CONVERSAS IMAGINÁRIAS

Começamos hoje uma nova rubrica do nosso blogue: Conversas Imaginárias. Continuando com os textos habituais que, sem periodicidade definida, vamos publicando, e com as Conversas/Entrevistas mensais que temos vindo a apresentar (já apareceram as de Dezembro, Janeiro, Fevereiro e Março), vamos agora iniciar uma rubrica de Conversas Imaginárias, todas elas com figuras já desaparecidas do mundo dos vivos. Enquanto que as Conversas mensais pretendem dar a conhecer pessoas nossas amigas,  interessantes, com muitas  coisas para dizer em diversas áreas do conhecimento (e julgamos que têm sido apreciadas, levando em conta o número de visitantes do blogue), lembrámo-nos agora de fazer estas conversas imaginárias, sem periodicidade obrigatória, com figuras de conhecimento geral, já desaparecidas, mas que talvez não deixe de ser interessante relembrá-las (ou mesmo dá-las a conhecer aos mais novos que porventura não tenham tido oportunidade de falar sobre elas). Será uma forma de, revendo-nos no passado, tirarmos, eventualmente,  algumas ilações para o futuro. A ideia não é original. Já temos visto em teatro personagens famosas, de épocas muito distantes, dialogarem entre si, com os argumentos próprios de cada  um deles, ligados aos tempos vividos por cada um. O resultado foi muito engraçado e exigiu, a quem os produziu, uma análise detalhada de cada um dos personagens. Claro que as perguntas são sempre criteriosamente escolhidas e as respostas são sempre dadas pelo autor das perguntas, imaginando, no entanto, aquilo que o “entrevistado” responderia se estivesse, realmente, ao pé de nós. É um jogo arriscado e que merece muita atenção para não afetar a personalidade com quem,  ou melhor, de quem estamos a falar.

Levando em conta a data de hoje (25 de Abril) ocorreu-me começar a rubrica com uma curta “conversa” com uma figura destacada do 25 de Abril de 1974 que tive oportunidade de conhecer pessoalmente: o Almirante José Pinheiro de Azevedo, falecido a 10 de Agosto de 1983.  Vamos, então, à conversa (P significará Pergunta; PA significará Pinheiro de Azevedo).

image_7179B96F-735F-45C5-B887-DEFE3BD83F1C.IMG_1442

P – Caro Almirante, permita-me tratá-lo assim… Fui seu aluno na Escola Naval, em 1956/1957… Tratava-nos a todos por tu… Não sei se se lembra de nós?

PA – Claro que me lembro, fui vosso professor de Navegação, do Curso D. Duarte de Almeida. Tanto quanto me lembro vocês não eram maus mas depois, na vida naval, não me encontrei com muitos de vocês. Contigo sei bem porquê, mas com alguns dos outros foram os acasos da vida.

P – Tanto quanto sei nasceu em Luanda. Como foi a seu percurso juvenil?

PA – Sim, nasci em Luanda, em 1917, mas os meus pais eram de cá, de Viseu e Braga. Depois do liceu em Luanda, entrei para a Escola Naval em 1934 e cheguei a oficial em 1937. Depois de andar pelos navios, draga-minas e patrulhas, fui para a Escola Naval dar aulas de Astronomia e Navegação, no período em que os vossos cursos por lá passaram. Dei aulas também na Escola Náutica Infante D. Henrique.

P – Parece que o ex-Presidente do Sporting, Bruno de Carvalho, é seu sobrinho-neto. É verdade?

PA – É verdade. Ele é neto do meu irmão, o escritor Eduardo Baptista Pinheiro de Azevedo. Mas, se queres que te diga, prefiro não falar dele. O gajo era espertalhaço mas deu-lhe para a maluqueira.

P – A sua atividade política começou cedo e conciliou-a, tanto quanto sei, com a vida naval. Como foi isso?

PA – Sim, inscrevi-me no MUD (Movimento de Unidade Democrática) e fui apoiante das candidaturas de Norton de Matos , Quintão Meireles e Humberto Delgado. Depois dessas aventuras fui despachado para a Defesa Marítima de Angola, concretamente na defesa marítima de Santo António do Zaire, até 1967. Depois deram-me um lugarzinho de compensação como adido naval à Embaixada de Portugal em Londres, até 1971. Entretanto, em 1970, fui promovido a capitão- de-mar-e-guerra.  Em 1972 fui nomeado comandante dos Fuzileiros.

P – Anos mais tarde um oficial do meu curso também esteve como adido naval em Londres … Mas depois veio a sua política a sério…

PA – Depois do 25 de Abril fui nomeado para a Junta de Salvação Nacional e, três dias depois, fui para Chefe do Estado Maior da Armada.

P – Mas a coisa complicou-se muito a partir daí…

PA – Não só se complicou como tudo aquilo era um grande granel… Ninguém se entendia muito bem e às vezes tinha que dar uns “porras”… Com era meu costume… Para acabar com o Gonçalvismo tive que ficar como Primeiro-Ministro do VI Governo Provisório, a partir de 29 de Agosto de 1975. Foi nesse período que se deram as grandes manifestações, como a do Terreiro do Paço, onde os comunistas atiraram uma bomba de gás lacrimogéneo.

P – Sim, lembro-me, eu estava nessa manifestação com parte da família e lembro-me também dos seus apelos de : “O povo é sereno! O povo é sereno! É só fumaça!”

PA – Pois foi, foi uma grande balbúrdia mas acabou tudo mais ou menos bem. Foi mais chato quando mandei rebentar com a Rádio Renascença, como já tinha sido quando o movimento operário nos sequestrou no Parlamento, a mim e aos outros deputados. Foi o COPCON que nos safou…

P – Lembro-me também da sua famosa frase à saída: “Fui sequestrado. Já duas vezes. É uma coisa que me chateia. Eh pá, vou almoçar!” Foi assim?

PA – Tal e qual, estava chateado com aquilo tudo e apetecia-me dar porrada em alguém…

P – E depois as presidenciais…

PA – Sim, em 1976 candidatei-me à Presidência da República, sem apoios partidários. Ganhou o Ramalho Eanes, com 62%. Eu fiquei em terceiro com 14%. Em segundo lugar ficou o Otelo.  Depois dessas aventuras fui Presidente do Partido da Democracia Cristã que tinha sido fundado pelo Sanches Osório.

P – E depois de todas essas tropelias ficou conhecido pelo Almirante Sem Medo. De quem, na Marinha, guarda melhores recordações?

PA – Pelo envolvimento que tivemos, naturalmente, o Vitor Crespo e o Silva Horta. Acho que o Horta foi teu comandante na Sagres…

P – Sim, na Sagres velha, e foi de lá que saí, de improviso para ir para a Índia.

PA – Ainda bem que essa coisa se compôs…

P – Não como eu gostaria mas, enfim, a vida já resolveu tudo. Não o quero maçar mais. Muito obrigado por toda esta conversa que será, segundo julgo, interessante para muitos dos que a vão ler. Deixe-me despedir-me com um abraço.

PA – Obrigado pela conversa.

 

Nota de rodapé:

O Almirante Pinheiro de Azevedo foi feito Oficial e Comendador da Ordem Militar de São Bento de Avis. Em 1985 foi agraciado, a título póstumo, com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade. Tem uma Rua com o seu nome em Lagos e uma Rotunda, também com o seu nome, em Lisboa, na freguesia de Santa Clara.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Deixe um comentário

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s