Normandia, 6 de Junho

Não dei conta de se ter falado deste dia, nos nossos jornais. Talvez, mais preocupados com a pandemia que nos ameaça ainda todos os dias., Um 6 de Junho, cada vez mais distante, para quem não viveu nesses tempos, ainda que distante dessa grande tormenta que assolou toda a Europa, deixando-a de rastos, por penosos anos de uma guerra, hoje, tão difícil de descrever. Nós por cá, íamos andando, cantando e rindo, ao som de um tambor, que marcava os passos, de um desenvolvimento retardado pela conjuntura nacional, interrompido, por vezes, por notícias de última hora, sobre a aproximação do fim da guerra. O que pode parecer, um garoto de dez anos, ainda não completos, lembrar-se desses dias, tão longe desse teatro de guerra, mais preocupado com a falta de açúcar na caneca do café da manhã e a fila para o pão racionado ? Das conversas preocupantes, em casa, sobre os acontecimentos do dia e das ameaças de invasões. Das tiras de papel coladas aos vidros para diminuir o perigo de estilhaços. Dos faróis pintados de azul, num black out, para não serem detectados pela aviação, e o racionamento por senhas de vários artigos de mercearia ?

Eram raríssimas as vezes, quando íamos ao cinema, que não nos surpreendêssemos com os noticiários da Fox Movietone News, entre outras, e a evolução da guerra, em contraste com o desenvolvimento do nível de vida norte americano, apesar de duas grandes frentes de combate…! O contraste com os nossos costumes, no uso de fatos de banho completos, tapando o peito, segundo as regras da decência…! O noticiário da BBC, com a voz de Fernando Pessa, sempre com a sua entoação britânica, e um h aspirado, quando se referia a Hitler, dava-nos a satisfação de um final de guerra que se aproximava.


Um 6 de Junho, que nunca mais saiu do pensamento e me levou a visitar toda aquela costa, reinventando os momentos de generosidade, escritos com sangue jovem, naquelas longas praias de areia branca. Arromanches, passou a ser um local de peregrinação de avós, pais e filhos, de todas as idades, para sentir as histórias dos seus, que na sua maioria, tinham sonhado, não voltar a ouvir falar em guerras e destruição.

Preocupante, a ignorância e a falta de memoria. Preocupante, a forma como o mundo está, de novo, a querer desenhar-se, sem soluções fáceis, pela ganância e teimosia.

3 pensamentos sobre “Normandia, 6 de Junho

  1. Também me lembro dos adesivos nas janelas, das senhas de racionamento e dos automóveis movidos a gasogénio, por não haver gasolina. Tempos horríveis para muitos povos, mas também difíceis para Portugal

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  2. Algo que nunca esqueci ! Meu pai fêz toda a Guerra de 14 , e nós , os filhos , nesses dias tínhamos por ele grande respeito ,que ele adorava sentir . Obrigado Rui , por te teres lembrado !

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