Conversas Imaginárias – 7

Depois de há umas semanas termos imaginado uma conversa com Maria de Lurdes Pintasilgo regressamos hoje a este tema com uma figura ímpar da literatura portuguesa: o escritor Ferreira de Castro. Não será muito divulgado entre as camadas jovens de agora mas muitos dos seus livros ainda são lidos, grande parte das vezes sem se saber bem as proezas do autor.

José Maria Ferreira de Castro nasceu perto de Oliveira de Azeméis, a 24 de Maio de 1898. Filho de família pobre, camponesa, fica órfão de pai aos 8 anos e tira apenas a instrução primária. Aos 12 anos decide emigrar para o Brasil para tentar garantir a sobrevivência da família e, a partir daí, tornou-se autodidata em termos de aquisição de conhecimentos. Viveu na zona amazónica durante 4 anos, viveu em condições difíceis recorrendo a trabalhos esporádicos, como colar cartazes, embarcadiço em navios do Amazonas e muitos outros. Apaixonou-se pela escrita e em 1916 escreveu o seu primeiro livro, “Criminoso por Ambição” . Regressou a Portugal onde conseguiu ser redator de “O Século” e, mais tarde, participar em diversos outros jornais e revistas. Ao serviço do “Domingo Ilustrado” escreveu artigos importantes, polémicos, como o do dia em que se deixou prender no Limoeiro para testemunhar as vidas dos reclusos nas cadeias portuguesas ou, quando em Dublin, entrevistou, em 1930, o lider do Sinn Fein, Eamon de Valera. A explosão da sua escrita aconteceu com a publicação do livro “A Selva”, que veio a ter versão cinematográfica e se tornou, segundo a UNESCO em 1973, um dos 10 romances com maior publicação em todo o mundo, em diversas línguas. É longa a sua lista de obras publicadas e, de uma forma geral, de grande fôlego imaginativo e intelectual.

“Consagrado como uma das maiores figuras da literatura portuguesa, sobre ele escreveu Oscar Lopes: Foi o primeiro romancista português deste século que se determinou por problemas objetivos e não apenas por impulsos íntimos”.

Vamos tentar conversar um pouco com Ferreira de Castro e tentar perceber um pouco melhor as peripécias infindáveis da sua vida. Como é habitual as nossas perguntas serão precedidas de P e as respostas de Ferreira de Castro por FC .

P – Levando em conta o seu historial como escritor e a forma como ficou conhecido no mundo das letras não se importará que, durante esta conversa, o trate por Mestre…

FC – Acho pomposo mas não vejo inconveniente. Pode ser. Aceito.

P – Como calculará não posso deixar de abordar a sua infância que, de acordo com todos os relatos, foi de extrema dificuldade. Era o filho mais velho de uma família muito pobre do norte, Oliveira de Azemeis, e aos 8 anos ficou órfão de pai. Acho surpreendente que, aos 12 anos, tenha partido sozinho para o Brasil, tentando arranjar sustento para a família…

FC – Sim, foi isso que aconteceu. O tempo que se vivia era muito mau e eu sempre tive uma forma determinada, embora dura, de encarar a vida. Em Janeiro de 1911 arranjei trabalho no barco “Jerôme” que me levou até Belém do Pará. Fixei-me em Paraíso, em plena floresta amazónica, onde fiz todo o tipo de trabalho. Derrubava árvores, junto às margens do rio Madeira, colava cartazes quando era preciso, fiz muito de embarcadiço nas embarcações da zona. Lá ia mandando uns dinheiritos para Portugal, para a família, coisa pouca mas que sempre servia…

P – Mas já nessa altura parece que escreveu o seu primeiro livro…

FC – Sim, foi a minha primeira aventura na escrita, em 1916. Um romance a que chamei “Criminoso por Ambição”. Coisa sem grande interesse mas que para mim foi muito importante. Deu-me força ao que gostava de fazer que era escrever… Principalmente porque o publiquei em fascículos que ia vendendo porta a porta…

P – Não só escrever como também ler e estudar muito do que encontrava escrito por toda a parte… Uma enorme faceta de autodidata… Mas depois regressou a Portugal…

FC – Sim, voltei, já tinha dificuldade em aguentar aquela vida e tinha saudades de Portugal. Era um país cheio de problemas mas era o meu país.

P – E parece que conseguiu arranjar um lugar num jornal…

FC – Sim, comecei como redator do Século e fui trabalhando para outros. Mas foi Pereira da Rosa quem muito, ou tudo, me ajudou para continuar no ofício e me obrigar a escrever. Obrigava-me a fazer crónicas que fossem lidas com interesse pelos leitores e eu fazia bem isso…

P – Sim, parece até que se meteu em aventuras muito especiais para a época que se vivia…

FC – Um dia deixei-me prender para ir passar uns dias ao Limoeiro e escrever sobre as condições de vida nas cadeias portuguesas. O Pereira da Rosa tirou-me de lá, claro, mas mandou-me para Dublin fazer uma entrevista ao lider do Sinn Fein, Eamon de Valera, isso já em 1930.

P – Parece que foi nesse ano que escreveu talvez o seu mais famoso livro “A Selva” … Livro que o levou a ser proposto para o Prémio Nobel da Literatura…

FC – Sim, é verdade, prémio que, no entanto, nunca ganhei, embora tenha sido proposto outras vezes. Sempre recusei por achar que havia outros que o mereciam mais que eu. A “Selva” foi escrita com base na minha longa experiência de vida na Amazónia e tive a sorte de ser bem aceite em toda a parte. Até fizeram um filme…

P – Também li e tenho esse livro há muitos anos. Mas tenho outros que achei extraordinários, principalmente pelo imenso trabalho de viagem, investigação e colaboração que lhe devem ter exigido. São “A Volta ao Mundo” que publicou em 1944, com 678 páginas, e as “Maravilhas Artísticas do Mundo” (ou a Prodigiosa Aventura do Homem através da Arte) , em dois volumes, o primeiro com 477 páginas e extraordinárias gravuras, o segundo com 1052 páginas e com a mesma exuberância. Foram edições de luxo da Empresa Nacional de Publicidade… Tenho essas duas obras…

FC – Então guarde-as bem porque, segundo creio, estão esgotadas e valem bom dinheiro… Devo dizer-lhe que, principalmente nessas obras, fui muito apoiado por gente minha conhecida, portuguesa e estrangeira e na parte ilustrada, por exemplo, tive a colaboração de Júlio Pomar, Keil do Amaral, Sarah Affonso, Artur Bual, João Abel Manta e outros.

P – Viveu em anos de censura, o que não deve ter sido fácil, principalmente no período pós-guerra em que foi, sem dúvida o escritor português mais lido…

FC – Sim, já em 1934 tinha abandonado o jornalismo por causa da censura prévia. Cheguei a escrever mais tarde, julgo que na “Mensagem”, “… que a censura tem, porém, uma virtude: é demonstrar quanto vale ser um homem livre!”

P – Sempre foi um homem da oposição ao antigo regime e, apesar disso, nunca lhe conseguiram roubar o prestígio de que gozou e pelo qual ainda hoje é conhecido…

FC – Sim, acho que ainda haverá quem se lembre de mim e leia os meus livros… No entanto posso dizer-lhe que um dos dias mais felizes da minha vida foi o 25 de Abril de 1974… Ainda desfilei no 1º de Maio desse ano…

P – Não tencionava fazer perguntas sobre a sua vida familiar mas já que falou dela…

FC – Não tem problema… Fui casado por duas vezes. A minha primeira mulher foi Diana de Lis que morreu tragicamente em 1930. Tínhamos casado 3 anos antes. Da minha segunda mulher, Elena Muriel, com quem casei em 1938, tive uma filha. Passei tempos de recolhimento na Madeira, em 1933, período durante o qual escrevi o livro “A Eternidade”, muito soturno com a obsessão pela morte…

P – Mestre, não o quero maçar mais, já me contou muito mais do que eu poderia esperar. Quero agradecer-lhe esta agradável conversa e perguntar-lhe se não se importa que, no fim do meu texto, ponha uma pequena lista das suas obras…

FC – À vontade… Agradeço também ter-se lembrado de mim.

NOTA: Além das duas obras maiores indicadas no texto poderemos acrescentar, para quem não tenha lido, outros romances como: Emigrantes; A Selva; Eternidade; Terra Fria; Pequenos Mundos; A Tempestade; A Lã e a Neve; A Curva da Estrada; A Missão.

Uma palavra de agradecimento ao escritor e a quem vier a ler este texto.

2 pensamentos sobre “Conversas Imaginárias – 7

  1. Ferreira de Castro foi um dos meus romancistas predilectos, Tenho 12 dos seus títulos que compartilham mesma estante que o Eça. Todos, excepto a “A Experiência” foram editados pela Guimarães & C.ª e têm o ex-libris do autor. Destes, o último que tinha comprado foi ” Os Fragmentos ” e sobre ele fiz a seguinte pergunta, por e-mail, a quem poderia responder :

    EXMOS SENHORES
    Bom dia
    A Guimarães & C.ª editou, salvo erro em 1974, um livro de Ferreira de Castro com o título “Os Fragmentos”.  ( de que tenho um exemplar ). Constou que o livro tinha estado na gaveta, para evitar ser censurado, e que  Ferreira de Castro só autorizou a sua publicação depois do 25 de Abril de 1974.
    Isto corresponde à realidade ?
    Desde já, muito obrigado a quem tiver a paciência de responder.
    Cumprimentos
    F. Fonseca Santos

    A sucessora da Guimarães, a BABEL, respondeu-me que não sabia, que já não havia ninguém desse tempo ( o que é natural ) e o Centro de Estudos de Ferreira de Castro de Ossela ainda não respondeu

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  2. Desde muito jovem que conheço as principais obras de Ferreira de Castro. A começar pela edição de ” A Volta ao Mundo “, cuja ilustração fotográfica me surpreendia e me fazia pensar como o mundo era constituído, ao virar de cada página ilustrada, transportando-me a sítios que nunca poderia imaginar existirem, surpreendendo-me pelos costumes e civilizações. Com o amadurecer dos anos, maior a admiração pela sua escrita, tão bem representada no livro ” A Selva “, tão cheio de emoção por terras sertanejas, do Nordeste brasileiro, entre outros. Toda a sua obra revela a sua inexorável personalidade, talvez pela dureza de uma vida que teve que enfrentar, desde que se tornou adulto ainda criança, como muitos outros portugueses, que se viram obrigados a emigrar ..!

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