CHUVA DE CHOCOLATE

Fui obrigado a mudar o tema que tinha eleito para o meu texto de hoje. Por razões que facilmente compreenderão. Ia escrever sobre as barafundas, os desvarios, o lamaçal e os graves riscos que têm assolado a monarquia espanhola nos últimos tempos. Mas desisti de imediato ao ler, no Diário de Notícias de hoje, um excelente artigo do escritor e cronista Arturo Péres-Reverte (cuja obra tenho acompanhado com alguma fidelidade) onde ele escreve, de forma genial, o que se tem passado com a monarquia espanhola, num artigo a que deu o nome de “Para que preciso de um rei”. Vale a pena lê-lo. O que ele diz seria o que eu iria também dizer de forma, claro, muito menos hábil e menos conhecedora. Extraio desse artigo apenas uma “chamada” que o próprio jornal também escolheu: “Uma república precisa de um presidente culto, sábio, respeitado por todos. Um árbitro supremo cuja serenidade e atitude o situem acima de lutas políticas e mesquinhezes humanas. Alguém é capaz de nomear um político, homem ou mulher, que encaixe nessa descrição em Espanha? Juan Carlos I sai muito mal deste artigo, como não poderia deixar de ser.

Por estas breves razões resolvi encasular-me, de novo, no manancial enorme que a “silly season” nos vai permitindo. E preferi falar de um tema divertido, apesar de real, que aconteceu há poucos dias na Suiça. A famosíssima fábrica de chocolate Lindt & Spruengli, cujas instalações se situam na pequena cidade de Olten, entre Zurique e Basileia, confrontou-se com uma avaria mecânica no seu sistema de ventilação geral da fábrica. Coisa que poderia ter passado despercebida se os pequenos flocos de cacau que dão origem ao chocolate não se tivessem espalhado pelos céus de Olsten com a preciosa mas infeliz ajuda dos ventos fortes. O pó de cacau espalhou-se rapidamente por toda a cidade e, com grande espanto, na manhã seguinte, os moradores da terra viram as ruas, as suas casas e os seus carros cobertos por uma fina cobertura castanha de cacau que a todos pareceu, evidentemente, de chocolate. Nos tempos antigos, em que se acreditava nos malefícios ou nas bondades dos deuses, a coisa teria sido interpretada como um aviso ou uma bênção, conforme a credibilidade dos nativos. Apesar de tudo muita gente não terá lambido os exteriores dos automóveis ou as janelas de casa com receio do covid19. Terão até talvez pensado que se trataria de mais uma “habilidade chinesa”… Por cá nunca choveu chocolate e, se tal acontecesse, ficamos por saber o que se passaria nas noites festivas do desconfinamento.

Claro que a Lindt pagou tudo o que havia a pagar e, com a publicidade deste inesperado incidente, as vendas dos chocolates irão aumentar. A reparação foi feita e está tudo normal. Mas terá sido acidental?… Acho que sim.

Tudo isto se resolve mais facilmente que a “derrapagem Juanina” dos nossos vizinhos espanhóis. Que chova chocolate porque o “emérito” só se salva se morrer antes.

3 pensamentos sobre “CHUVA DE CHOCOLATE

  1. Juan Carlos I teria um lugar nobre da história espanhola se não se tem metido nas trapalhadas e aldrabices em que se meteu nos últimos anos.
    No entanto os espanhóis não podem esquecer que ele assegurou a transição pacífica para a democracia e que se envolveu pessoalmente contra uma tentativa de golpe de estado da extrema direita

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  2. Chocolate é uma das minhas sobremesas preferidas, desde pequeno. Não passo um dia sem comer um quadradinho ao almoço e outro ao jantar. Faz bem ao corpo e à alma.
    Lastimável a perda do delicioso produto que aconteceu à Lindt ( a minha marca estrangeira preferida )

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  3. Tenho tido uma certa dificuldade em adaptar-me à forma como o mundo está a evoluir. Tenho quase a certeza de que não sou só eu a franzir os olhos, tais as enormidades que as letras gordas dos noticiários nos apresentam diariamente. E esta família real, que sempre me habituei a vê-la na praia do Tamariz, ainda jovem, em pequeno grupo, sempre criou em mim, mesmo que à distância, uma simpatia, pela forma menos tradicional das nobrezas, cruzando-se, no banho, com os mais plebeus cidadãos, de encontro às ondas de um mar sem fronteiras. Faziam um grupo restrito, como muitos outros, sempre olhados com respeito, demonstrando, como a democracia se encaixaria bem naqueles calmos tempos, se a política e o bom senso assim o permitisse. E esta coisa de herdar o comando de um país, através de herança familiar, também é um assunto que me dificulta a compreensão, sabendo-se que as fraquezas humanas sempre existiram, nem nunca foram livres de qualquer episódio menos feliz. Aliás, como tem vindo a acontecer com muitas Republicas, por mais democráticas que sejam, como nestes últimos tempos se tem verificado. Apenas me parece, que os loucos anos vinte estão de volta, enrodilhados em cenários mais sofisticados. Talvez uma chuva abundante, de chocolate à espanhola, viesse a calhar ! Eu iria para a rua, com uma saqueta de churros. Tenho bem a certeza disso…!

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