Conversas Imaginárias – 6

Tem hoje lugar a nossa 6ª Conversa Imaginária, depois de termos trocado impressões com o Barão Pierre de Coubertin há umas semanas.

Desta vez escolhemos uma mulher famosa, portuguesa, que desempenhou papéis e missões importantes no seu tempo. Trata-se de Maria de Lourdes Pintasilgo, a única mulher a desempenhar o cargo de Primeiro – Ministro em Portugal, chefiando o V governo constitucional,  de Julho de 1979 a Janeiro de 1980. Mesmo a nível europeu foi a segunda primeira-ministra em exercício, dois meses depois de Margaret Tatcher ter tomado posse no Reino Unido. Foram tempos conturbados em Portugal, os que se seguiram à revolução de 25 de Abril de 1974 em que os equilíbrios entre partidos, militares e forças civis eram difíceis. Com a sensatez que sempre se procurou encontrar nessa fase tão especial da vida portuguesa, a personalidade de Maria de Lourdes Pintassilgo inspirou seriedade e alguma segurança aos políticos e partidos que viriam a dar forma e seguimento à vida democrática portuguesa.

Maria de Lourdes Pintasilgo nasceu em 1930, em Abrantes, e veio a licenciar-se em Engenharia Química-Industrial. Católica praticante foi dirigente eclesial e veio a presidir à Juventude Universitária Católica Feminina e, mais tarde, eleita por aclamação para o cargo de Presidente Internacional da Pax Romana – Movimento Internacional de Estudantes Católicos (de 1956 a 58).

A sua vida política e profissional foi sempre fulgurante e agitada, o que nos dá bons pretextos para mantermos uma proveitosa conversa com esta importante figura dos nossos tempos mais recentes.  Talvez não tenha o reconhecimento que lhe  image_38290F7D-5448-404C-9434-A1220429B941.IMG_1466  é devido por parte das gerações atuais mas estou certo que valerá muito a pena  conversarmos com ela. As nossas perguntas, como de costume, serão indicadas por um P e as respostas, desta vez, serão indicadas por MLP.

 

P  –  Durante esta nossa conversa vou tratá-la, se achar bem, por senhora engenheira. Está de acordo?

MLP  –  Estou de acordo, claro, mas pode tratar-me por Maria de Lourdes… não me importo nada.

P  –  Ficamos então pelo “srª engenheira”. Sinto-me melhor.  Nasceu em Abrantes, em 1930, e o seu nome completo, relembrei há pouco tempo, é Maria de Lourdes Ruivo da Silva de  Matos Pintasilgo . É assim?…

MLP  –  Tal e qual…

P  –  E começo por aqui porque também confirmei, há pouco tempo, que é prima de uma grande amiga minha, a Maria Amélia Soares Baptista…

MLP  –  Ah, sim, claro… Não sabia que era amigo da Maria Amélia. Eu sou filha de uma irmã do pai da Maria Amélia, o João, que também se chamava Amélia. Sou prima direita da Maria Amélia. Que coincidência…

P  – O seu tio, João Ruivo da Silva, foi o melhor amigo do meu pai e eu, desde miudo, convivi muito com a Maria Amélia e com a irmã, a Gina. A Maria Amélia falava-me muito de si, das suas capacidades intelectuais mas, confesso,  não me lembro se alguma vez me disse que era sua prima. Mas agora tenho falado de si com elas, com a filha e a neta, que me têm recordado coisas curiosas da vossa relação. Perdoe-me esta abordagem mais íntima mas que, para mim, não deixa de ser interessante. Mas vamos, agora, a uma pergunta mais direta: nascida em Abrantes, filha de pai republicano e de mãe familiarmente mais tolerante, veio para Lisboa em 1937 e cá começou os seus estudos. Foi assim?

MLP  –  Tal e qual. Fiz a instrução primária  no Colégio Garrett, na Av. Almirante Reis e o liceu no Filipa de Lencastre que acabei em 1947.

P  –  Parece que com grandes notas…

MLP  –  Não foram más… Fui a melhor aluna do Liceu e em dois anos consecutivos tive o Prémio Nacional.

P  –  Bem me parecia… A sua prima tinha razão… Depois foi para o Técnico…

MLP  –  Sim, tirei o curso de Engenharia Químico-Industrial que terminei aos 23 anos. No meu curso eram 250 alunos e só 3 éramos mulheres…

P  –  Isso conduz-me a outra pergunta que lhe queria fazer. Sendo filha de pais não praticantes como se tornou uma crente relevante e, além disso, forte defensora da igualdade de género?

MLP  –  Enquanto estudante,  a vida  proporcionou-me amizades e ligações em que sempre me envolvi com denodo, como,  aliás, fazia com tudo em que acreditava. De 1952 a 56 presidi à Juventude Universitária Católica Feminina para ser, de 56 a 58, Presidente Internacional da Pax Romana – Movimento Internacional de Estudantes Católicos. A partir daí foram acontecendo coisas às quais sempre aderi sem nunca recusar cargos. Fundei em Portugal, com a Teresa Clara Gomes, o movimento internacional Graal. Fui designada, pelo Papa Paulo VI, representante da Igreja Católica num grupo de ligação ecuménica com o ConselhoMundial das Igrejas, de 1966 a 1970. Sempre me interessei pelos Direitos das Mulheres e presidi, em 2003, à Comissão para a Igualdade e os Direitos das Mulheres.

P  –  Bom, o seu percurso no associativismo católico já era conhecido e fica aqui, embora resumido, o enorme papel que desempenhou nessa área. Fico com a ideia de que a influência materna terá sido a génese do seu interesse pela defesa dos direitos das mulheres…  Mas agora interessava-me saber como se iniciou a sua carreira profissional.

MLP  –  Tem razão, lembrei muitas vezes as afirmações da minha mãe nesse domínio. Mas fui sempre compatibilizando a vida profissional com as minhas atividades associativas. Em Setembro de 1953 entrei como investigadora para a Junta de Energia Nuclear, como bolseira do Instituto de Alta Cultura. Em 1954 fui nomeada chefe de serviço no Departamento de Investigação e Desenvolvimento da CUF que aceitou, pela primeira vez, uma mulher nos seus quadros técnicos superiores. Em 1960 fui nomeada diretora de projetos no Departamento de Estudos e Projetos da CUF.

P  –  Bom, isso é um curriculum brilhante…  E explique-me agora a sua entrada na política.

MLP  –  Foi em Novembro de 1969 que recebi um convite que, pela primeira vez na minha vida, recusei: o Professor Marcelo Caetano, Presidente do Conselho, convidou-me para integrar a lista de deputados à Assembleia Nacional. Mas não perdi com a demora porque fui designada procuradora à Câmara Corporativa nas suas duas últimas legislaturas, de 1969 a 1974. Também desde Maio de 1970 a Setembro de 1973 fui consultora do Secretário de Estado do Trabalho e Previdência. Presidi ao Grupo de Trabalho para a Participação da Mulher na Vida Económica e Social e integrei a Delegação Portuguesa à Assembleia Geral da ONU, com diversas intervenções sobre a liberdade dos povos, a condição feminina e a liberdade religiosa.

P  –  Bem, isso foi tudo antes do 25 de Abril. E depois?

MLP  –  Fui Secretária de Estado da Segurança Social no I Governo Provisório e Ministra dos Assuntos Sociais nos II e III Governos Provisórios. Em Agosto de 1975 fui nomeada embaixadora junto das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura o que me levou a diversas participações em todo o mundo relacionadas com essas áreas.

P  — Isso é realmente uma descrição fantástica e … digamos… quase esgotante… Mas e depois, na área propriamente política?… Sabe que já tive uma conversa destas com o Almirante Pinheiro de Azevedo, com quem deve ter convivido…

MLP  –  Sim, sim… Era temperamental mas muito boa pessoa. Fui amiga dele. A 19 de Julho de 1979 fui indigitada pelo Presidente da República, António Ramalho Enes, para chefiar o V Governo Constitucional até Janeiro de 1980 para preparar as eleições legislativas intercalares de Dezembro desse ano. Fui, até agora, a primeira e única mulher com o cargo de chefe de governo. Em 1980 apoiei a candidatura do General Ramalho Eanes e exerci funções de sua consultora desde 1981 a 1985.

P  –  Bom, mas não se ficou por aí…

MLP  –  Sim, fui candidata independente às eleições presidenciais de 1986 mas as candidaturas estavam muito polarizadas, já sem candidatos militares. Os aparelhos partidários são fundamentais nas eleições… Depois aderi ao Partido Socialista e fui deputada ao Parlamento Europeu de 1987 a 1989.

P  –  Os partidos da Democracia Cristã e o PSD conflituaram consigo durante essa época, considerando-a um bocado “esquerdista”. Houve até quem, por graça,  lhe chamasse “um peixinho vermelho numa pia de água benta”…

MLP  –  Também soube dessa graçola mas não liguei. Até me ri um bocado… Depois da aventura política fui professora na Universidade Aberta, na Internacional de Lisboa, membro do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida e Presidente da Fundação Cuidar O Futuro, instituida pela Associação Graal. Foi por aí que conclui a minha vida pública, sem desistências…

P  –  Srª Engenheira, não a quero incomodar mais. Muita gente vai ficar a conhecer a sua longa, valiosa e atribulada vida… Agradeço-lhe a sua amabilidade em me dispensar o seu tempo para esta conversa… Muito obrigado.

MLP  –  Eu é que agradeço… Dê saudades à minha prima Maria Amélia…

 

 

PS  –  M. L. Pintasilgo foi galardoada em 1986 com o Living Legacy Award atribuido pelo Women’s International Center, em S. Diego, California. Recebeu o doutoramento “honoris causa” pela Universidade Católica de Lovaina em 1990. Foi agraciada com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Nosso Senhor Jesus Cristo e com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, além de muitas outras honrarias nacionais e estrangeiras.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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