BICICLETAS E TROTINETAS

Aprendi a andar de bicicleta em miúdo, não me lembro bem da idade, na Figueira da Foz, onde ia passar algumas férias com os meus pais. Lembro-me bem do meu pai a correr atrás de mim, mão agarrada ao selim, para evitar as inevitáveis quedas de principiante. Não havia ainda as famosas bicicletas com rodinhas atrás que permitiam muito mais desembaraço a quem se iniciava. Passei para uma segunda fase de aprendizagem em que a minha mãe me acompanhava numa outra bicicleta. Não sei onde e como ela tinha aprendido (suponho que foi autodidata) o que também não a poupou a uma pequena queda que lhe deixou um golpe na bochecha esquerda. Coisa que se resolveu bem mas cuja cicatriz guardou com orgulho durante toda a vida. Coisa muito leve mas que valia como medalha de mérito. E dessa forma lá aprendi a utilizar a “máquina ” com a mediana agilidade que me acompanhou toda a vida. Acabei por fazer o mesmo com os meus filhos, corri que me fartei atrás deles o que sempre desculpava um gin bem geladinho… Nunca me profissionalizei nessa modalidade, reservei-a apenas para o lazer, mas gostei e gosto de ver os pelotões nas estradas a “comerem” quilómetros de forma desmedida. Nessa minha longínqua infância tive também, na mesma praia, as primeiras aulas de natação. Lembro-me de uns montes de areia, sobre os quais nos deitávamos de barriga para baixo e simulávamos os movimentos da natação. Ao fim de vinte minutos o banheiro, vestido de sueste amarelo , levava-nos até ao mar e, com as suas gigantescas manápulas nas nossas caras, mergulhava-nos nas ondas geladas. Claro que não foi aí que aprendi a nadar. Só mais tarde, passados uns anos, me obriguei a essa missão na qual vim a cometer algumas proezas interessantes. Ainda hoje não me dispenso de dar umas vigorosas braçadas para surpresa de alguns “mirones”…

Pouco tempo depois da bicicleta vivi uma outra empolgante época desportiva: a da trotineta. Vivia , na altura, num local privilegiado pela natureza, praticamente no meio de uma mata densa de pinheiros, medronheiros e eucaliptos. No fim de uma época liceal bem sucedida, o meu pai, que não era de grandes prendas para premiar obrigações, resolveu oferecer-me uma trotineta. Era linda! De madeira clara e rodas com proteções de borracha. Nas azinhagas e nos labirínticos atalhos da tal mata em que passava as tardes, adestrei-me no domínio da “máquina” e passei a classificar-me de “mestre”. Os anos passaram e a trotineta, como muitas coisas da infância, desapareceu.

Durante a vida acompanhei, como já disse, as epopeias dos nossos ciclistas e de alguns famosos estrangeiros. Para mim tudo culminou com o inesquecível Joaquim Agostinho, esse “monstro” de Torres Vedras, que chegou ao Sporting à experiência e, no primeiro dia, bateu os já profissionais com meia pista de avanço. Depois disso, confesso, limito-me a ver passar os antigamente chamados “forcados da estrada” e esperar que a ética desportiva não os abandone.

Reencontrei-me, imagine-se, com a minha especialidade da trotineta na Aldeia Olímpica de Sydney 2000. Cada Missão tinha um dispositivo desses para deslocações curtas. Eram compactas, robustas e muito manobráveis. Fiz boa figura, como se calcula.

Toda esta introdução vem a propósito da nossa (minha) Lisboa. Há agora umas faixas verdes, lindas, para uso exclusivo de bicicletas e, segundo se diz, também para as trotinetas. Um dia destes ia eu, ser quase medieval, no meu carro e fui atropelado por uma trotineta. O jovem dizia que eu o tinha atropelado mas eu ia bem, semáforo verde, e ele no meio da rua, como compete a um ser “descarbonizado”. Separámo-nos com amizade sem concluirmos sobre as nossas razões. Lisboa está a transformar-se para melhor. Qualquer dia serei só eu e muito poucos mais a poluir a cidade. O meu carro não é elétrico e qualquer dia sou algemado. Claro que estou a brincar mas acho que estes progressos devem ser acompanhados de previsões para o futuro. Não há muito tempo estive em Copenhaga, a capital daquele país que tem por nós um sentimento de tolerância “luterana” que vê, na rapaziada do sul, como nós, uns consumidores das antigas tangas e flechas envenenadas. Ao passear na cidade deles vi passeios para peões pelos quais nem eu nem eles conseguíamos passar. As bicicletas abandonadas atulhavam-se em montes sem descrição, além de abandonadas, danificadas e sem perspetiva de reparação. Como oriundo de um país historicamente católico e desmazelado no tratamento dos seus bens, perguntei a razão de tudo aquilo. Consegui perceber a insatisfação e o desgosto que perpassam por aquela sociedade, ao assistirem à degradação humilhante do seu ambiente urbano sem que as autoridades tivessem apresentado soluções plausíveis (até àquela data). Digo-o, sem acinte, achei a cidade e tudo aquilo detestáveis.

Espero que a nossa Lisboa caminhe num sentido muito mais acautelado, de forma a evitar o desmazelo urbano que nos entristece e nos humilha (já bem bastam os grafites selvagens, imundos e descontrolados) . Lisboa será no futuro uma cidade menos poluída, mais amiga do ambiente, com menos automóveis e mais ciclovias bem harmonizadas. E que as trotinetas sejam bem regulamentadas.

2 pensamentos sobre “BICICLETAS E TROTINETAS

  1. AS minhas relações com a bicicleta foram iguais às do Manuel José. Só que hoje já não me dá prazer andar de bicicleta, embora tenha há anos uma bicicleta estática em casa : para fazer exercício prefiro andar a pé.
    Partilho a preocupação com o uso das trotinetes, pois ja vejo muitas caídas e abandonadas em certos pontos de Lisboa.

    .

    Liked by 1 person

  2. Que expressão poderei utilizar, para lembrar aqueles tempos ? Talvez, extraordinário, o sonho de ter uma bicicleta…! A simplicidade, que na idade de jovem, parece ser uma coisa transcendente, e ultrapassava de longe, o desejo anterior de ter um comboio de corda. Ainda por cima, na Figueira da Foz, onde também aprendi a esfolar os joelhos e os cotovelos…! Naquela Figueira da Foz, ainda de areal estreito, com rochas e pequenas lagoas, onde podíamos mergulhar, sem a ajuda daqueles Adamastores horripilentos…! Os cobres que sobravam do aluguer, e nos dava para comprar uma pequena medida de ” Camarinhas “, hoje em extinção, que algumas vendedeiras, vendiam junto do mercado…!

    Liked by 1 person

Deixe um comentário

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s