11 minutos de férias

Ao pensar na extraordinária aventura de Jeff Bezos, agora chamado de astronauta da Blue Origin, que durante 11 minutos viveu, segundo ele, a maior experiência da sua vida, tentei replicar aquilo que um cidadão normal, como eu e milhões de outros, conseguiriam fazer durante 11 minutos num período de férias, sem pressões decorrentes da sempre problemática vida quotidiana.

Do pequeno pátio da casa onde estou e costumo passar férias, sentado numa daquelas cadeiras plásticas de braços, brancas, que toda a gente usa, comecei a imaginar que aventura poderia fazer para, ao fim de 11 minutos, poder dizer, como Bezos, que teria tido a maior experiência da minha vida. Sou engenheiro como ele, eletrotécnico, como ele, mas apenas de correntes fracas que era o que havia no meu tempo. Não frequentei Wall Sreet nem consegui criar uma empresa como a Amazon. Ele comprou o Washington Post em 2013 por 250 milhões de dólares, em dinheiro, e eu assino dois jornalecos e umas revistas que me vão contando as histórias, entre outras, do Jeff Bezos. Ele é agora considerado o homem mais rico do mundo, coisa que a mim nunca me passou pela cabeça ser, por falta de muita coisa que ele sempre teve em excesso. Nasci e vivo num pequeno país europeu e, por coincidência, nunca fui a Albuquerque, no Novo México, Estados Unidos, onde ele nasceu. Origens, qualidades e ambientes de vida que implicam, evidentemente, que os nossos 11 minutos de férias não possam ser iguais.

Mas tentei perceber. Pus o cronómetro a funcionar e levantei-me, diligente, para ir a uma pequena mas maravilhosa casa de gelados que, segundo muitas opiniões, vende os melhores gelados do mundo (tudo “home made”). Nisso estou à frente do Bezos. Pedi uma bolinha de gelado de “pistachio”, a 2 euros, e voltei, sempre diligente para a cadeira do meu pátio. Sentei-me, olhei para o cronómetro e vi que tinham passado 6 minutos. Faltavam cinco para eu poder falar sobre a minha “tal experiência de vida”. Deliciei-me com o gelado e terminei-o justamente aos 11 minutos. Tudo o que eu fiz deu tempo a Bezos para ir ao espaço, logo à saída da atmosfera, numa aeronave maravilhosa, o que lhe permitiu ver a Terra lá de cima, como todos nós também já vimos na televisão. Ele ficou com a certeza de que o nosso planeta é quase redondo mas a sua ideia é levada da breca (também essa não me ocorreu): “Vai tentar comercializar o espaço, num futuro de centenas de anos, esperando que milhões de pessoas venham a viver e a trabalhar no espaço. Se aí se trabalhar na energia e na indústria pesada a poluição na Terra será fortemente reduzida”. E ele e os descendentes receberão as rendas, claro. Tudo já autorizado pelo governo dos Estados Unidos. E ele sabe que já vai tendo concorrência… A sua fortuna atual é já de centenas de milhões de dólares. Só ele saberá ao certo. Ficou, no entanto, denunciado que a missão de Bezos não incluia nenhum cientista que pudesse dizer algo de novo, para além do que os de tantas outras missões já conseguiram descobrir e explicar. O mesmo se passa com o meu gelado. Embora eu diga que é o melhor do mundo não disponho de nenhum cientista que avalise esta minha pomposa declaração.

Passados os meus 11 minutos interroguei-me sobre qual teria sido a maior experiência da minha vida. Não tem nada a ver com o gelado nem com a ida ao espaço. Os meus interesses são outros e a minha pequenez nem consegue absorver toda a genialidade de Bezos e as oportunidades que ele soube conquistar. Apenas me ocorreu que, naqueles 11 minutos ajudei, embora pouco, um comerciante de gelados, que faz disso a sua vida e que mantém o trabalho de 4 pessoas que tem na sua loja. E é toda essa gente, em todo o mundo, que nem sabe quem é o Bezos, que nos 11 minutos em que ele foi lá acima e viveu a “maior experiência da sua vida”, que sofre e luta para sobreviver. Nesses 11 minutos morreram milhares de pessoas em todo o mundo, de doença e de fome, sem qualquer esperança de irem trabalhar, no futuro, para o espaço. Se calhar já lá estarão quando o Bezos lá chegar. O nosso engenheiro-astronauta diz que os seus projetos empresariais a desenvolver no espaço (hoteis espaciais, parques de diversões, colónias e pequenas cidades de 2/3 milhões de habitantes) poderão prevenir alguma coisa menos agradável que se venha a passar na Terra. Portanto os milhares de pessoas que orbitarão em torno do planeta não serão incomodados pela poluição, pelos engarrafamentos, pelos tremores de terra, pelas faltas de água, pela ganância dos corruptos. Será assim? Amarão como se ama na Terra? Serão felizes como os remediados e os pobres que vivem no nosso planeta? Virão a morrer de fome e angústia como os que, aos milhares, vão morrendo próximos de nós? Há que reconhecer que as ideias do homem são fantásticas. Muita gente se riu com as descrições de Julio Verne que, no século XIX, conseguiu imaginar o que, realmente, se veio a realizar. Portanto, longe de mim, duvidar do empreendorismo e dos devaneios do Jeff. Mas houve uma coisa que Julio Verne não remediou: foi a qualidade de vida no mundo, foi o progresso desbragado dos ricos e o amontoado e incontrolado volume de pobres. E fico sempre desconfiado quando se fala em abandonar um local para fugir a problemas que aí possam acontecer, em vez de tudo fazer para que esse local se vá tornando melhor, mais adaptado aos nativos, transformar-se num melhor fornecedor de felicidade.

Depois dos seus 11 minutos no espaço Bezos e a sua pequena equipa desembarcaram na Terra, foram muito cumprimentados e deram uma entrevista para todos os meios comunicacionais do mundo. Pôs um chapéu à “cowboy” e desatou a agradecer a todos os ricos do mundo que o ajudaram no seu fantástico projeto. Eu tenho um chapéu mais bonito que o dele, trouxe-o da Austrália, e fui logo buscá-lo para me sentar, de novo, no meu pátio. Não tive ninguém a quem falar da minha experiência dos 11 minutos. Como, aliás, os milhões de habitantes da Terra que ninguém ouve no meio das suas desgraças, das suas limitações, dos seus infortúnios, das suas condenações iminentes. Quando se sabe que cerca de 50 grupos empresariais no mundo acumulam mais riqueza que muitos países que por cá existem, somos obrigados a interrogar-nos se não haveria melhores estratégias para mentes brilhantes como a de Jeff Bezos inventarem meios de redistribuição qualificada, pelo menos para uma parte daqueles com quem ele convive (embora ignore) no mesmo planeta.

Por muito que não se queira, acabamos por pensar se, uma vez existente o tal mundo espacial e industrializado que ele concebeu, não virá, um dia, o perigo de esse mundo atacar este em que vivemos por o considerarem de menor importância e talvez dispensável. Não seriam os tremores de terra, um dia, substituidos por tremores espaciais?

Admiro as mentes brilhantes. Existem muitas no nosso planeta que têm feito obras esplendorosas. Peço desculpa a mim próprio de considerar os planos do engenheiro Bezos muito duvidosos e incompletos no que ao bem na Terra diz respeito. Ele será, sem dúvida, um ícone para a História mas, sinceramente, duvido que o mundo corriqueiro que é o nosso venha a beneficiar com as “arrancadas” intelectuais de Jeff e seus comparsas. Sei que nunca lhe pagarei bilhete para ir ao espaço mas também já evito encomendar através da Amazon, coisa a que nunca fui muito ligado. Mesmo que a Amazon já não lhe pertença.

Ainda há muitas coisas para fazer na Terra, muita gente a precisar que todas essas coisas aconteçam. Mais na Terra do que nas cidades do espaço que ainda nem sequer existem. Se calhar para nosso bem.

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