O Ritual da Renovação

Assisti hoje (imagine-se…) à cerimónia, quase litúrgica,  da sessão da Assembleia da República na qual se decidiria se a proposta do decreto do Presidente da República quanto ao prolongamento do estado de emergência, por causa do Covid19, seria ou não aprovada.

O país e o mundo atravessam um fenómeno sanitário a que os antigos (conforme estudámos nos manuais escolares) chamariam de praga. Uma praga lançada pelos deuses, como punição dos povos pecadores que conspurcavam o universo com os seus desmandos e incorrigíveis comportamentos. E morriam, morriam aos milhares, pecadores e inocentes no meio dos pecadores, morriam gritando loas aos deuses e salvando-se apenas aqueles que o rodopio da sorte decidia salvar. Para poderem contar como tudo tinha acontecido.

A pandemia de hoje em muito se assemelha às piores pragas já vividas pela humanidade. Estudámos no liceu as 10 pragas do Egito que, de acordo com os livros bíblicos do Êxodo, não passaram de castigos que o Deus de Israel infligiu ao Faraó do Egito para o convencer a libertar os escravos hebreus. E conseguiu. A ciência, no entanto, menos crédula nos deuses , tentou explicar que tudo fora causado pela explosão do vulcão  na ilha grega de Santorini.

Apareceu mais tarde a pandemia da peste negra ou bubónica que avassalou a Europa e a Ásia na chamada baixa Idade Média, atingindo com mais força a Europa nos anos de 1374 a 1351. Morreram, não se sabe bem, entre 75 a 200 milhões de pessoas, o que, à luz das estatísticas de hoje, seria uma barbaridade de “lesa-estatística”. Foi causada por um vírus, o “yersinia pestis”, que conseguiu mudar o mudo europeu, com as revoltas dos camponeses, a guerra dos cem anos e o declínio da cavalaria medieval. Nessa altura o mundo mudou, claro. Mas sobreviveu.

Agora, no século XXI, as pandemias também aparecem. Os meios para as combater são bem diferentes , claro. A Ciência ultrapassa-se para descobrir os meios próprios para o combate, porque nada se trata, agora, com crenças místicas nem  pedras filosofais. Trata-se de gente do nosso tempo que se confronta, pela primeira vez nas suas vidas, com um fenómeno tão alargado e fatal. Não que não tivessem já havido previsões de cientistas quanto a estes possíveis surtos mas, como é humano, julgamos sempre que isso será lá para a frente, muito depois de nós. Mas não foi, foi mesmo em cima.

E neste vórtice histórico os dirigentes políticos de todos os países são confrontados com a absoluta necessidade de gerir problemas que nunca tinham gerido, ou sonhado  gerir, para salvaguarda das suas sociedades e dos seus compatriotas. E essa gestão passa sobretudo,  por inspirar confiança aos seus concidadãos, baseando os seus procedimentos nos melhores conhecimentos científicos disponíveis. E, com essa confiança adquirida, as pessoas cumprem as determinações emanadas dos governos, mesmo que isso lhes custe um sofrimento acrescido.

Mas a efervescência política entre os partidos não se escamoteia com facilidade. Olhamos para muitos países espalhados pelo mundo e espantamo-nos com os procedimentos incompreensíveis da parte de dirigentes que deviam ligar muito mais ao que está  faltando muito nos tempos atuais: o bom senso.  E daqui regresso ao “ritual da renovação” do estado de emergência a que assisti hoje na Assembleia da República. Excluindo as declarações finais de cada um dos partidos e do governo, foi doloroso ouvir os pronuncionamentos de algumas “segundas filas partidárias” que, sabendo que a conclusão final seria a aprovação, se entretiveram, para esgotar os tempos regimentais, a dizer banalidades sem nexo, repetindo o que já tinha sido dito diversas vezes, dando, enfim, um espetáculo arrepiante e constrangedor para quem, como eu (para o que havia de me ter dado hoje…) se resignou a presencear a sessão litúrgica obrigatória. Ir a uma missa por respeito por crentes familiares e amigos é uma coisa; assistir ao desenrolar de medíocres baboseiras , é outra. Enfim, salvaram-se as declarações finais. Foi assim como na missa, o “Ite, missa est” que a todos libertou. Até a eles próprios.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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