VIDA DE PROFESSOR

Desde sempre que estamos habituados, no início das épocas letivas, a vermos e ouvirmos as queixas, muitas vezes razoáveis,  de professores que, por todo o país, se deslocam para locais afastados das suas residências  habituais, onde são colocados para os seus desempenhos profissionais. São situações ingratas, sem dúvida, mas que os métodos oficiais de colocações têm dificuldade em alterar e encontrar melhores soluções. É assim em muitos países como o nosso, em que os sistemas oficiais de ensino se têm que reger por processos que garantam o máximo de justiça e equidade, respeitando, naturalmente, os casos excecionais.  Aliado a esse desagradável desconforto do afastamento há sempre a pesada missão de se ser professor. Ser professor, médico ou enfermeiro são missões de enorme responsabilidade social cujos desempenhos nunca têm a justa compensação a que, por sentimento, deviam aspirar. Há muito de sentido de entrega e de dávida nessas profissões . Os professores lidam com a matéria mais importante de qualquer país: a sua juventude. A educação, o ensino, a cultura são a essência do desenvolvimento dos países, são a matéria prima mais valiosa de que se dispõe para transformar um pequeno ou pobre país numa entidade respeitada, valiosa, capaz para dialogar e conviver com um mundo cada vez mais exigente,  que já é e que continuará a ser. Daí que a missão de um bom professor nunca possa ser devidamente recompensada. Só em termos de realização pessoal e moral. Os bons professores (que o são na sua grande maioria, e conheço muitos) deixam, nas suas esteiras de vidas, lastros de humanidade e, sem dúvida, de reconhecimento. Qual de nós não guarda na memória as figuras dos seus grandes mestres e professores? Lembramo-nos das suas imagens, das suas virtudes, até de alguns dos seus defeitos que sempre empalideciam à luz das virtudes que diariamente nos transmitiam. O bom professor é um ser ecuménico que consegue dar sempre mais do que aquilo que recebeu. E fá-lo com dignidade.

Mas esta apreciação  não nos isenta de reconhecer a vida de um professor  quase como um pontificado, com enormes dificuldades e com carreiras que, no fim das suas vidas profissionais, poderiam bem dar enciclopédias de sofrer e bem fazer. Portanto, quando os professores reclamam,  eles merecem atenção, muitas vezes não para transformar o cerne das suas vidas mas para reconhecermos quem zela pelos jovens e pela humanidade crescente no país. É aí que se situa a missão do professor, tantas vezes esquecida ou ignorada. Vou dar-vos um exemplo real de um grande professor que conheço que, no fim da sua carreira docente pelos mais variados pontos do país, ainda recorda os excelentes momentos  dessa sua carreira. E diz muitas vezes, jocosamente, que levou uma vida de “caixeiro viajante”. E eu dou-lhe razão . Senão vejam:

  • Licenciou-se em História e Filosofia em 1959, em Lisboa,  depois de um brilhante percurso liceal.
  • Até 1960 foi professor eventual no Liceu de Santarém
  • Em 1961, professor eventual no Liceu da Horta (Açores)
  • Em 1961, de novo professor eventual em Santarém
  • De 1962 até finais de 1963, professor de Psicologia na Escola do Magistério Primário em Viseu
  • No final de 1963 foi professor eventual no Liceu de Lamego
  • Em 1964 e 1965, professor estagiário no Liceu D. João III (Coimbra)
  • Em 1965 e 1966, professor agregado no Liceu de Aveiro
  • Em 1966 e 1967, professor auxiliar no Liceu Padre António Vieira em Lisboa
  • 1967 e 1968, professor efetivo no Liceu da Horta (Açores)
  • 1968 e 1969, professor efetivo no Liceu do Funchal (Madeira)
  • Em 1969 e 1970 foi professor em serviço na Inspeção do Ensino Liceal, em Lisboa
  • Em 1970 e 1971 foi professor metodólogo de História no Liceu Pedro Nunes, Lisboa
  • De 1971 até Julho de 1972 foi Chefe da Divisão de Programas e Métodos da Direção Geral do Ensino Secundário em Lisboa (como consultor contratado)
  • Até Julho de 1975 foi efetivamente Chefe da Divisão de Programas e Métodos da Direção Geral do Ensino Secundário
  • De De Julho de 1975 até Janeiro de 1977 foi Diretor  do Serviço de Estudos do Gabinete de Estudos e Planeamento do Ministério da Educação em Lisboa
  • De Janeiro a Abril de 1977 foi professor efetivo no Liceu D. Filipa de Lencastre, em Lisboa
  • DE 1977 a a Julho de 1979 foi Assistente convidado na Universidade do Minho (Braga)
  • Em 1978 e 1979 foi Bolseiro do British Council, primeiro em Reading e a seguir Londres (Reino Unido)
  • Em 1979 e 1980 prestou serviço no Instituto de Tecnologia Educativa, Lisboa
  • De 1980 a 1982, em serviço no Instituto de Tecnologia Educativa e na Direção Geral do Ensino Secundário, em Lisboa
  • De 1982 até Fevereiro de 1983 foi Assessor do Secretário de Estado da Educação, em Lisboa e, a seguir, membro da Comissão Instaladora da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Faro (Faro)
  • De 1983 a Janeiro de 1989 continuou membro da Comissão Instaladora  da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Faro
  • Entre 2 de Setembro e 13 de Dezembro de 1984 esteve como bolseiro em Boulder, nos E. Unidos e até Maio de 1992 como bolseiro na Universidade de Iowa
  • Em 1992 e 1993 foi Professor Coordenador da ESE – Escola Superior de Educação em Faro
  • Em Julho de 1993 foi professor Associado (convidado) na Universidade do Minho, em Braga
  • De Professor Associado passou a Professor Catedrático até 2007

Este Professor sobreviveu, felizmente,  a tudo isto… e vive agora em Lisboa gozando o seu merecido descanso.

Aos escrever estas linhas fiquei exausto. Como terá ele ficado ao longo  desta vida de “caixeiro viajante”, como  ele diz? É um exemplo entre muitos que todos nós podemos citar  mas estas linhas servem apenas, para além do reconhecimento que lhes está inerente, lembrar aos mais novos, agora chegados, que esta tormenta não começou agora. Vem de séculos e a ela subjaz um indispensável espírito de entrega, de sabedoria, de tolerância, de respeito geracional que é pago, no fundo e apenas, pelo sucesso das novas gerações. É, realmente, dura a vida de um Professor.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2 pensamentos sobre “VIDA DE PROFESSOR

  1. Um belíssimo curriculum…! Conheço, por contactos familiares, o que é a vida de professor. Hoje, falamos muito de médicos e enfermeiros, e com razão, ,esquecendo-nos o quanto sofre um professor, durante a sua vida profissional, apesar da sua predisposição, para levar cultura, até às aldeias mais escondidas do país. Recordo, carinhosamente, uma tia minha, professora primária, talvez a mais sacrificada, nos tempos difíceis do analfabetismo, ter que apanhar a camioneta de carreira ( era assim que se chamava ), até ao desvio para a aldeia, e seguir, à boleia, sentada num carro de bois, até à escola , mesmo que fizesse Sol ou chuva, regressando a casa pelo mesmo sistema. Toda aquela aldeia, sabia ler e escrever, devolvendo-lhe sempre uma grande estima e respeito…!.

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