FRONTEIRA E MEMÓRIA

Lembrar-se-ão, os que nos acompanham, da nossa última conversa/entrevista, com data de 25 de Abril, em que tivemos o gosto de falar com o nosso amigo engº silvicultor, João Bugalho, cujas importantes e atuais variantes de vida têm a ver com tudo o que são artes: pintura, música, poesia, prosa, em resumo, divulgação cultural. Filho e irmão de poetas consagrados confessou que a sua menos exaltante competência seria, em sua opinião, a prosa, a escrita. Achava-se com limitações nesse domínio. Mas, por artes “divinatórias”, conseguimos obter um texto seu, de 2007, que contradiz a sua própria confissão. O nosso amigo apresenta-se, principalmente, como pintor e, para uma exposição que fez de obras suas em Cáceres, escreveu um prefácio que não resistimos a transcrever  (com a sua indispensável autorização, claro). O pequeno rio Sever faz fronteira entre a sua terra, Castelo de Vide, e as terras de Espanha, e as paisagens que envolvem a região são de uma beleza muito especial sobre as quais o nosso amigo pintor decidiu escrever umas linhas para apresentação da sua exposição. É esse texto que tenho o prazer de vos apresentar:

FRONTEIRA E A MEMÓRIA

Sever, fronteira da minha memória.  / Rio que separa e une duas margens. / Eterno contrabandista. / Tranquilo, bravo, solitário, na paisagem dura de xisto, quase desabitada. / Rio que seca e deixa apenas pegos onde se retempera e refresca a bicharada. / Sombras sadias de amieiros e choupos, seixos soltos, margens tranquilas. / Memórias das tardes quentes que refrescávamos com uma talhada de melancia, sob o laranja intenso do antepôr do sol. / Com pó e suor na pele mas uma sensação de bem estar, sensual, inesquecível. / Ainda hoje revisitada./ Como o canto apelativo dos abelharucos, voando por cima. / Luz do fim da tarde que foi abrazadora, luz inseparável dos sons vagos dos chocalhos de um rebanho quase perdido na distância. /  Bravura agreste do rio, correndo no próprio leito de pedra, por si talhada. / Silêncio estival, apenas rasgado pelo vôo azul do guarda-rios, de onde em quando pontuado pelo triste e escasso piar da cotovia. / Peso do calor que nos faz buscar a quietude e o silêncio na protecção da sombra. / Que acalma./ Mas que nos força a contemplar. / A sentirmo-nos ínfimos na imensidão do espaço. / Serras distantes, onde se espraiam laivos laranja-azulados de poentes que fazem ressaltar os brancos casarios. / Austeros./ Às vezes sós, sombrios. / Mas que, uma vez dentro, se nos revelam e nos acolhem. / Que nos desvendam, nos recantos e nos páteos, os seus mais antigos e íntimos segredos. / Até mesmo as suas gentes. / Envoltos em planuras infindas, cortadas por escassas retas de muros, intermináveis… / Vagamente cobertas de restolho amarelecido, queimado pelo sol. / Ou alqueives, de pó vermelho e seco, tingindo o horizonte. / Com danças de sobreiros sobre a paisagem. / Ou linhas e linhas de colinas sedentas, como corpos de mulher. / Céus sempre diferentes, carregados de imagens ditadas por nuvens, imparáveis, brancas, sépias, às vezes cinzento-chumbo quase negras, de ameaçadoras trovoadas. / Além dos infinitos espaços, apenas a ímpar, indescritível solidão da azinheira. / Cujo tronco, revelando a cicatriz do tempo, é a própria resistência. / A vida. / Sever memória, fronteira, esperança. / Sever, de contrabando e de partida.

Castelo de Vide, Setembro de 2007.  /.  João Filipe Bugalho

 

Aqui têm um texto que pode ser lido como prosa ou poesia. É essa a sua magia. Fica, não como memória futura, mas como memória passada, para que o seu autor não negue a sua indeclinável vocação para a escrita. E, pela sua leitura, ficamos com a certeza onde o pintor foi buscar os temas essenciais das suas telas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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