelete Europeia

A atual crise do Covid19 tem trazido à tona de água muitas das deficiências dos sistemas em vigor por toda a parte do mundo. O que era adquirido, deixou de o ser. O que se podia fazer de uma única maneira, afinal parece haver outras maneiras de o fazer. Como será tudo daqui a uns tempos ninguém sabe bem. Até os mais “sábios” têm medo de arriscar. Mas parece que há uma coisa dada como certa: a necessidade de ajudas financeiras globais, entre países do mesmo continente ou de continentes diferentes, para que as economias não parem por completo e as populações deixem de poder sobreviver.

Toca-nos o caso da União Europeia, à qual pertencemos e da qual temos, apesar de tudo, obtido vantagens importantes. Mas a história recente da União não sido das mais felizes nem das mais consensuais. Países ricos e países pobres ainda não conseguiram arranjar o denominador comum do entendimento e da solidariedade. Sabemos bem o que se passou connosco na crise de 2008 e estamos agora a experimentar as mesmas hesitações por parte de alguns dos nossos parceiros. Em 2008 acusaram-nos de “gastar o dinheiro em meninas e vinho verde”, agora parece que há mais países com as mesmas necessidades…

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Desenho de Marques da Silva

Esta pequena introdução traz-me à memória a vida de um homem que não apreciava muito a Europa Unida e que desconfiava muito destas parcerias. Foi Charles de Gaulle, nos anos 60/70 do século passado.  De Gaulle teve um desempenho vibrante na França do pós-guerra. Depois de ter sido a figura central contra a França de Vichy, alinhada com a Alemanha, veio a governá-la apoiado pelo povo sem, no entanto, deixar de passar por crises muito difíceis. Como disse uma vez um dos seus primeiros-ministros, George Pompidou: “Os franceses são o mais ingovernável povo do mundo”. E talvez tivesse razão. De Gaulle manteve uma dura guerra com a Argélia à qual acabou por conceder a independência e sofrer, a seguir, a tremenda luta com os retornados, os “pieds-noirs”. Desenvolveu um arsenal apreciável de armas nucleares francesas para se libertar do poderio dos Estados Unidos e da GrãBretanha. Saiu da NATO mantendo-se, no entanto, na aliança ocidental. Não acreditava na União Europeia e dizia, com algum humor, que “a Europa devia ser como uma omelete e as omeletes não se fazem com ovos cozidos!”  E é bom que nos lembremos que vetou, por duas vezes, a entrada do Reino Unido na Comunidade  Europeia. Realmente cada vez se demonstra, com mais preocupação,  que esta omelete europeia não há maneira de se ligar. Talvez, como ele dizia, pelo facto de os “ovos estarem cozidos”.  O caso do Brexit ( tão esquecido neste momento) parece ter todos os sinais do “karma” que De Gaulle prenunciava. Para além da rocambolesta saída (anunciada) do Reino Unido da União verificamos, mais uma vez, que esta união não se consegue encontrar. Esta coisa da solidariedade financeira entre todos os países é coisa que alguns dos mais ricos vêem com maus olhos. Os outros lá vão fazendo a sua guerra (entre os quais Portugal) para ver se o espírito da União é, realmente, de união. Para que os outros poderes globais, como a América de Trump, a Rússia de Putin e a China de Xi, não acabem por dissolver este mundo de 500 milhões de almas onde os mais poderosos meios culturais, científicos, sociais e económicos souberam criar uma marca poderosíssima no mundo. Para que De Gaulle  não volte a ter razão com a “cozedura dos ovos”. Entendam-se e defendam-nos!

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